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Live Aid: como era o mundo no ano do festival?

Em meio ao brilho da cultura pop dos anos 80 e às tensões da Guerra Fria, o Live Aid mobilizou artistas, governos e milhões de espectadores

Live Aid capa
Diversos artistas na apresentação final do Live Aid. Ao Centro: Bono, Paul McCartney e Freddie Mercury - Getty Images

Hits eletrizantes, cores vibrantes, experimentação tecnológica, ascensão de astros pop e sintetizadores. Se tivéssemos que listar alguns dos principais fenômenos culturais do Ocidente nos anos 80, a relação seria bem extensa. Mas com certeza passaria por todos esses fatores.

Em 1985, bandas como Queen, Tears for Fears, a-ha e Duran Duran enriqueciam o cenário musical acompanhadas pelo surgimento de estrelas como Michael Jackson, Madonna e Prince. A tecnologia nos presenteava com o lançamento do Famicom — “o Nintendinho” — no mercado ocidental, e o console representaria uma revolução no universo dos videogames.

O mundo não só parecia mais colorido: ele usava a cor como elemento de afirmação de uma Era: letreiros neon, carros com todo o tipo de pintura na carroceria, uma indústria da moda inventiva, que inovou com a colorização e com cortes de roupas até então pouco usuais. A televisão a cores se consagrou em muitas casas por todo o planeta, e o preto e branco já parecia, naquele momento, coisa do passado.

O cinema hollywoodiano vivia também uma intensa reconfiguração com a ascensão dos filmes de aventura e ficção-científica. A “Era de Ouro dos Blockbusters” trazia às telonas sucessos de bilheteria e público: “De Volta Para o Futuro”, “O Exterminador do Futuro” e “E.T: O Extraterrestre” são só alguns exemplos da consagração de diretores como Steven Spielberg e James Cameron

Cena de ‘De Volta Para o Futuro’
Cena de ‘De Volta Para o Futuro’ – Divulgação / Universal Pictures

A realidade parecia intensa demais para ser verdade. O futuro era a encarnação de diversas promessas, mas as ferrugens por trás das placas de neon envernizavam as mágoas do passado, que ainda deixava relutantes marcas.

As sequelas da Guerra Fria pelo mundo

1985 marcava também os dez anos do fim da Guerra do Vietnã e, desde então, o mundo sentia cada vez mais o peso da polarização da Guerra Fria. Toda crise internacional parecia um reflexo direto das tensões entre EUA e URSS. Presidente dos Estados Unidos, o ex-ator Ronald Reagan classificava o regime soviético como o “Império de Todo o Mal”. Por outro lado, a invasão ao Afeganistão desgastava cada vez mais a imagem pública da União Soviética, que apostava na imagem de Mikhail Gorbachev em um momento de fragilidade.

No Brasil, a ditadura militar encarava seu iminente fim com o último governo do regime (na figura de João Figueiredo) e o sucesso do movimento Diretas Já, que acarretou a eleição de Tancredo Neves.

Manifestações do movimento Diretas Já, em 1983, no Congresso Nacional
Manifestações do movimento Diretas Já, em 1983, no Congresso Nacional – Reprodução/ ArquivoNacional

A Ásia atravessava diferentes e conflitantes momentos políticos. Além da própria situação da URSS, as relações diplomáticas com a China também não viviam seu melhor momento, e o governo de Deng Xiaoping promovia reformas econômicas que introduziriam mecanismos de mercado no sistema comunista chinês. No Iraque, a ditadura de Saddam Hussein vivia um intenso conflito contra o Irã, que viria a ser potencializado com a influência de soviéticos e americanos, que disputavam o controle do petróleo na região.

Mas foi uma situação na África que despertou a mobilização social que originaria o maior fenômeno cultural da década (e um dos maiores do século XX). Um impasse no continente chamou a atenção de dois ativistas do Reino Unido: a fome na Etiópia, resultado de uma combinação de seca, guerra civil e colapso econômico.

A origem e os bastidores do Live Aid

O irlandês Bob Geldof tomou conhecimento da situação no país em 1984, quando assistiu a uma reportagem sobre a crise humanitária. Sensibilizado, ele passou a se mobilizar junto ao britânico Midge Ure para promover um festival de música que arrecadasse fundos no combate à fome dos etíopes. 

Assim nasceu o projeto do Live Aid, antecedido pela gravação da música colaborativa “Do They Know It’s Christmas?”, que contou com a participação de diversos músicos britânicos no supergrupo Band Aid.

O sucesso da colaboração impulsionou a montagem do festival. Mas, ao contrário de toda a sofisticação que o Live Aid hoje representa, muitos dos preparativos para o festival derivavam muito mais de experiências de “primeira viagem” do que de um planejamento estratégico: um longo bloco de mega shows simultâneos em dois países (EUA e Inglaterra) de diferentes continentes, e ainda com transmissão ao vivo ao longo daquele dia 13 de julho de 1985. 

Embora muitos músicos apoiassem a causa, organizar o elenco foi um exercício permanente de negociação. A agenda de grandes artistas já estava comprometida por turnês, gravações e contratos. Alguns demonstraram entusiasmo imediato; outros precisaram ser convencidos.

Live Aid Led Zeppelin
O Led Zeppelin no Live Aid – Getty Images

A presença do Black Sabbath, por exemplo, envolveu acordos delicados, devido aos desentendimentos dos integrantes da banda com Ozzy Osbourne. Mesmo fora do grupo desde 1979, as negociações foram bem sucedidas, e o lendário frontman subiu ao palco do Wembley, em Londres, junto a Tommy Iommi, Bill Ward e Geezer Butler.

A participação do Led Zeppelin exigiu uma reunião inédita de integrantes que não tocavam juntos desde a morte do baterista John Bonham em 1980. Coube a Phil Collins assumir as baquetas no palco do JFK Stadium, na Filadélfia.

O próprio Phil Collins protagonizou um momento singular no festival: ele foi o único artista a se apresentar no mesmo dia tanto na Inglaterra quanto nos EUA. Após concluir a performance em Wembley, o astro embarcou em um jato supersônico rumo aos Estados Unidos, chegando no país bem a tempo para se apresentar na Filadélfia.

Live Aid Phil Collins
Phil Collins durante a Live Aid de 1985 / Crédito: Divulgação / Youtube / Live Aid

O aclamado show do Queen

O caso mais emblemático, entretanto, talvez tenha sido o do Queen.

Hoje, a apresentação é considerada o momento mais famoso do evento, mas em 1985 a banda atravessava uma fase diferente. O prestígio comercial permanecia elevado, mas já não ocupava o centro das atenções da crítica musical britânica. A participação foi confirmada sem que houvesse qualquer expectativa de que o grupo produziria o momento mais lembrado daquele dia.

Nos bastidores, os integrantes do Queen estavam preocupados. O grupo não realizava muitos shows completos havia algum tempo, e a curta duração da apresentação exigia uma seleção extremamente rigorosa do repertório. Quando os músicos entraram em cena, porém, algo raro aconteceu.

Freddie Mercury e Brian May em show do Queen no festival
Freddie Mercury e Brian May em show do Queen no festival – Getty Images

Durante pouco mais de vinte minutos, Freddie Mercury estabeleceu uma conexão quase instantânea com as dezenas de milhares de pessoas presentes em Wembley. Canções como Bohemian Rhapsody, Radio Ga Ga e We Are the Champions transformaram a apresentação em um dos momentos mais emblemáticos da história do rock.

Nem tudo saiu como planejado

Apesar do sucesso, o Live Aid também teve problemas. Algumas apresentações sofreram dificuldades técnicas. Certas reuniões de bandas históricas receberam críticas posteriores. A performance do Led Zeppelin, por exemplo, foi alvo de avaliações negativas dos próprios músicos envolvidos.

Debates posteriores ainda questionaram a eficácia da distribuição da ajuda humanitária e a forma como parte dos recursos arrecadados foi administrada pelas autoridades locais na Etiópia.

O legado do Live Aid

Ao final da transmissão, o Live Aid havia arrecadado dezenas de milhões de dólares para ações de combate à fome. Nos anos seguintes, esse valor continuaria crescendo com novas doações. O festival foi a demonstração definitiva de que a cultura pop poderia mobilizar uma audiência verdadeiramente global em torno de uma causa humanitária.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.