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Jogos da Seleção da República Democrática do Congo têm mudado a política do país

Jogos da Seleção da República Democrática do Congo na Copa do Mundo 2026 têm feito o que a política nacional há décadas não consegue

Foto de Jogo da Seleção da República Democrática do Congo
Foto de Jogo da Seleção da República Democrática do Congo - Créditos: Getty Images

Há 52 anos que a Seleção da República Democrática do Congo (RDC) não passava para um torneio de finais da Copa do Mundo. Contudo, na Copa do Mundo 2026, a seleção do RDC conseguiu um empate com Portugal, uma resistência forte à Colômbia e uma vitória por 3 a 1 contra o Uzbequistão e conquistou uma vaga na fase eliminatória.

A conquista da vaga demarcou o esforço dos jogadores e trouxe momentos de esperança e união ao pais que frequentemente se encontra em conflitos. Atualmente o Congo enfrentará a Inglaterra no próximo jogo. Yoane Wissa, jogador da seleção disse:

Merecemos jogar contra a Inglaterra. Temos trabalhado duro para isso. Sabe, não é fácil no nosso país. Há guerra no leste do Congo. Toda vez que vestimos essa camisa, pensamos neles.”

Seleção do Congo no jogo contra Uzbequistão – Créditos: Getty Images

A a Seleção da República Democrática do Congo e o país

Contudo, mais do que as vitórias em cada jogo, os jogadores da RDC têm conquistado o coração dos torcedores. Apelidados de Leopardos, os jogadores têm conseguido parar, ao menos por alguns instantes, os conflitos nacionais e construir uma identidade na população.

Com a finalidade de mostrar como o Congo realmente é, em 2022, o jogador do Newcastle, Yoane Wissa foi até a região de Kivu do Norte para tirar férias. Uma vez que, queria quebrar o estigma que muitos carregam: a visão de que o leste do Congo se resume em guerras, doenças e extração de minerais.

Assim, ao mostrar as colinas verdes, paisagens vulcânicas, lagos e vida selvagem endêmica revelou uma parte do país com uma beleza raramente mostrada pela mídia internacional. Conforme o jogador, o Kivu é lar de algumas das paisagens mais deslumbrantes da África.

“Como se a região fosse um paraíso em que as pessoas fossem condenadas a viver o inferno.” De qualquer forma, o gesto desse jogador fez com que fosse admirado não apenas porque marca gols na Premier League. Mas por lembrar as pessoas de que sua região é muito mais do que um campo de batalha.

Inclusive, para dar dimensão da região, do Oceano Atlântico, a oeste, aos vulcões que fazem fronteira com Ruanda e Uganda, a leste, o país poderia conter cerca de 10 “Reinos Unidos”.

Jogo da Colômbia contra o RDC, na torcida um símbolo nacional congolês Michel Nkuka Mboladinga,também conhecido como Lumumba Vea – Créditos: Getty Images

Conflitos e identidade nacional

Claro que o país tem seus conflitos, por exemplo o movimento rebelde M23, apoiado por Ruanda e que age como administração paralela. Este movimento surge querendo separação, visto que, a capital Kinshasa está a quase 2.500 quilômetros de distância. Ou seja, a maior parte das pessoas de lá nunca foram para a capital e nem da capital para lá. Causando certo cisma.

Porém, mais do que geográficas, as barreiras do RDC também são linguísticas. Durante o tempo de colonização europeia, centenas de etnias, dialetos e línguas foram enxotados em um mesmo lugar como se fossem a mesma coisa. Por isso, para manter a coesão, o país adotou 4 línguas nacionais como oficiais. Fato é que as diferenças têm demarcado profundos conflitos políticos nesta sociedade.

No entanto, é justamente nesse ambiente que a maior vitória dos Leopardos nem sequer foi televisionada. 

Pois, mesmo abandonados por Kinshasa, a população do leste do país comemora cada partida e cada vitória da seleção na Copa. Ou seja, com o futebol, a imagem de uma nação começa a se desenhar no horizonte congolês.

Inclusive, após o empate com Portugal, comemorações eclodiram por todo o país. Se repetindo outra vez após a vitória contra o Uzbequistão, mas com intensidade ainda maior. Veron Mosengo Omba, o recém-eleito presidente da Federação Congolesa de Futebol e ex-secretário geral da Confederação Africana de Futebol comentou sobre as cenas que viu:

Mesmo nas áreas ocupadas do leste do Congo, você vê pessoas saindo para as ruas para dançar. É incrível … O que esses jovens jogadores nos deram foi um presente inesperado.”

Em suma, a seleção do RDC têm conseguido fazer com que as pessoas cantassem o hino nacional, balançassem as bandeiras congolesas e dançado até tarde, juntas. Seja sob ocupação ou não, segundo o The Guardian, eles proclamaram sua identidade congolesa com orgulho. Surpreendentemente, e mesmo que brevemente, o futebol conseguiu o que a política vem lutando há décadas.

Assim, independente do resultado do jogo da RDC contra a Inglaterra, o maior resultado e a maior vitória para a seleção congolesa já foi levado para casa.

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: