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Barcos da Idade do Bronze revelam redes entre a Ibéria e a Escandinávia

Gravuras milenares indicam que povos da costa atlântica compartilhavam tecnologia naval e rituais em rotas comerciais de longa distância

Gravuras de barcos da Idade do Bronze encontradas na Península Ibérica revelam semelhanças com representações da Escandinávia e reforçam a existência de antigas redes marítimas entre as duas regiões. Foto: Gerhard Milstreu / Díaz-Guardamino et al., PLOS One (2026), CC BY 4.0.

A costa atlântica da Europa funcionava como uma rede de intercâmbio muito antes das fronteiras modernas existirem. De acordo com um estudo publicado pela revista científica PLOS One e repercutido pela Archaeology News Online Magazine, gravuras rupestres encontradas em rochas na Espanha e em Portugal sugerem que os povos da Península Ibérica e da Escandinávia mantinham contato regular há mais de 3.000 anos

A pesquisa comparou petróglifos de 12 sítios arqueológicos no noroeste ibérico com milhares de imagens semelhantes do sul da Escandinávia, revelando semelhanças impressionantes em detalhes técnicos e artísticos.

Tecnologia naval compartilhada

O uso de tecnologias avançadas, como o escaneamento 3D de alta resolução e modelos digitais, permitiu que os cientistas identificassem elementos anteriormente invisíveis na pedra. As embarcações representadas possuem cascos curvos, tripulações, remos e até evidências de mastros e velas. 

Conforme reportado pelo portal Archaeology News, a pesquisadora Marta Díaz-Guardamino, uma das líderes do projeto, destaca que essas semelhanças apontam para um conhecimento comum de construção naval. A presença de decorações em forma de “S” e figuras de pássaros nas extremidades dos barcos reforça a ideia de uma tradição comum entre comunidades separadas por milhares de quilômetros.

À esquerda, exemplos de arte rupestre da Península Ibérica com representações de barcos da Idade do Bronze. À direita, mapa mostra a distribuição desse tipo de gravura na Europa. Foto: Luís Coutinho, Marta Díaz-Guardamino / Díaz-Guardamino et al., PLOS One (2026), CC BY 4.0.

Rotas comerciais atlânticas

A localização estratégica dos achados reforça a tese de que o noroeste da Península Ibérica era um centro fundamental nessas redes marítimas. Quase todos os locais estudados estão próximos à costa ou a grandes rios navegáveis que deságuam no Atlântico. 

Um exemplo notável é o sítio de Penedo do Muro, localizado em um vale rico em estanho, um dos metais mais valiosos da época. A existência de gravuras de barcos em áreas de mineração sugere que mercadores viajavam para o interior em busca de recursos, conectando a região a redes de comércio que transportavam também cobre e prata.

Barco 3 no painel 2, Santo Adrião, com detalhes que sugerem paralelos diretos com a iconografia náutica do sul da Escandinávia. Crédito: Díaz-Guardamino et al., PloS One (2026); CC BY 4.0

Espiritualidade e navegação

Para os especialistas, os barcos tinham um significado que ia além do transporte de mercadorias. A recorrência de símbolos como cruzes solares esculpidas ao lado das embarcações, tanto na Península Ibérica quanto na Escandinávia, indica um sistema de crenças rituais compartilhado

Segundo a professora Ana M. S. Bettencourt, que integrou a investigação, esse fenômeno reflete visões de mundo que promoviam o contato transregional. O arqueólogo Johan Ling aponta que essas imagens refletem jornadas simbólicas ligadas ao sol. Esse cenário consolida a visão de que a Europa Atlântica formava uma região marítima conectada, onde a circulação de metais era acompanhada pela disseminação de novas ideias e tecnologias.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.