Os novos sermões de Santo Agostinho contra “bruxa bíblica”
Pesquisadores identificaram textos desconhecidos de Santo Agostinho em um códice do século XII preservado em mosteiro da Polônia

Considerado um dos pensadores mais influentes da história do cristianismo, Santo Agostinho teve sua obra ampliada quase 1.600 anos após sua morte. Pesquisadores da Universidade de Würzburg, na Alemanha, anunciaram a identificação de dois sermões inéditos atribuídos ao bispo de Hipona em um manuscrito medieval preservado em um mosteiro na cidade de Pelplin, na Polônia. A descoberta oferece novas evidências sobre a produção intelectual do filósofo e lança luz sobre a forma como ele interpretava um dos episódios mais controversos da Bíblia.
Agostinho de Hipona viveu entre os séculos IV e V e exerceu profunda influência sobre a filosofia, a teologia e a cultura ocidental. Depois de sua conversão ao cristianismo e de seu batismo, em 386 d.C., dedicou o restante da vida à elaboração de obras que moldariam o pensamento cristão por séculos. Livros como Confissões, frequentemente apontado como a primeira autobiografia espiritual da história, e A Cidade de Deus continuam sendo estudados por filósofos, historiadores e teólogos até hoje.
Sermões inéditos de Santo Agostinho
O manuscrito que revelou os novos textos data do século XII e reúne seis sermões atribuídos ao religioso. Inicialmente, nada indicava que o documento escondesse material desconhecido, já que coleções de sermões eram comuns em bibliotecas monásticas da Idade Média. Coube ao latinista Christian Tornau, professor da Universidade de Würzburg, traduzir e analisar o códice. Durante o trabalho, ele percebeu que dois dos sermões não correspondiam a nenhum texto conhecido de Agostinho.
Segundo os pesquisadores, os escritos abordam um mesmo tema e funcionam como textos complementares. Ambos analisam o episódio da Bruxa de Endor, narrado no Primeiro Livro de Samuel, uma passagem que há séculos desperta debates entre estudiosos da Bíblia.
Na narrativa bíblica, o rei Saul enfrenta o avanço do exército filisteu e procura orientação divina antes da batalha. Sem receber respostas por meio dos profetas, de sonhos ou dos sacerdotes, decide consultar uma médium — justamente após ter proibido práticas de necromancia em seu reino. A mulher invoca o espírito do profeta Samuel, que anuncia a queda de Saul e a perda definitiva de seu reinado.

Novas interpretações
O episódio sempre representou um desafio para intérpretes cristãos. Afinal, se a necromancia é condenada pelas Escrituras, como a médium teria conseguido evocar o espírito de um profeta? E, caso a aparição tenha sido real, por que Deus permitiria que isso acontecesse?
É justamente sobre essas questões que Agostinho se debruça nos sermões recém-descobertos. No primeiro texto, ele apresenta duas possibilidades. A primeira sustenta que a figura de Samuel teria sido apenas uma ilusão criada pela médium para enganar Saul. A segunda admite que o espírito realmente tenha aparecido, mas apenas porque Deus teria permitido esse acontecimento excepcional para confrontar o rei com seus pecados e anunciar seu destino.
Em vez de oferecer uma resposta definitiva, Agostinho desenvolve o tema no sermão seguinte, analisando os argumentos favoráveis a cada interpretação. Ao final, evita escolher uma delas, preferindo deixar a questão em aberto para estimular a reflexão dos fiéis. Essa estratégia era característica de sua produção intelectual, marcada pela valorização do debate filosófico e pelo reconhecimento de que determinados mistérios da fé não poderiam ser plenamente solucionados pela razão humana.
Para Christian Tornau, especialista em latim da Universidade de Würzburg, essa estrutura reforça a autenticidade dos textos. Além do estilo argumentativo, elementos como o vocabulário, o humor e a construção retórica correspondem às características presentes em outras obras reconhecidamente escritas por Agostinho.
Os pesquisadores também investigaram a origem do manuscrito medieval. Embora o exemplar preservado seja do século XII, os especialistas acreditam que ele tenha sido copiado de um manuscrito muito mais antigo, provavelmente produzido entre os séculos VIII e IX. A hipótese mais aceita é que esse modelo estivesse guardado na Abadia de Amelungsborn, no atual território da Alemanha.
Entretanto, qualquer possibilidade de confirmar essa origem foi praticamente eliminada pela destruição da biblioteca do mosteiro durante a Guerra dos Trinta Anos, no século XVII. Com isso, perdeu-se um importante elo na transmissão desses escritos ao longo da Idade Média.
Agora, a prioridade dos pesquisadores é concluir a edição crítica e disponibilizar os sermões para a comunidade acadêmica. A expectativa é que os textos contribuam para ampliar a compreensão sobre o pensamento de Santo Agostinho, cuja influência atravessou séculos e continua moldando estudos de filosofia, teologia e história do cristianismo. A descoberta demonstra que, mesmo após tantos séculos de pesquisas, manuscritos medievais ainda podem revelar obras inéditas de alguns dos autores mais importantes da tradição ocidental.