A Moana original: documentário de 1926 inspirou o filme da Disney?
90 anos antes da animação da Disney, o filme Moana já fazia sucesso nos cinemas americanos. entenda a história da “Moana original”!

Há poucos dias do lançamento do live-action de Moana, estrelando The Rock, o The Guardian lembrou da existência de um filme de mesmo nome lançado em 1926. O filme centenário oferece um vislumbre da polinésia de 100 anos atrás e foi responsável pela criação de um novo gênero cinematográfico.
A “Moana original” foi um documentário mudo do cineasta americano Robert Flaherty. Esse artista vinha sendo conhecido por Nanook of the North, filme que retratava os Inuit e seu cotidiano. Na época, as sequências de caça às morsas e dos caiaques em meio ao gelo encheram as bilheterias. Assim, querendo repetir a dose, escolheu Samoa para gravar o próximo filme. Conforme o historiador de cinema Bruce Posner:
Ele teve uma visão dessa grande história de monstro marinho,[…] Mas quando ele chegou, não havia nenhum monstro marinho. Havia essa vida na ilha onde todo mundo era feliz.”
Desse modo, restou para Flaherty gravar as cenas da vida cotidiana samoana, em que um jovem chamado Moana aparecia com sua família.
O surgimento dos documentários em Moana
As gravações aconteceram por mais de um ano, mas acabaram não correspondendo exatamente ao que o estúdio queria, uma vez que, ao invés de monstros marinhos aterrorizantes, havia apenas tartarugas marinhas inofensivas. O pouco enredo que tinha era a trama familiar que se desenrolava ao redor de Moana.
Apesar disso, nas sessões testes em Nova York, Moana quebrou recordes de bilheterias. Contudo, quando foi lançado para o público amplo, o filme fracassou. Um dos críticos resumiu em: “Em vez de entreter, interessa”.
No entanto, outro crítico adicionou que o filme tinha um “valor documental”, uma nova palavra para um gênero emergente. Assim, o filme Moana original foi o 1° a ser rotulado como “documentary”.
Entretanto, algumas críticas sondam a produção, uma vez que muitos dos elementos retratados já não eram mais praticados por aqueles povos há décadas. De acordo com especialistas, na década de 20, as mulheres já não andavam mais com os seios à mostra como o filme retrata.
Desse modo, há de se admitir que o 1° documentário da história é encenado. “Moana e sua família” não eram parentes, Flaherty escalou cada papel com base na aparência e habilidades de atuação. Até mesmo o nome Moana foi selecionado pelo diretor. Mas como dito, ele não produzia sob as regras de documentário, ele gravava um filme que queria que ficasse mais interessante.
Moana, um retrata do passado
No entanto, ainda que possa ser problematizado o olhar estigmatizante que Flaherty lança sobre a população. Se torna necessário lembrar de que aquele povo também fez parte da produção do filme. Por isso, o filme ao invés de capturar a Samoa de 1920, apresenta uma encenação, propositalmente feita pelos locais de uma memória de outros tempos.

Ou seja, certas características consideradas estigmatizantes foram escolhidas e feitas pelos locais para poder reproduzir um passado. De acordo com a esposa de Flaherty, a comunidade estava “fazendo o filme com nós”. Inclusive, durante as filmagens os anciões da aldeia diziam “que ainda se lembravam dos velhos modos esquecidos e poderiam nos ajudar a recapturá-los e nos dizer se nosso filme era verdadeiro”.
Diferentemente, o filme Moana da Disney foi feito com a consulta de estudiosos e especialistas de todas as ilhas do Pacífico. E, apesar de retratar a mesma cultura local, reconstrói uma cultura completamente diferente.
Assim, para além do desenvolvimento técnicos e morais da produção de filme no contexto samoano, alguns dirão que sim, o Moana de 1926 serviu de inspiração à Disney. Mas o mais interessante é compreender como os povos considerados “intocados pela civilização” fizeram parte da construção de um dos mais famosos gêneros cinematográficos dos dias de hoje.
*Sob supervisão de Éric Moreira