Matérias / Crimes

Miguel Ángel Blanco: a história real sobre o crime que mudou a Espanha

Novo documentário na Netflix reconstrói o trágico sequestro de 48 horas que chocou a Espanha em 1997 e marcou o início do fim do grupo separatista ETA

Retrato de Miguel Ángel Blanco / Crédito: Divulgação/Netflix

A estreia recente do documentárioMiguel Ángel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha’ na Netflix, que chegou ao catálogo de streaming nesta sexta-feira, 10 de julho, trouxe novamente ao centro do debate público um dos episódios mais dramáticos e marcantes da história contemporânea da Espanha.

Dirigida pelos jornalistas Jon Sistiaga e Juanjo López a partir de uma análise minuciosa de 190 horas de filmagens e arquivos, a produção audiovisual detalha os bastidores políticos e a comoção social que cercaram o crime. Por trás das telas, a narrativa resgata a cronologia exata e os desdobramentos de um sequestro que mobilizou o país em uma contagem regressiva e marcou de forma definitiva o declínio da organização separatista basca ETA.

Tensão e retaliação armada

Em julho de 1997, a Espanha vivia um momento de extrema tensão sob a atuação da ETA, grupo armado que reivindicava a independência do País Basco e acumulava a responsabilidade por mais de 800 mortes ao longo de quatro décadas.

Apenas dez dias antes do novo crime, o país havia celebrado com euforia a libertação policial de José Antonio Ortega Lara, um funcionário penitenciário que passou 532 dias mantido em cativeiro pela organização em um subsolo úmido de 7,5 metros quadrados, sofrendo severa debilidade física. A resposta do grupo separatista à ação das forças de segurança foi imediata e violenta, configurando-se como uma retaliação direta.

Sequestro

No dia 10 de julho de 1997, Miguel Ángel Blanco, um jovem de 29 anos que trabalhava na iniciativa privada e ocupava um cargo municipal como vereador pelo conservador Partido Popular (PP) em Ermua — uma localidade basca de aproximadamente 15.000 habitantes —, foi abordado na estação de trem a caminho do trabalho.

O jovem, que era filho de galegos, fã da banda Héroes del Silencio, torcedor do Barcelona e baterista em um conjunto musical, planejava deixar a atividade política em breve e havia acabado de comprar um automóvel. O sequestro foi executado por Irantzu Gallastegi Sodupe, conhecida como “Amaia“.

Logo após a captura, a ETA estabeleceu um ultimato brutal de 48 horas direcionado ao governo espanhol, então presidido por José María Aznar. A exigência para que Blanco fosse libertado consistia na transferência imediata de todos os prisioneiros da organização terrorista para penitenciárias localizadas dentro do território do País Basco, interrompendo a política de dispersão dos detidos por diferentes regiões do país. Caso a condição não fosse aceita até o sábado, 12 de julho, os sequestradores ameaçavam executar o vereador.

O governo espanhol, sob a liderança de Aznar e do Ministro do Interior, Jaime Mayor Oreja, determinou que não cederia à chantagem do grupo armado. Diante do impasse público, as Forças de Segurança do Estado iniciaram uma busca frenética e contra o tempo pelo paradeiro do jovem.

Paralelamente, rotas de negociação não oficiais foram abertas na tentativa de obter informações ou canais de libertação. Um dos movimentos envolveu a advogada María José Gurruchaga, amiga de infância do líder ideológico da ETA, conhecido como “Txelis“.

Gurruchaga viajou até uma prisão na França para se reunir com ele, encontro que contou com a participação imprevista de Picabea, um instrutor de comandos da organização. Embora as tratativas oficiais e paralelas não tenham descoberto o cativeiro, Picabea declarou na ocasião que abandonaria o movimento caso o refém fosse executado, cumprindo a promessa no dia seguinte.

Túmulo de Miguel Ángel Blanco / Crédito: Divulgação/Netflix

Desfecho trágico

Com a recusa do Executivo em cumprir as exigências, os três militantes responsáveis pelo cativeiro colocaram Miguel Ángel Blanco no porta-malas de um veículo por volta das 16h30 do dia 12 de julho e o transportaram até uma área de floresta a cerca de 55 quilômetros de Ermua, segundo a BBC.

No local, com as mãos amarradas para trás, o jovem foi segurado por José Luis Geresta Mujika, apelidado de “Oker“, enquanto Francisco Javier García Gaztelu, o “Txapote“, desferiu dois disparos contra a sua cabeça. Pouco depois, uma ligação telefônica chegou a anunciar falsamente à família que Blanco havia sido resgatado com vida, mas o vereador foi encontrado gravemente ferido e faleceu em uma unidade hospitalar nas primeiras horas do domingo, 13 de julho.

Clamor popular

A crueldade do desfecho e a imagem de um cidadão comum transformado em alvo de chantagem estatal desencadearam uma onda inédita de indignação e mobilização popular em toda a Espanha. Sob o clamor coletivo de “Basta!“, milhões de cidadãos foram às ruas em protestos massivos que, segundo analistas e testemunhas da época, sepultaram o medo social e deram início ao fim da atuação da ETA.

O funeral de Blanco, em Ermua, contou inclusive com a presença inédita de Felipe VI, então Príncipe das Astúrias com 29 anos, enviado por decisão real devido à instabilidade e volatilidade da segurança na região basca naquele momento.

Imagem de divulgação de ‘Miguel Angel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha’ / Crédito: Divulgação/Netflix

Condenações

Após o crime, a justiça espanhola responsabilizou os envolvidos no atentado. Francisco Javier García Gaztelu, o “Txapote“, e sua companheira Irantzu Gallastegi Sodupe, a “Amaia“, foram capturados e cumprem pena na mesma prisão localizada em Pontevedra, na Galiza.

Txapote” recebeu uma condenação total de 450 anos por este e outros assassinatos, permanecendo isolado em sua cela na maior parte do dia, enquanto “Amaia” foi condenada a 50 anos de reclusão. O terceiro integrante, José Luis Geresta Mujika, o “Oker“, cometeu suicídio em março de 1999 na localidade basca de Rentería, sem ter sido preso ou julgado pelo crime.

Memória dividida e debates contemporâneos

Mesmo décadas após os eventos e após a declaração do fim definitivo das atividades armadas da ETA, a memória de Miguel Ángel Blanco continua a suscitar debates políticos na Espanha em relação ao formato das homenagens públicas. Partidos de esquerda, como o Partido Socialista, o Podemos e a Esquerda Unida, manifestaram ressalvas em diferentes ocasiões quanto à individualização das comemorações.

Em Madri, a administração da prefeita Manuela Carmena evitou inicialmente fixar faixas exclusivas em homenagem ao vereador na sede municipal sob o argumento de que se deve honrar todas as vítimas do terrorismo de forma igualitária, evitando criar distinções entre os mortos pela ETA, pelo atentado jihadista de 11 de março de 2004 ou pelos crimes do franquismo.

Postura semelhante ocorreu em Cádis, sob a gestão de José María González, que se absteve na votação para nomear uma rua em homenagem a Blanco. Em contrapartida, o Partido Popular critica as decisões e defende a manutenção dos atos de memória ao político, reforçados por declarações de sua irmã, Mari Mar Blanco, que pontua que lembrar de seu irmão representa uma lembrança extensiva a todas as vítimas do terrorismo no país.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.