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Vítor Soares / Cruzadas

Outro ponto de vista: a Cruzada na visão dos árabes

Em sua coluna no Aventuras na História, o professor Vítor Soares discorre sobre o impacto das cruzadas da Era Medieval sob a perspectiva dos árabes

Vítor Soares, professor de História Publicado em 01/04/2025, às 21h00 - Atualizado em 03/04/2025, às 17h52

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Gravura de batalha entre soldados do sacro império romano-germânico e árabes - Getty Images
Gravura de batalha entre soldados do sacro império romano-germânico e árabes - Getty Images

As Cruzadas são amplamente estudadas nas escolas e frequentemente são contadas a partir da visão dos cristãos europeus. Nessa narrativa, os cruzados são heróis religiosos em missão sagrada, e os muçulmanos acabam sendo retratados como inimigos a serem derrotados.

O objetivo aqui é inverter esse ponto de vista e trazer à tona a perspectiva daqueles que foram, quase sempre, tratados como vilões.

De forma geral, entendemos as Cruzadas como expedições militares autorizadas pelo papa Urbano II, a partir do Concílio de Clermont em 1095, com o objetivo declarado de retomar o controle de Jerusalém, considerada a Terra Santa, então sob domínio muçulmano.

Mas, para compreender como os árabes enxergaram esse conflito, é necessário voltar ainda mais no tempo e entender como se formou o Islã e os califados que organizaram os muçulmanos.

O outro lado

Segundo a tradição islâmica, Maomé recebeu a revelação divina do anjo Gabriel, que lhe disse, em árabe, que havia apenas um Deus, Alá, e que ele deveria espalhar essa mensagem. 

Perseguido em Meca, Maomé fugiu para Medina no episódio conhecido como Hégira, que marca o início do calendário muçulmano. A partir de Medina, ele estruturou a nova religião e retornou a Meca para conquistá-la. 

Após sua morte, em 632, iniciou-se uma disputa de sucessão entre dois grupos: os seguidores de Abu Bakr, sogro do profeta, e os de Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé.

Essa divisão deu origem ao Califado Rashidun, seguido pelo Califado Omíada, que estabeleceu sua capital em Damasco, e depois o Califado Abássida, com capital em Bagdá.

Com isso, os muçulmanos se expandiram por uma vasta região, incluindo a Península Arábica, boa parte da Ásia Ocidental, o Norte da África e até a Península Ibérica.

Jerusalém, centro da disputa nas Cruzadas, era sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Para os muçulmanos, foi lá que Maomé ascendeu aos céus. Conquistada pelo Califa Omar em 637, Jerusalém se tornou um espaço de convivência religiosa, com peregrinos de diversas fés. 

Tensões

Segundo a professora Denise Policarpo, por muito tempo, Jerusalém foi um lugar onde as diferentes religiões podiam coexistir, com exceção de alguns momentos de conflito, como no governo do califa Al-Hakim, que perseguiu cristãos.

Essa breve perseguição foi uma das justificativas usadas por Urbano II para convocar as Cruzadas. Aqui já vemos a diferença de narrativas. Para os cristãos, as Cruzadas eram uma resposta a ataques. Para os muçulmanos, tratava-se de invasões violentas contra territórios que já lhes pertenciam.

O professor Mansur Peixoto afirma que, ao interpretar as ações dos muçulmanos como simples atos de violência descontextualizados, cometemos um erro. Havia um contexto político e social por trás das disputas entre os reinos cristãos, como o Império Bizantino, e os califados muçulmanos. 

Essa perspectiva ajuda a entender por que os muçulmanos enxergam as Cruzadas de forma diferente. Enquanto o Ocidente fala em retomar Jerusalém, os árabes falam em resistir a invasores.

Inclusive, os muçulmanos não veem as Cruzadas começando em 1095. Para eles, os ataques cristãos já vinham ocorrendo desde meados do século XI, com conquistas em regiões como a Sicília e a Espanha

Da mesma forma, o fim das Cruzadas para os árabes não acontece com a queda de Acre em 1291, como afirmam os historiadores ocidentais, mas apenas no século XV, com a tomada de Constantinopla pelos otomanos. Esse deslocamento cronológico mostra o quanto as visões sobre um mesmo evento podem ser diferentes.

Memóri árabe

Entre os nomes árabes mais lembrados nas Cruzadas, nenhum é mais importante do que Saladino. Educado religiosamente e treinado militarmente, Saladino iniciou sua carreira no Egito sob comando de seu tio Shirkuh. 

Após vencer uma guerra civil e unificar o Egito e a Síria, Saladino tentou retomar Jerusalém em 1177, mas foi derrotado pelo rei leproso Balduíno IV. Essa derrota marcou um ponto de virada em sua trajetória. A partir dali, Saladino nunca mais perderia para os cristãos.

Em 1187, liderou o exército muçulmano na Batalha de Hattin, obtendo uma vitória esmagadora contra os cruzados. No mesmo ano, cercou Jerusalém e retomou a cidade, encerrando a presença cristã na região. 

Apesar das tentativas posteriores de novas cruzadas, Saladino consolidou seu domínio e entrou para a história como um herói muçulmano, lembrado até hoje como símbolo de resistência e sabedoria militar.

Analisar as Cruzadas sob a ótica árabe nos lembra que a história é feita de disputas por poder, mas também por memória. Se os reinos cristãos usaram as Cruzadas para construir uma narrativa de glória e moral, o mesmo pode ser feito com os árabes que resistiram à invasão de suas terras. Compreender isso não é tomar partido, mas entender que a história, como campo de disputa, precisa de múltiplas vozes.