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Como a Pedra de Roseta, descoberta pelos franceses no Egito, chegou ao Reino Unido?

Encontrada em julho de 1799, a Pedra de Roseta é considerada uma das mais importantes descobertas arqueológicas e foi essencial para a decifração dos hieróglifos egípcios

A Pedra de Roseta foi levada para o Museu Britânico há mais de dois séculos - Crédito: Getty Images

Datada de 197 a.C., a Pedra de Roseta é um importante documento da história egípcia redescoberto em 1799 pelos franceses e que possibilitou a decifração dos hieróglifos egípcios. Sabendo disso, torna-se natural imaginar que a peça tenha sido levada para a França, certo? Mas não. Na verdade, há duzentos anos, a Pedra de Roseta se encontra exibida no Museu Britânico, em Londres. Existe, é claro, uma explicação para isso.

Hoje considerada uma das descobertas arqueológicas mais importantes de todos os tempos, a Pedra de Roseta abriu caminho para a compreensão da história, da religião e da administração do Antigo Egito. Sua presença em Londres foi resultado de disputas militares travadas durante as chamadas Guerras Napoleônicas.

Rumo ao Egito

Tudo começou em 1798, quando o general Napoleão Bonaparte liderou uma expedição ao Egito, então parte do Império Otomano. A campanha tinha objetivos militares e estratégicos: a ideia era enfraquecer a influência britânica sobre as rotas comerciais que levavam à Índia. Paralelamente, Napoleão levou consigo um grupo formado por dezenas de cientistas, engenheiros, artistas e estudiosos, que se reuniram no Institut d’Égypte e cuja missão era catalogar antiguidades e ampliar o conhecimento europeu sobre a antiga civilização egípcia.

Mas havia um enorme obstáculo para tal na época, que era justamente a incapacidade de interpretar hieróglifos. Inúmeros templos e monumentos haviam sido descobertos àquela altura, mas seguiam envoltos em um grande mistério, já que ninguém conseguia traduzir aquela escrita.

O cenário mudaria em 1799, durante as obras de reforço do Forte Saint Julien, próximo à cidade de Rashid — chamada pelos europeus de Rosetta. Era dia 19, mês de julho, e soldados franceses e trabalhadores locais desmontavam parte de uma antiga construção para reaproveitar suas pedras quando encontraram um grande bloco de granodiorito coberto por inscrições.

Visitantes observam a Pedra de Rosetta no Museu Britânico em 2020 – Crédito: Getty Images

Conforme o portal Napoleon.org, o responsável pelas obras era o tenente de engenharia Pierre-François Bouchard. Ao perceber que a peça trazia textos gravados em três sistemas de escrita diferentes, ele compreendeu que se tratava de um achado excepcional. No fim, descobriu-se que, além dos hieróglifos, a pedra apresentava inscrições em demótico, a escrita utilizada no cotidiano do Egito da época, e em grego antigo.

Um artefato importante

A importância da descoberta ficou evidente quase imediatamente. Como os estudiosos conseguiam ler o texto em grego, acreditavam que seria possível utilizá-lo como referência para interpretar as outras duas versões do mesmo decreto. Logo, cópias da inscrição foram produzidas e distribuídas entre pesquisadores europeus. Isso despertou enorme interesse nos meios acadêmicos. Ao mesmo tempo, a situação militar da França no Egito começava a se deteriorar.

Ainda em 1798, a frota francesa foi praticamente destruída pela Marinha britânica na Batalha do Nilo, comandada pelo almirante Horatio Nelson. Pouco depois, Napoleão deixou o Egito para retornar à França, enquanto as tropas britânicas preparavam uma ofensiva para expulsar definitivamente os franceses da região.

Entre os interessados na famosa pedra estava William Richard Hamilton, diplomata britânico ligado a Lord Elgin, conhecido pela retirada dos chamados Mármores de Elgin da Grécia. Quando uma força britânica desembarcou perto de Alexandria, em 1801, Hamilton acompanhou de perto as operações militares a fim de garantir que a Pedra de Roseta e outras antiguidades descobertas pelos franceses fossem entregues ao Reino Unido.

A Pedra de Roseta exposta no Museu Britânico em imagens do final do século 19 – Crédito: Getty Images

Após meses de combates, os franceses aceitaram negociar a rendição. O diplomata Hamilton conseguiu convencer o comandante britânico John Hely-Hutchinson a incluir no acordo uma cláusula determinando que todas as antiguidades reunidas pelo Institut d’Égypte passariam para a posse britânica.

Não seria tão fácil

Entretanto, os franceses, não pretendiam entregar facilmente sua maior descoberta arqueológica. Assim, esconderam a Pedra de Roseta entre os pertences do general Jacques-François Menou, comandante francês no Egito, em um depósito próximo ao porto de Alexandria. Mas a tentativa foi em vão porque Hamilton acabou localizando o esconderijo e, acompanhado por soldados da Artilharia Real, tomou posse do artefato. Mesmo outros objetos antigos foram recolhidos pelos britânicos antes do retorno à Europa.

Em fevereiro de 1802, a Pedra de Roseta chegou oficialmente à Grã-Bretanha a bordo da fragata HMS L’Égyptienne, um navio que havia sido capturado dos próprios franceses durante a campanha militar. Ainda naquele ano, a peça foi entregue ao Museu Britânico, onde permanece exposta até os dias de hoje.

A peça rapidamente ganhou importância científica e diversos estudiosos tentaram decifrar os hieróglifos utilizando as inscrições trilíngues como base. Thomas Young, físico e linguista inglês, foi um dos primeiros a obter avanços importantes ao identificar o funcionamento de alguns símbolos, mas foi o linguista francês Jean-François Champollion quem, em 1822, conseguiu demonstrar como o sistema de escrita egípcio de fato funcionava. A descoberta revolucionaria a egiptologia.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.