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Independência nos gramados: a antiga rixa entre Escócia e Inglaterra

Adversária do Brasil nesta quarta-feira, a Escócia possui uma rivalidade histórica, desde a Idade Média, com a Inglaterra; entenda!

Os jogadores Scott McTominay, da Escócia, e Harry Kane, da Inglaterra / Crédito: Getty Images

Nesta quarta-feira, 24 de junho, o Brasil entra em campo contra a Escócia para disputar sua terceira e última partida da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, e decidir seus próximos adversários nas eliminatórias. O confronto marca o encerramento desta etapa inicial para as duas seleções, antecipando o fechamento geral da rodada no próximo sábado, dia 27, quando a competição ingressará definitivamente em sua fase de mata-mata.

Para a torcida verde-amarela, o duelo traz um retrospecto amplamente favorável: as duas equipes já se enfrentaram quatro vezes na história dos Mundiais — em 1974, 1982, 1990 e 1998 — e a Amarelinha nunca perdeu para os escoceses, somando três vitórias e um empate.

Contudo, além das estatísticas de campo, o confronto chama a atenção por uma peculiaridade geopolítica. No mapa tradicional, a Escócia não é um Estado soberano independente; ela integra o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, respondendo politicamente ao governo centralizado em Londres.

Os entusiastas de futebol podem se perguntar: por que uma região que compartilha a mesma moeda, o mesmo passaporte e o mesmo chefe de Estado que os ingleses possui uma seleção de futebol própria, hino exclusivo e o direito de competir separadamente no maior palco do esporte mundial?

A resposta para esse fenômeno não está nos regulamentos modernos da FIFA, mas sim em uma complexa e sangrenta tapeçaria histórica que remonta à Idade Média. Para os escoceses, os gramados de futebol representam o único território onde a sua soberania nacional nunca foi totalmente subjugada ou dissolvida. Entenda!

Futebol fragmentado

Antiga ilustração de partida de futebol entre Escócia e Inglaterra / Crédito: Getty Images

Para compreender a separação esportiva, é preciso voltar ao século 19, época em que as regras do futebol moderno foram codificadas. O esporte bretão nasceu e se desenvolveu dentro do território britânico muito antes de a Federação Internacional de Futebol (FIFA) sequer ser idealizada em Paris, no ano de 1904.

A The Football Association (a FA inglesa) foi fundada em 1863, sendo a mais antiga do planeta. Dez anos depois, em 1873, nasceu a Scottish Football Association (SFA). Diante do pioneirismo dessas instituições — que incluíam também as associações do País de Gales e da Irlanda —, o Reino Unido detinha o monopólio da organização do esporte.

Quando a FIFA foi criada e tentou unificar o futebol global, deparou-se com uma realidade incontornável: as quatro nações britânicas já possuíam seus próprios campeonatos locais e uma identidade esportiva consolidada. Como forma de respeito ao berço do esporte, a entidade máxima do futebol ganhou um direito histórico permanente: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte competiriam como membros independentes e separados.

Se para a FIFA a concessão foi uma formalidade burocrática e histórica, para o povo escocês o privilégio esportivo tornou-se uma válvula de escape para uma ferida política que já durava séculos.

Rivalidade medieval

A animosidade entre a Escócia e a Inglaterra está alicerçada em séculos de invasões e resistência cultural. Durante a Idade Média, a Escócia era um reino orgulhoso e completamente independente, que via na vizinha Inglaterra uma ameaça constante à sua própria existência.

Este período ficou marcado pelas chamadas Guerras de Independência da Escócia, entre os séculos 13 e 14. Foi nesse cenário de terra arrasada que surgiram figuras míticas do folclore escocês, como William Wallace — o cavaleiro imortalizado na cultura popular por liderar a resistência camponesa contra o expansionismo do rei inglês Eduardo I — e Robert the Bruce. A vitória esmagadora de Bruce na Batalha de Bannockburn, em 1314, garantiu a autonomia escocesa por quase quatro séculos, mas semeou um rancor profundo entre as duas nações.

A união dinástica começou a se desenhar de forma irônica em 1603, quando a rainha Elizabeth I da Inglaterra morreu sem deixar herdeiros. O trono inglês passou para o seu primo distante, Jaime VI da Escócia, que se tornou simultaneamente rei de ambos os países na chamada União das Coroas. Embora dividissem o mesmo monarca, os dois reinos continuaram operando com parlamentos, leis e economias totalmente distintos.

O Tratado de União de 1707

A fusão política definitiva só aconteceu no início do século 18, e não foi motivada por diplomacia ou afeto, mas por uma severa crise econômica. No final da década de 1690, a elite escocesa investiu uma quantidade colossal de recursos no chamado Projeto Darién, uma tentativa ambiciosa e desastrosa de estabelecer uma colônia comercial no istmo do Panamá.

O projeto falhou devido às doenças tropicais, à resistência espanhola e à falta de apoio logístico dos ingleses, que sabotaram a iniciativa para proteger seus próprios interesses mercantis. O desastre financeiro quase faliu o reino escocês, deixando a nobreza local em uma posição de extrema vulnerabilidade.

Aproveitando-se da crise, a Coroa Inglesa ofereceu um resgate financeiro em troca da unificação política. Foi assim que, em 1707, foi assinado o Tratado de União, que dissolveu o Parlamento de Edimburgo e deu origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha, segundo a BBC.

A população escocesa recebeu a notícia com indignação. Protestos e tumultos eclodiram em várias cidades, e muitos cidadãos sentiram que a independência do país havia sido vendida pela aristocracia. O poeta escocês Robert Burns resumiria o sentimento popular décadas mais tarde em versos amargos, afirmando que a nação fora “comprada e vendida pelo ouro inglês”. Nascia ali a percepção histórica de que a União era, essencialmente, um casamento forçado.

Revoltas Jacobitas

Pintura representando a Batalha de Culloden / Crédito: Getty Images

A insatisfação com o Tratado de União alimentou movimentos de resistência armada ao longo da primeira metade do século 18. As chamadas Revoltas Jacobitas foram uma série de rebeliões que visavam restaurar a dinastia Stuart católica ao trono britânico e, consequentemente, reavaliar os termos da submissão a Londres.

O ápice desse conflito ocorreu em 1745, quando o príncipe Carlos Eduardo Stuart desembarcou nas Terras Altas (Highlands) e marchou com um exército de clãs escoceses rumo à Inglaterra. O sonho jacobita, contudo, foi brutalmente esmagado na Batalha de Culloden, em 1746.

A derrota de Culloden resultou em uma repressão cultural severa por parte do governo britânico. O uso do kilt (a tradicional saia escocesa), o toque da gaita de foles e até mesmo a organização social baseada em clãs foram proibidos por lei. Essa tentativa de “apagamento cultural” gerou um ressentimento silencioso que atravessou gerações, moldando a identidade escocesa moderna em torno do orgulho e da preservação de suas particularidades.

Contexto moderno

Embora o aspecto histórico seja a base da rivalidade, a relação conturbada entre a Escócia e o resto do Reino Unido ganhou novos contornos políticos no final do século 20 e início do século 21, mantendo o desejo de separação vivo no debate público.

Em 1997, um referendo aprovou o processo de Devolução de Poderes, permitindo que a Escócia restabelecesse o seu próprio Parlamento em Edimburgo após quase 300 anos. Atualmente, os escoceses possuem autonomia para gerenciar de forma independente setores cruciais como saúde, educação e sistema jurídico local, além de emitirem suas próprias cédulas de libra esterlina. No entanto, as decisões macroeconômicas, de política externa e de defesa militar ainda permanecem centralizadas no Parlamento britânico, em Westminster.

Nas últimas duas décadas, o Partido Nacional Escocês (SNP) assumiu o protagonismo político ao defender abertamente a independência total da nação. Esse movimento culminou no Referendo de Independência de 2014, onde a população escocesa foi às urnas decidir o seu futuro. Na ocasião, o “não” à separação venceu por uma margem apertada (55% contra 45%), motivado principalmente pelo medo da instabilidade econômica.

O cenário voltou a se tensionar com o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. No plebiscito de 2016, 62% dos eleitores escoceses votaram a favor da permanência na União Europeia, mas foram arrastados para fora do bloco econômico devido à densidade demográfica esmagadora da Inglaterra, que votou pela saída. Para o nacionalismo escocês, o episódio serviu como uma prova contemporânea de que os interesses de Edimburgo continuam sendo sufocados pelas decisões tomadas em Londres.

Assim, quando a Escócia entra em campo de maneira autônoma, cada partida transcende o esporte. O uniforme azul e o canto orgulhoso de Flower of Scotland — hino que relembra justamente as vitórias medievais contra as invasões inglesas — funcionam como um manifesto político vivo. No retângulo verde do gramado, a Escócia não é apenas uma região administrativa do Reino Unido; é, por direito histórico e persistência cultural, uma nação soberana.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.