Os ‘bastidores’ da fundação da Academia Brasileira de Letras, há 129 anos

Sendo o primeiro presidente, Machado de Assis marcou a história do surgimento da Academia Brasileira de Letra, em 20 de julho de 1897. Entenda!

Foto do grupo Panelinha integrantes da Academia Brasileira de Letras em 1901 - Créditos: Divulgação: Arquivo ABL

Em 20 de julho de 1897, em uma sala do museu Pedagogium, no Rio de Janeiro, um grupo de letrados e acadêmicos fundou oficialmente a Academia Brasileira de Letras (ABL). Assim, dentre os 16 acadêmicos originários, Machado de Assis foi o escolhido para ser o primeiro presidente.

Originada poucos anos depois da Proclamação da República, em 1889, a Academia Brasileira de Letras foi peça fundamental da construção do Brasil e de sua literatura 129 anos de existência. Joaquim Nabuco, um dos maiores líderes do movimento anti-escravista brasileiro, fez o discurso de abertura da ABL.

Nós não pretendemos matar o literato, no artista, o patriota, porque sem a pátria, sem a nação, não há escritor, e com ela há forçosamente o político. Até hoje, apesar do cristianismo, que trouxe o sentimento de uma comunhão mais vasta, o gênio nada fez fora da pátria ou, pelo menos, contra a pátria”, disse em trecho do seu discurso.

Fato é que as principais mentes brasileiras, como Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Olavo Bilac, Rui Barbosa, Artur Azevedo, Teixeira de Melo, Graça Aranha e até mesmo Getúlio Vargas passaram pela academia. Entenda um pouco mais da história!

Os precedentes da ABL

De acordo com os fundadores da ABL, as sessões preparatórias para a criação ocorreram desde 15 de dezembro de 1896. A ideia inicial foi de Lúcio de Mendonça e inspirada na Academia Francesa, que tinha o mesmo objetivo. Assim, instituiu-se desde o começo que o grupo conteria 40 integrantes e 20 sócios correspondentes estrangeiros

Contudo, desde o começo o “O Bruxo do Cosme Velho“, apelido de Machado de Assis, foi proclamado o presidente do grupo. Sua importância e prestígio nacional seriam essenciais para a consolidação do grupo. 

Fotografia de Machado de Assis aos 65 anos de idade / Crédito:Domínio Público/ Wikimedia Commons

Mas para reunir todas as mentes que deram início ao projeto, foi necessário um empurrãozinho de José Veríssimo e a Revista Brasileira, que na época serviu de polo cultural aglutinador do grupo fundador da ABL.

Já no ano seguinte, no fim de janeiro, o primeiro estatuto da casa foi criado. Em seu 1° artigo, está escrito: 

A Academia Brasileira de Letras, com sede no Rio de Janeiro, tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional, e funcionará de acordo com as normas estabelecidas em seu Regimento Interno”.

Depois disso, o grupo passou a se organizar e utilizar da sua influência para poder conquistar seu espaço. De forma que, em 20 de julho, conseguiram, em uma sala do Museu Pedagogium, na Rua do Passeio, fundar o grupo ao som do discurso inaugural de Joaquim Nabuco e com essas breves palavras de Machado:

SENHORES,

Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora, que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

Não é preciso definir esta instituição. Iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

A ‘Panelinha’

Pelos próximos 10 anos, Machado esteve à frente do Academia Brasileira de Letras, integrando e organizando o grupo para o preenchimento das 40 cadeiras. Dentre os acontecimentos mais notáveis, durante a época de Assis, está a criação do grupo Panelinha, que se reuniam para almoçar.

Foto do grupo Panelinha integrantes da Academia Brasileira de Letras em 1901 – Créditos: Divulgação: Arquivo ABL

Conforme o Globo, a fotografia que se tem do grupo, foi tirada no Hotel Rio Branco e conta com Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio, Heitor Peixoto, João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos.

Momentos marcantes da ABL

Atualmente, muito se conhece a academia por suas premiações, mas essas só passaram a existir depois de 1917. Quando o livreiro Francisco Alves de Oliveira deixou sua fortuna para a instituição, com uma única condição, a de que a casa precisava organizar concursos, prêmios literários e sessões ordinárias bonificadas.

De forma que desde então, as maiores premiações da literatura brasileira foram criadas. Por exemplo: 

  • Prêmio ABL de Cinema;
  • Prêmio ABL de Ensaio crítica e história literária;
  • Prêmio ABL de Ficção romance teatro e conto;
  • Prêmio ABL de História e Ciências Sociais;
  • Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil;
  • Prêmio ABL de Poesia;
  • Prêmio ABL de Tradução;
  • Prêmio Francisco Alves;
  • Prêmio José Lins do Rego;
  • Prêmio Abgar Renault;
  • Prêmio Machado de Assis.

Já em 1923, o grupo, que até então se abrigava no Silogeu, passou a se reunir no Petit Trianon, sua primeira sede própria e atual localização do grupo. Inclusive, o prédio foi construído como réplica do Petit Trianon de Versalhes — erguido pelo governo francês para abrigar o pavilhão da França durante as comemorações do centenário da Independência, em 1922.

Maiores conflitos e resistência

Porém, nem tudo são flores. Durante sua história, a Academia Brasileira de Letras passou por algumas situações difíceis. Vale a pena citar o grande conflito causado por Graça Aranha, em 1924. Durante uma reunião, o escritor chamou a ABL de “reunião de espectros, um túmulo de múmias, um império de todas as velhices”.

Não obstante, parte da plateia passou a gritar “morte à Grécia” enquanto que outra parte ergueu Coelho Neto nos ombros. Enquanto desfilava pelo auditório, Coelho gritava: “Sou o último dos helenos”. Apenas 4 meses depois, Graça Aranha se desligou da Academia Brasileira de Letras.

Entretanto, talvez o momento mais criticado do grupo foi quando parte do dele decidiu eleger Getúlio Vargas à cadeira 37 — eternizada de Tomás António Gonzaga. Pois o líder do Estado Novo, em curso, não precisou passar pelos rituais de eleição. Na verdade, apenas enviou uma carta de inscrição e mexeu seus pauzinhos para que ocorresse.

Getúlio Vargas
Getúlio Vargas – Getty Images

O legado da ABL

De qualquer maneira, a “Casa de Machado de Assis” apesar de carregar o nome do lendário escritor brasileiro, conseguiu superar gerações e se transformar junto à sociedade. Mais do que uma sombra e um resultado dos esforços do bruxo carioca, a ABL é símbolo não só de tradição, mas de inovação na literatura e nos frutos da língua.

O trabalho constante dos mais diversos participantes contribuiu para que a academia resistisse ao tempo e se mantivesse atual. De Olavo Bilac à Gilberto Gil, a ABL é sinal e símbolo das literaturas do Brasil e têm constantemente se esforçado para dialogar com a sociedade, quebrando os estigma de “Torre de Marfim”.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: