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Entre o Futebol, a história e o tabu: A Argentina é um país racista?

Com apenas três atletas negros na história de sua seleção, o país vizinho enfrenta o espelho de seu passado colonial diante de uma final de Copa marcada pela diversidade

Imagem ilustrativa - Getty Image

A grande decisão da Copa do Mundo que será disputada no próximo domingo, 19, entre Argentina e Espanha traz à tona um espetáculo esportivo de escala global, mas também serve como um debate que ultrapassa as barreiras das quatro linhas.

Dentro de campo, uma discrepância visual e histórica chama a atenção de analistas do mundo inteiro: entre todos os atletas que disputarão o título máximo do futebol, a presença de jogadores negros estará restrita a apenas dois nomes, ambos vestindo a camisa da seleção espanhola — as jovens estrelas Nico Williams e Lamine Yamal.

Embora não se tenha números oficiais, estima-se que nunca houve uma copa com tantos atletas negros como a edição de 2026; tanto pelo aumento de seleções participantes (e estabeleceu o recorde de 10 seleções africanas no torneio), quanto também por seu protagonismo nas principais equipes do torneio, como Kylian Mbappé, Bukayo Saka, Vinícius Júnior, Rafael Leão

Do lado albiceleste, o cenário de uniformidade étnica não é uma coincidência desta geração, mas a perpetuação de um padrão histórico. Ao longo de mais de um século de história, a seleção argentina de futebol contou com apenas três atletas negros vestindo a camisa principal do país.

Esse fenômeno ‘estético’ e demográfico nos gramados aciona uma dúvida recorrente que ecoa muito além das quatro linhas: afinal, a Argentina é um país racista?

Jogadores argentinos perfilados no hino nacional
Jogadores argentinos perfilados no hino nacional – Getty Images

A aparente ausência de uma população negra visível no cotidiano e nas instituições do país vizinho frequentemente levanta debates sobre apagamento, extermínio histórico e preconceito estrutural. Para compreender essa realidade complexa, é preciso desmistificar discursos oficiais e resgatar os mecanismos que moldaram a demografia da nação portenha.

++Por que não há negros na Seleção Argentina de futebol?

Desmistificando a “Evaporação Genética”

Para compreender a atual configuração demográfica argentina, é fundamental retroceder aos séculos de dominação colonial. Durante o período colonial, o porto de Buenos Aires e as rotas internas receberam contingentes massivos de pessoas escravizadas trazidas do continente africano.

Às vésperas da Revolução de Maio de 1810, os negros e afrodescendentes representavam cerca de um terço da população de Buenos Aires e chegavam a passar de 50% em províncias do interior, como Santiago del Estero e Catamarca. No entanto, ao longo do século 19, esses números despencaram drasticamente.

Muitos historiadores tradicionais tentaram justificar esse desaparecimento por meio de teorias confortáveis, como uma suposta “evaporação genética” decorrente da miscigenação massiva com as ondas de imigrantes europeus. Essa narrativa, contudo, mascara políticas sistemáticas de invisibilização e desgaste humanitário.

Em entrevista ao Aventuras na História, o jornalista argentino Edgardo Martolio, autor do livro ‘Glória roubada: O outro lado das Copas’ e que agora lança a coleção ‘A Guerra de Todos’, aponta os fatores reais por trás desse desaparecimento estrutural:

“Agora, por que não há negros na Argentina? A história tenta excluí-los completamente, ignorá-los. A Argentina montou exércitos de negros para combater os gaúchos malandros e os indígenas aborígenes, os autóctones, que impediam que houvesse colonização além do que é essa província de Buenos Aires e o que é um caminho em diagonal que vai de Buenos Aires, cruza parte de Santa Fe, Córdoba, Tucumán, Santiago del Estero, salta Jujuy; chega à Bolívia, o Alto Peru… que é o caminho do ouro.

Conforme explica Edgardo, o restante do território argentino, desprovido de ouro, atraiu poucos colonizadores. Os conflitos na região foram marcados pelo uso de exércitos de soldados negros comandados por elites brancas contra os povos nativos. Esse cenário de violência mútua — entre negros, indígenas e gaúchos — resultou no quase extermínio dessas populações.

Eu não sei se podemos chamar de ‘extermínio’, porque não há registros claros disso, mas acredita-se que a perda foi absoluta. Mas o certo é que, se ficaram alguns negros, foram sumindo. O negro provavelmente não era exatamente escravo, no cerne da palavras, mas ele trabalhava para alguém em servidão (servidão urbana mais do que rural), e não podia casar-se, não podia ter filhos… Então, o negro não prosperou”.

Atualmente, os censos modernos começaram a registrar novamente a autodeclaração afro-argentina, apontando para uma população pequena, mas existente, que muitas vezes é diluída sob categorias ambíguas nos registros de identidade (DNI). A redução drástica, portanto, não foi um processo biológico natural, mas o resultado de conflitos sangrentos e de uma estrutura social que inviabilizou a reprodução e a sobrevivência digna dessa comunidade.

Representação do negro na Cultura

Na construção cultural da identidade argentina, a figura do negro foi sistematicamente empurrada para as margens, atuando quase sempre como um elemento decorativo ou pitoresco, despido de real protagonismo. Na literatura e nas artes tradicionais, essa dinâmica se consolidou desde os primeiros ensaios de fundação nacional. O negro raramente ganha voz própria ou complexidade psicológica nas páginas das grandes obras portenhas.

A literatura argentina historicamente marginalizou a população negra, relegando-a a papéis secundários. Essa tendência se reflete inclusive nas letras de tango da primeira metade do século 20, onde o negro, quando surge, aparece sempre como coadjuvante e nunca como protagonista.

O negro é protagonista em uma notícia policial, em uma notícia ruim. Então aí há um fundamento. Há um elemento que não necessariamente manifesta racismo tanto do letrista quanto do autor, mas sim que ele transcreve um reflexo da época, do que ele vê, do que ele aprendeu, mas não necessariamente que ele sinta aquilo.”

Mesmo expressões artísticas icônicas como o tango, que possuem raízes musicais e rítmicas profundamente ligadas à comunidade afro-argentina e às danças de matriz africana (candombe), passaram por um severo processo de “embranquecimento” à medida que eram institucionalizadas pela elite de Buenos Aires. Quando a cultura oficial absorveu essas manifestações, apagou as digitais negras de sua gênese, deixando para a posteridade a imagem de uma dança essencialmente europeizada.

O Ensino do preconceito

O apagamento da negritude na Argentina encontra um de seus pilares mais eficientes no sistema educacional. Desde os primeiros anos da escola primária, as crianças argentinas são expostas a uma narrativa histórica que posiciona o país como uma “Europa na América do Sul”. Nas festas pátrias que celebram a Revolução de Maio ou a Independência, os manuais escolares e as encenações infantis costumam retratar os negros de 1810 de maneira caricata e restrita: como simpáticos vendedores ambulantes de velas, pasteis ou lavadeiras sorridentes.

Essa abordagem pedagógica cria a falsa percepção de que a população negra foi um mero adereço do passado colonial que desapareceu de forma pacífica e natural, sem deixar descendentes ou legados estruturais. Ao ensinar que “não existem negros na Argentina”, as escolas educam as gerações mais jovens para a invisibilidade. Diante disso, qualquer pessoa que fuja do padrão eurocêntrico idealizado acaba sendo empurrada para a marginalidade social ou considerada “estrangeira” dentro de sua própria terra, consolidando preceitos de exclusão desde a infância.

Quando a história oficial argentina se vê obrigada a registrar a presença de heróis negros, ela o faz sob uma ótica utilitarista e paternalista. Figuras históricas de imensa relevância na luta pela emancipação do país, como o Sargento Juan Bautista Cabral e o soldado conhecido como Falucho (Antonio Ruiz), são apresentados sob o manto do sacrifício supremo em prol de seus comandantes brancos.

Monumento ao soldado Falucho, no bairro de Palermo – Kaled Naya/Wikimedia Commons

Cabral é imortalizado por ter salvado a vida do General José de San Martín na Batalha de San Lorenzo, enquanto Falucho é lembrado por preferir a morte a saudar a bandeira espanhola no Alto Peru. Martolio analisa como essas figuras são tratadas na memória nacional:

Quando você estuda a litaratura argentina, se trata, por exemplo, apenas de um par de negros: Sargento Cabral e Falucho, que são os dois negros que aparecem como também assistentes.

Edgardo explica que esses personagens, ou são mais secundários ou ganham um pouco mais de “heroísmo” só porque colocam o corpo na frente para que não matem o general. “Mas é uma coisa mínima. É uma aparição quase como para falar: ‘não são ignorados totalmente’. É só para falar que está lá”.

Quando está claro que, na época, havia bastante negros, muito mais pelo fato que esse negro não estaria nas lutas pela colonização, independência, etc., se esse negro, nessa mesma época, aparecia na servidão dos aristocratas, por exemplo? Então, havia. Então por quê? Para nós, para servir os aristocratas estava; para lutar, que sempre a luta é contada heroicamente, o negro não aparecia”

Essa instrumentalização histórica evidencia que, para a narrativa oficial, o valor do negro estava associado à sua capacidade de servir de escudo para as lideranças brancas da pátria, silenciando suas próprias trajetórias, dores e aspirações políticas.

O negro no futebol argentino

No universo do futebol, o esporte mais popular do país, as dinâmicas de exclusão e as nuances linguísticas argentinas ganham contornos muito específicos. Como mencionado, a seleção principal teve apenas três atletas negros documentados em toda a sua trajetória: Alejandro de los Santos (que atuou na década de 1920), José Ramos Delgado (defensor icônico dos anos 1950 e 1960) e o goleiro Héctor Baley (reserva nas Copas de 1978 e 1982).

Alejandro Nicolás de los Santos com a Seleção Argentina em 1925/ Crédito: Domínio Público

Paralelamente à ausência física de atletas negros, a sociedade argentina desenvolveu o hábito de utilizar termos associados à negritude de forma ambígua. Expressões como “morochos” ou “cabecitas negras” cruzam as barreiras raciais e sociais do país. Edgardo Martolio contextualiza esse uso cotidiano e suas transformações políticas:

“Na Argentina se usa a palavra ‘negro’ carinhosamente. Por exemplo, minha mãe era muito branca, mas tinha o cabelo escuro, em uma família onde a maioria tinha cabelo loiro. Então ela era chamada de ‘Negrita’ pela família, isso era um apelativo carinhoso, como hoje usamos com ‘Flaco’ (magro) López. Não é pejorativo. Só é pejorativo no ênfase que você pode dar dentro de determinada circunstância de uma discussão, obviamente”.

Outro exemplo disso é do ponta-esquerda da seleção argentina na Copa do Mundo de 1978, apelidado de Negro Ortiz. Que não era negro. “Simplesmente era um pouco mais moreninho e cabelo escuro, mas digamos, era branco. Ele era distinto da maioria, então era o Negro Ortiz. E Ortiz sempre se assumiu como o Negro Ortiz, digamos, isso não era pejorativo, não…”.

Entretanto, o termo ganhou uma carga de forte teor político e de classe a partir de meados do século passado:

“Com o surgimento do peronismo em 1945 — o movimento justicialista de Juan Domingo Perón —, muitas pessoas do interior do país, como da província de Santiago del Estero, migraram para Buenos Aires em busca das facilidades e moradias oferecidas pelo governo. Esses migrantes eram, em sua maioria, morenos com ancestralidade indígena. Nos bairros mais nobres e aristocráticos de Buenos Aires, eles começaram a ser chamados pejorativamente de ‘cabecitas negras’ por terem a pele mais escura que a média da elite local. O termo acabou ganhando um tom preconceituoso, associado à falsa ideia de que eram pessoas preguiçosas e que não gostavam de trabalhar. O que não era verdade”.

Com as recentes transformações econômicas e as ondas de imigração vindas de nações vizinhas, o preconceito na Argentina contemporânea muitas vezes transita e se confunde entre o preconceito racial e a aversão ao imigrante regional. Edgardo conclui sobre essa zona cinzenta da identidade nacional: “Hoje, Buenos Aires recebeu tantos imigrantes de países vizinhos — como o Paraguai, a Bolívia e, em menor escala, o Chile e o Peru — que aquele migrante do interior acabou se integrando e já não é mais rotulado como ‘cabecitas negras’. Inclusive, esse antigo migrante interno pode passar a discriminar os novos estrangeiros. Por isso, a situação atual na Argentina talvez reflita mais um cenário de xenofobia do que propriamente de racismo.”

A resposta para a pergunta que intitula esta matéria não se resume a um simples sim ou não. A Argentina estruturou sua identidade nacional sob o mito da homogeneidade branca europeia, empurrando sua herança negra para os campos de batalha do passado e para as entrelinhas de termos cotidianos. No próximo domingo, enquanto Williams e Yamal correm pelos gramados representando a nova face multicultural da Europa, os onze jogadores de azul e branco carregarão o peso de uma história que escolheu, deliberadamente, apagar as suas próprias cores.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!