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O papel decisivo da Índia na vitória Aliada

Integrante do Império Britânico à época, a Índia foi incorporada automaticamente ao à Segunda Guerra em 1939

Índia Segunda Guerra capa
Soldados indianos em campanha aliada na Inglaterra - Getty Images

A participação da Índia na Segunda Guerra Mundial foi marcada por um paradoxo. Embora tenha desempenhado papel fundamental na vitória dos Aliados, fornecendo milhões de soldados, matérias-primas e apoio logístico em diversos teatros de operações, o país não entrou no conflito por decisão própria. Em 3 de setembro de 1939, poucas horas após o Reino Unido declarar guerra à Alemanha nazista, o então vice-rei da Índia, Victor Hope, anunciou que a colônia britânica também estava oficialmente em guerra.

Na época, a chamada Índia Britânica abrangia não apenas o território da atual Índia, mas também as áreas que hoje correspondem ao Paquistão, Bangladesh e parte de Mianmar. Como integrante do Império Britânico, a colônia não possuía autonomia para decidir sua política externa, tornando-se automaticamente parte do esforço militar liderado por Londres.

A Índia na Segunda Guerra

Ao longo da guerra, a Índia se transformou em um dos principais pilares humanos e materiais da campanha aliada. Estima-se que cerca de 6,5 milhões de indianos tenham servido nas forças armadas ou contribuído diretamente para o esforço de guerra, representando aproximadamente metade dos dez milhões de militares mobilizados pela Comunidade Britânica. Foi a maior força voluntária já organizada durante um conflito até então.

Nos primeiros anos da guerra, contudo, os britânicos limitaram a atuação dos soldados indianos. Temendo que o fortalecimento militar alimentasse reivindicações nacionalistas, Londres preferiu empregar boa parte dos recrutas em funções de apoio, transporte e logística, deixando os postos estratégicos para tropas britânicas. Apenas com a expansão das ofensivas do Eixo e a necessidade crescente de efetivos os indianos passaram a receber treinamento mais completo e equipamentos adequados para atuar nas linhas de frente.

Grande parte do antigo Exército do Raj era composta por integrantes das chamadas “raças marciais”, conceito criado pelos britânicos para designar grupos considerados tradicionalmente guerreiros. Entre eles estavam os sikhs do Punjab e os famosos gurkhas, combatentes de origem nepalesa conhecidos pelo uso da faca curva kukri e pela reputação adquirida em combates corpo a corpo.

À medida que a guerra avançava, o recrutamento foi ampliado para diferentes segmentos da população. Muitos homens das camadas mais pobres ingressaram nas forças armadas atraídos pela estabilidade oferecida pelo serviço militar, que garantia alimentação, remuneração e assistência em um período de grandes dificuldades econômicas. Cerca de 11,5 mil mulheres também foram incorporadas ao Women’s Auxiliary Corps, desempenhando funções administrativas, de comunicação e apoio em bases militares e aeródromos.

As tropas indianas participaram de praticamente todas as grandes campanhas travadas pelos Aliados. Seu primeiro grande teste ocorreu no Norte da África, durante a Campanha do Deserto Ocidental. Em 1940, unidades indianas ajudaram a conter a ofensiva italiana contra o Egito na Operação Compass. Posteriormente, enfrentaram as tropas do marechal Erwin Rommel em batalhas decisivas como Tobruk, Battleaxe e El Alamein.

Além do Norte da África, soldados indianos combateram na África Oriental, contribuindo para eliminar a presença militar italiana na região. Em seguida, foram deslocados para o Oriente Médio, participando das campanhas na Síria e no Iraque, consideradas estratégicas para garantir o controle dos campos petrolíferos que abasteciam o esforço de guerra aliado.

A guerra também se aproximou perigosamente do território indiano. Após conquistar Singapura e a Malásia, o Japão capturou dezenas de milhares de soldados da Commonwealth, incluindo aproximadamente 55 mil indianos. Em seguida, as forças japonesas ocuparam o norte da Birmânia, levantando o temor de uma futura invasão da Índia.

Posteriormente, tropas indianas tiveram papel central na reconquista da Birmânia, campanha muitas vezes chamada de “Batalha Esquecida” devido à pouca atenção recebida na historiografia popular, apesar de sua importância estratégica para a derrota japonesa no Sudeste Asiático.

Na Europa, os soldados indianos também deixaram sua marca. Em 1943, participaram da campanha da Itália e se tornaram a terceira maior força aliada presente naquele front. Durante a Batalha de Monte Cassino — que também contou com a participação da Força Expedicionária Brasileira — destacaram-se pela atuação em algumas das operações mais difíceis da campanha italiana.

O desempenho nos campos de batalha foi reconhecido por meio de aproximadamente quatro mil condecorações militares. Desse total, cerca de duas mil foram concedidas por atos de bravura, incluindo 31 Cruzes Vitória, a mais alta honraria militar do Império Britânico. Durante toda a Segunda Guerra Mundial, apenas 180 militares receberam essa distinção.

Embora frequentemente lembrada de forma secundária na história da Segunda Guerra Mundial, a participação indiana foi determinante para sustentar o esforço aliado em diferentes continentes. O elevado número de soldados mobilizados, a atuação em campanhas decisivas e a enorme contribuição econômica consolidaram a Índia como uma das principais bases de sustentação do Império Britânico durante o conflito — ao mesmo tempo em que a guerra acelerou o caminho para o fim do próprio domínio colonial britânico sobre o país.


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Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.