Colônia do Sacramento: o enclave histórico entre portugueses e espanhóis no Uruguai
Fundada por portugueses na margem do Rio da Prata, no Uruguai, Colônia do Sacramento foi um território disputado por Portugal e Espanha no período colonial

Nesta sexta-feira, 26 de junho, às 21h (horário de Brasília), as seleções de Uruguai e Espanha entram em campo para disputar a última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. Além da crucial busca pela classificação, a partida carrega um ingrediente psicológico de peso: a seleção uruguaia tenta quebrar um incômodo tabu histórico de nunca ter vencido o rival europeu nos gramados mundiais.
Ao todo, as duas nações já se enfrentaram dez vezes na história do futebol, acumulando um retrospecto de cinco vitórias espanholas e cinco empates. Em edições de Copas do Mundo, os eles mediram forças em apenas duas ocasiões, ambas encerradas em igualdade: um empate por 2 a 2 no Mundial de 1950 e um placar zerado de 0 a 0 em 1990.

Essa rivalidade esportiva contemporânea, contudo, ecoa um antagonismo geopolítico muito mais antigo, cujas raízes remontam aos séculos de disputas territoriais e coloniais na América do Sul. O epicentro desse embate entre impérios não se deu nos campos de futebol, mas sim nas margens do estuário do Rio da Prata e nas coxilhas da antiga Banda Oriental, envolvendo personagens, tratados e batalhas que, ao longo do tempo, redesenharam a geografia da região.
Colônia do Sacramento
O primeiro grande capítulo dessa fricção ibérica na porção austral do continente materializou-se na fundação de Colônia do Sacramento, ao fim do século 16. Idealizada por dom Manuel Lobo, fidalgo lusitano e então governador da capitania luso-brasileira do Rio de Janeiro, a fortaleza foi erguida na margem esquerda do Rio da Prata, diretamente sob a vigilância de Buenos Aires, a capital espanhola estabelecida na margem oposta.
A Coroa portuguesa buscava balizar seus domínios pelos maiores rios descobertos, de modo a assegurar o controle das vias fluviais de acesso ao interior do continente, impulsionada pelas notícias das ricas minas de prata de Potosí, situadas na atual Bolívia.
Como sintetizou o historiador Paulo Possamai, da Universidade Federal de Pelotas: “A coroa portuguesa procurou balizar seus domínios pelos maiores rios descobertos – o Amazonas, ao norte, e o Prata, ao sul. Não porque fossem fronteiras naturais, mas para garantir o controle das vias de acesso ao interior do continente”.
A resposta espanhola foi imediata, inaugurando um ciclo de hostilidades que transformou a localidade em uma praça-forte militarizada. Durante um período de 97 anos, entre 1680 e 1777, Colônia do Sacramento funcionou como o principal pomo da discórdia entre os espanhóis da atual Argentina e os luso-brasileiros.
A cidade suportou cinco cercos militares, foi destruída três vezes e reconstruída outras tantas, alternando de soberania na base da canetada diplomática e da força das armas.
Esse vaivém de domínios deixou marcas indeléveis na arquitetura urbana contemporânea da cidade uruguaia, onde habitações de pedra com telhados de duas ou quatro águas, típicas do período colonial português, dividem espaço com casarões de tijolos e terraços planos de estilo espanhol.
Muitas vias locais guardam nomes que homenageiam personagens da época, como o próprio fundador, Dom Manuel Lobo, e Hipólito da Costa, nascido na colônia em 1774 e que posteriormente criaria o Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro. Apesar dessa relevância histórica, o local acabou relegado ao esquecimento pela memória pública brasileira por representar um território cedido.
Origens diplomáticas do conflito
As divergências entre Portugal e Espanha pela posse da confluência dos rios Paraná e Uruguai eram anteriores à própria colonização e remontavam à época dos grandes descobrimentos.
Os dois reinos já disputavam territórios marítimos e comerciais desde o século 15. Em 1494, a assinatura do Tratado de Tordesilhas tentou resolver a questão dividindo as terras por meio de uma linha imaginária estipulada a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde.
O acordo, contudo, trazia imprecisões técnicas de execução. A diplomacia da época não especificou a partir de qual das dez ilhas de Cabo Verde a contagem deveria iniciar, e as duas nações sequer partilhavam da mesma convenção métrica sobre a extensão exata de uma légua.
A falta de consenso gerou interpretações geográficas conflitantes que alimentaram hostilidades fronteiriças por gerações. “Para Portugal, ela chegava até a Patagônia. Para os espanhóis, ela passava por Cananeia”, explica Paulo Possamai, autor de “A Vida Quotidiana na Colônia do Sacramento”.
Desse modo, o controle da chamada Banda Oriental — margem nordeste do Rio da Prata — permaneceu indefinido. Embora navegadores portugueses tenham cruzado o estuário pioneiramente em 1512, os espanhóis consolidaram a primeira fundação urbana da região ao erguer Buenos Aires em 1535.
Uma união dinástica europeia postergou o embate americano: entre 1580 e 1640, Filipe II da Espanha assumiu o trono de Portugal, unificando as colônias sob uma única Coroa por seis décadas. Com a restauração da independência portuguesa, os lusitanos retomaram os planos expansionistas na América do Sul.

Cerco e resistência militar
A operação para implantar o bastião português no sul foi cercada de sigilo. Dom Manuel Lobo organizou um contingente de 400 soldados recrutados em São Paulo e no Rio de Janeiro, mobilizando quatro embarcações munidas de 18 canhões. O movimento, contudo, não passou despercebido por informantes espanhóis, que notificaram as autoridades de Buenos Aires sob o temor de uma invasão iminente à cidade ou uma investida rumo às minas andinas.
Barcos de patrulha enviados pelo governador espanhol José de Garro vasculharam o estuário sem sucesso. A frota de Lobo havia ancorado em uma baía protegida atrás da Ilha de São Gabriel, fundando ali a Colônia do Santíssimo Sacramento, a pouco mais de 50 quilômetros da capital espanhola.
O acampamento foi descoberto casualmente por trabalhadores espanhóis que coletavam lenha na margem norte. Diante da recusa de Lobo em desocupar a área, Garro organizou uma contraofensiva com 480 soldados regulares e um exército de 3 mil indígenas guaranis. Em agosto de 1680, um ataque surpresa culminou no saque e incêndio da recém-criada colônia, e Dom Manuel Lobo terminou seus dias sob custódia em Buenos Aires.
Apesar da vitória militar, a Coroa espanhola evitou colonizar de imediato a Banda Oriental devido a compromissos bélicos na Europa contra a Holanda. Assim, um ano após o ataque, os portugueses restabeleceram o assentamento. Para garantir a permanência das tropas e desestimular deserções, a nova expedição incluiu um destacamento feminino, sendo posteriormente reforçada pela chegada de colonos civis oriundos dos Açores e da região de Trás-os-Montes.
Economia do contrabando e do couro
Nas décadas seguintes, o vilarejo fortificado desenvolveu infraestrutura agrícola e urbana, substituindo as habitações rústicas iniciais por muralhas de pedra gravadas com as armas portuguesas.
Contudo, a instabilidade militar persistiu, com a praça-forte sendo tomada pelos espanhóis em 1705 e 1762, e recuperada pelos lusitanos em 1717 e 1763. Essa resiliência portuguesa apoiava-se fortemente na aliança estratégica com a Inglaterra, que fornecia respaldo diplomático e proteção naval no Atlântico Sul.
No cotidiano, a relação entre Sacramento e Buenos Aires alternava entre a hostilidade formal e a cooperação econômica informal. O comércio colonial espanhol operava sob rígido monopólio real, e o porto de Buenos Aires sofria restrições para receber navios europeus diretos, encarecendo os produtos de consumo local.
Esse cenário favoreceu uma intensa rede de comércio clandestino na região. Como aponta Fabrício Prado, professor do College of William and Mary, nos Estados Unidos: “Aos olhos do império espanhol, esse comércio era ilegal. Oficialmente, a Coroa portuguesa dizia não autorizar o contrabando – mas na verdade o estimulava e o auxiliava”.
Mercadorias como tabaco, açúcar e farinha partiam do Nordeste e do Sudeste do Brasil em direção a Sacramento, enquanto frotas europeias abasteciam os armazéns locais com tecidos, ferramentas, vinhos e especiarias. Pescadores e comerciantes transportavam esses bens em barcos a remo pelas ilhas do delta dos rios Paraná e Uruguai, negociando secretamente com compradores de Buenos Aires.
O pagamento era efetuado em moeda metálica de prata originária do Alto Peru. O cronista e viajante francês François Pyrard registrou a dinâmica mercantil da época: “Todo o dinheiro que daquelas partes se tira é roubando e defraudando os direitos de el-Rei de Espanha. E nem por isso deixam de tirar dali muito, porque todo o dinheiro que corre no Brasil de lá vem”.
Simultaneamente, a exploração pecuária converteu-se em pilar econômico regional. Rebanhos introduzidos por missões jesuítas no atual Rio Grande do Sul espalharam-se sem controle pelos pampas, multiplicando-se rapidamente. Os moradores de Colônia organizavam expedições para caçar os animais, visando o abastecimento interno e a extração do couro, artigo de alta demanda nos primórdios da Revolução Industrial europeia para a confecção de correias industriais.
Manadas de cavalos selvagens, descendentes de espécimes trazidos pelos fundadores de Buenos Aires, também passaram a ser domadas pelos luso-brasileiros e por populações indígenas nômades locais, como os charruas e minuanos. Os tropeiros de Sacramento estruturavam expedições terrestres de longa distância para conduzir o gado até postos comerciais portugueses ao norte, como a vila de Laguna, no litoral catarinense, em jornadas que duravam cerca de 70 dias.

A queda do bastião
A prosperidade baseada no comércio paralelo sofreu severa retração a partir de 1737. Comerciantes de Buenos Aires pressionaram a administração espanhola para extinguir a concorrência comercial da praça-forte lusitana.
Para evitar um conflito direto com a Grã-Bretanha, as forças espanholas optaram por uma estratégia de isolamento terrestre crônico, estabelecendo postos de vigilância que limitavam o trânsito dos habitantes de Sacramento ao raio de alcance da artilharia da fortaleza.
O bloqueio intermitente estendeu-se por quatro décadas, inviabilizando o cultivo nas fazendas periféricas e provocando crises severas de desabastecimento alimentício no interior das muralhas. O desfecho militar definitivo ocorreu em 1777, impulsionado pelo início da Guerra de Independência dos Estados Unidos, que concentrou as atenções e forças navais britânicas no Hemisfério Norte.
Diante da vulnerabilidade portuguesa, o rei Carlos III da Espanha nomeou Pedro de Ceballos como vice-rei do Rio da Prata, enviando uma frota de 400 navios e um corpo expedicionário de 9 mil soldados. A ofensiva fulminante desmantelou as defesas de Colônia do Sacramento, encerrando definitivamente a soberania lusitana na região.