Vítor Soares / História

Erro Crasso: Quais são as origens da expressão que referencia general romano?

Vaidade de Marco Licínio Crasso, levou 40 mil soldados à morte, séculos depois seu nome virou a expressão; veja as origens do erro crasso:

Fotografia de busto de Crasso e ilustração de batalha romana sendo travada
Fotografia de busto de Crasso e ilustração de batalha romana sendo travada - Créditos: WikiCommons e Getty Images

Por muitos é conhecida a expressão “erro crasso” para se referenciar erros gigantes, falhas grosseiras, atos imperdoáveis, entre outros. Fato é que a expressão é uma forma bonita de se referir a um erro desastroso. Mas muito mais que uma simples figura de linguagem, o termo faz referência à falha de um general romano, Marco Licínio Crasso.

Com uma dose de eruditismo, a expressão relembra a expedição militar de Crasso que levou 40 mil soldados romanos à morte certa. Inclusive, o próprio Crasso e seu filho. Mas o que aconteceu de tão absurdo para que a expressão sobrevivesse desde o Império Romano até hoje? Conheça!

Primeiro Triunvirato

Marco Licínio Crasso (115 a.C. – 53 a.C.), foi um exímio negociante e se enriqueceu durante a ditadura de Lúcio Cornélio Sula, com a especulação imobiliária. Assim, se tornou o homem mais rico de Roma e construiu uma das maiores fortunas da história. Justamente sua influência econômica e política o fez, ao lado de Júlio César e Pompeu, integrante do Primeiro Triunvirato.

Basicamente, o triunvirato foi uma união informal na década de 50 a.C. entre esses três influentes homens. Pois, ao se unirem, eles poderiam cobrir suas faltas e aprimorar seus atributos no meio do Senado Romano.

Ou seja, Júlio César, o recém-eleito cônsul, mas que não tinha aliados políticos, podia contar com Crasso, que apesar do dinheiro não tinha muita influência política e nem era bom guerreiro. Que por sua vez podiam contar com Pompeu, militar nato e extremamente popular com a multidão, mas que diferente dos outros dois, não tinha origem nobre e por isso era desprezado pelo Senado.

César queria aliados políticos; Pompeu queria terras para cultivar junto aos seus veteranos; e Crasso queria bons guerreiros e estrategistas ao seu lado para dar continuidade nos seus planos de conquistar o Império Parta. Assim, para unir esforços, cobrir as falhas um dos outros e fortalecer o que já eram bons, os três se juntaram.

César, Crasso e Pompeu, primeiro triunviratum de Roma / Crédito: Domínio Público

Orgulho e queda, o erro absurdo

De acordo com o canal Terra, após alguns anos, Crasso conseguiu aumentar sua influência política dentro do Senado, mas ainda sentia que era desprezado por não conseguir garantir esse prestígio no campo militar. Por isso, decidiu orquestrar uma campanha militar massiva contra o Império Parta, que ficava na região do Império Persa.

Nesse sentido, o primeiro erro foi não ter um casus belli — uma justificativa de guerra clara. Os poucos aliados políticos que aconselharam e o avisaram de maus-presságios foram ignorados. Para ele, se não se arriscasse, nunca conseguiria a aura lendária que almejava.

Dessa forma, perto da atual Turquia, no ano de 53. a.C., Crasso mobilizou aproximadamente 40.000 soldados romanos. Dentre eles, cerca de 28.000 a 35.000 legionários (infantaria pesada), 4.000 cavaleiros (incluindo mil cavaleiros gauleses liderados por seu filho, Públio) e 4.000 tropas auxiliares (infantaria leve).

Embora suas tropas fossem muito mais numerosas que as do inimigo — cerca de 10.000 homens, dos quais 9 mil eram arqueiros a cavalo e o restante catafractários (cavalaria pesada couraçada) —, Crasso subestimou as condições ambientais e geográficas.

A fim de cortar caminho, ao invés de ir pela Armênia, Crasso optou por marchar pelo deserto da Mesopotâmia. Assim, o segundo erro foi o desgaste desnecessário das tropas. Não obstante, após um caminho estreito que percorreram, os Partas mobilizaram suas tropas e os encurralaram. Assim teve início a Batalha de Carras.

Os Partas criaram um ambiente que fosse impossível recuar e a única alternativa fosse ir de encontro com a constante chuva de flechas atiradas por 9.000 soldados. Por fim, a infantaria pesada romana, lenta, não conseguia alcançar os arqueiros móveis. Cerca de 20.000 foram mortos e 10.000 foram capturados.

Em suma, Crasso e Públio, foram capturados e tentaram negociar uma trégua, mas sem sucesso foram mortos naquele mesmo lugar. Inclusive, há uma lenda que diz que os partas mataram Crasso derramando ouro derretido em sua garganta, desdenhando de sua ganância insaciável.

Erro Crasso: A expressão e atualidade

Contudo, a expressão que faz referência ao militar fracassado, diferente do que muitos pensam, não sobreviveu milênios até chegar até nós. Na verdade, segundo o grego Robert Levonian, ex-professor da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), a expressão só foi surgir entre os séculos 19 e 20.

Junto de expressões como “calcanhar de aquiles” e “vitória de pirro”, a expressão “erro crasso” advém de um contexto elitista do século 19 e começo do século 20. Levonian destaca:

Elas se disseminaram principalmente no século 19 e no início do século passado. Estudar Grécia e Roma era comum, e esses acontecimentos acabavam se transformando em expressões na boca de quem queria demonstrar certa erudição“.

Ou seja, mais do que uma tradição que teria passado para a última flor do lácio, como diria Olavo Bilac, a expressão “erro crasso”, ainda que remeta à Antiguidade, é extremamente recente.

De qualquer forma, a expressão é símbolo de uma língua viva e que constantemente se transforma e readéqua aos seus contextos. Crasso, por sua vez, também se mantém vivo na língua, ainda que não seja no melhor de seus feitos.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: