O País de Gales como “guardião da arte” na Segunda Guerra
Além de contribuir com sua indústria, mineração e treinamento militar, Gales desempenhou uma missão pouco conhecida: abrigar 2 mil obras

Embora nunca tenha sido palco de combates terrestres durante a Segunda Guerra Mundial, o País de Gales desempenhou um papel estratégico na resistência britânica ao nazismo. O território foi alvo de bombardeios da Luftwaffe, fortaleceu a produção industrial, treinou tropas, recebeu refugiados e, em uma das operações mais discretas do conflito, tornou-se o esconderijo de algumas das mais importantes obras de arte da Europa.
Os primeiros ataques alemães ao país ocorreram ainda em 1940. Em 18 de junho daquele ano, a cidade portuária de Swansea sofreu o primeiro bombardeio registrado em solo galês. O município, localizado na costa sul e importante centro industrial, voltaria a ser atingido diversas vezes ao longo da guerra.
O episódio mais devastador ocorreu entre 29 e 31 de dezembro de 1940, período que ficou conhecido como “Three Nights Blitz” (“As Três Noites de Terror”). Durante cerca de 72 horas, aviões alemães lançaram centenas de bombas explosivas e incendiárias sobre a cidade. O ataque destruiu aproximadamente 7 mil edifícios, principalmente no centro urbano, deixou cerca de 230 mortos e mais de 400 feridos, tornando-se o bombardeio mais destrutivo da história do País de Gales.
Cardiff, capital galesa, também foi repetidamente atacada entre 1940 e 1941 devido à importância estratégica de seu porto. As docas da cidade figuravam entre os principais pontos de abastecimento marítimo do Reino Unido e eram essenciais para o transporte de carvão, matérias-primas e equipamentos militares. Newport, outro importante centro portuário, também esteve entre os alvos preferenciais da Luftwaffe, enquanto cidades como Bangor sofreram ataques de menor intensidade.
Na época, o País de Gales já era uma das principais bases industriais britânicas. Seus estaleiros construíam embarcações militares, enquanto fábricas produziam aviões, veículos, munições e diversos equipamentos utilizados pelas forças aliadas. As minas de carvão, por sua vez, garantiam o fornecimento de energia necessário para manter a indústria funcionando em ritmo acelerado, além de abastecer locomotivas e embarcações movidas a vapor.
O território também serviu como centro de treinamento militar e acolheu refugiados judeus que conseguiam escapar da perseguição nazista na Europa continental. Unidades formadas por soldados galeses participaram de diferentes campanhas militares, incluindo a 53ª Divisão de Infantaria, que atuou na libertação da Europa Ocidental após o desembarque aliado na Normandia.
Enquanto fábricas e soldados contribuíam diretamente para o esforço de guerra, outra missão, muito mais silenciosa, era organizada longe dos campos de batalha.
A “missão secreta” de Gales
Em 1940, após a rápida derrota da França e a retirada das tropas britânicas de Dunquerque, cresceu o temor de que uma invasão alemã ao Reino Unido pudesse ocorrer a qualquer momento. Ao mesmo tempo, Londres passava a sofrer intensos bombardeios, colocando em risco o acervo da National Gallery.
Diante da ameaça, o governo britânico decidiu retirar as pinturas mais valiosas da capital. Winston Churchill determinou que nenhuma obra deixasse o território britânico, preferindo escondê-las em locais seguros dentro do próprio país.
Após uma série de estudos, especialistas encontraram um refúgio considerado ideal: a antiga Pedreira Manod, localizada nas montanhas de Snowdonia, próximo à cidade de Blaenau Ffestiniog, no norte do País de Gales.
Escavada profundamente em uma montanha de ardósia e granito, a pedreira oferecia proteção natural contra bombardeios aéreos e permanecia distante dos grandes centros urbanos, reduzindo significativamente o risco de descoberta.
Segundo a pesquisadora Suzanne Bosman, autora de The National Gallery in Wartime, aproximadamente duas mil obras foram transportadas secretamente para o local, incluindo pinturas de mestres como Leonardo da Vinci, Rembrandt e Anthony van Dyck.
Antes da chegada das obras, porém, a pedreira precisou passar por uma ampla adaptação. Como ambientes subterrâneos costumam apresentar alta umidade, engenheiros construíram seis câmaras de alvenaria totalmente vedadas no interior da montanha. Equipadas com higrômetros, termômetros e sistemas permanentes de monitoramento, elas permitiam controlar rigorosamente temperatura e umidade, fatores essenciais para a preservação das pinturas.
De acordo com Bosman, as condições ambientais alcançadas em Manod acabaram sendo superiores às existentes na própria National Gallery antes da guerra.
A experiência também revolucionou as técnicas de conservação adotadas pelos museus britânicos. Os estudos realizados durante o período ajudaram especialistas a compreender melhor os efeitos das variações climáticas sobre telas, pigmentos e molduras, influenciando práticas museológicas utilizadas até hoje.
Toda a operação foi conduzida em absoluto sigilo. O transporte das obras exigiu uma complexa logística ferroviária e rodoviária, além de rígidos protocolos de segurança para evitar que informações sobre o esconderijo chegassem ao conhecimento das autoridades alemãs.
Com o fim da guerra, as pinturas retornaram gradualmente à National Gallery. No entanto, o governo britânico optou por manter o arrendamento da Pedreira Manod durante boa parte da década de 1950. A decisão refletia o clima de incerteza que marcou os primeiros anos da Guerra Fria e a possibilidade de um novo conflito em escala mundial.
Até hoje, as estruturas construídas dentro da montanha permanecem preservadas. O antigo esconderijo é lembrado como um dos maiores exemplos de proteção do patrimônio cultural durante um período de guerra.
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