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O trágico naufrágio do navio SS Daniel J. Morrel, que afundou em águas geladas há 60 anos

Em meio a uma violenta tempestade, o SS Daniel J. Morrel acabou partindo ao meio e afundando; uma única pessoa sobreviveu para contar a história

O navio SS Daniel J. Morrell logo após a conclusão de sua construção em 1906 - Crédito: Domínio público

No ano de 1966, um terrível naufrágio ocorrido na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá deixou morta quase toda tripulação do cargueiro SS Daniel J. Morrell. Naquele dia, uma forte tempestade de inverno fez com que o navio que levava 30 pessoas a bordo se partisse ao meio. O episódio ocorreu na madrugada de 29 de novembro de 1966, especificamente no Lago Huron, um dos cinco Grandes Lagos da América do Norte. Um único homem conseguiu sobreviver.

Sobre o navio

Construído em 1906 pela West Bay City Ship Building Company, o Daniel J. Morrell era considerado uma lenda da navegação regional. Tinha cerca de 183 metros de comprimento e capacidade para transportar aproximadamente 12 mil toneladas de carga, algo impressionante para a época.

Batizado em homenagem a Daniel Johnson Morrell, ex-congressista norte-americano, o navio passou décadas transportando matérias-primas, especialmente aço e minério, pelas águas dos Grandes Lagos e, após uma longa carreira sem grandes incidentes, recebeu uma missão extra no fim da temporada de navegação de 1966, quando outra embarcação apresentou problemas mecânicos.

Em 26 de novembro daquele ano, o cargueiro deixou Buffalo, no estado de Nova York, com destino ao Porto de Taconite, em Minnesota, onde carregaria minério de ferro. O que sua tripulação não imaginava era que uma violenta tempestade atingiria a embarcação. Quanto mais o cargueiro avançava pelo Lago Huron, piores ficavam as condições meteorológicas. A situação era terrível.

A embarcação até resistiu por um tempo aos ventos de mais de 110 quilômetros por hora, à neve intensa e mesmo às ondas que ultrapassavam dez metros de altura. Contudo, durante a madrugada do dia 29, a estrutura começou a ceder.

Dennis Hale tinha 26 anos na época, conforme o portal All That’s Interesting. Único sobrevivente do evento trágico ele recordaria anos depois o momento em que percebeu que algo estava terrivelmente errado. Acordou com um forte estrondo pouco antes das duas da manhã e saiu para verificar o que acontecia. Logo percebeu que o cargueiro estava se partindo ao meio.

Sua reação foi imediatamente correr para vestir algumas roupas e colocar o colete salva-vidas. Enquanto isso, o restante da tripulação tentava alcançar os equipamentos de emergência. Não houve tempo suficiente. Em questão de minutos, a embarcação se partiu completamente e começou a afundar.

Cenário caótico

Segundo os relatos do sobrevivente, uma jangada inflável foi lançada à água, mas a violência do mar transformou a evacuação em uma grande luta. Apenas quatro homens conseguiram chegar à jangada. Os demais seriam arremessados para as águas congelantes do lago enquanto observavam a estrutura do navio se desintegrar diante de seus olhos. Pouco depois, o grupo sobrevivente avistou o que parecia ser uma embarcação se aproximando para resgatá-lo. Na verdade, era a seção traseira do próprio Daniel J. Morrell, que continuava flutuando à deriva após a ruptura.

Sem tempo para emitir um pedido de socorro, os sobreviventes ficaram isolados em meio à tempestade. O navio afundou muito rapidamente, apenas 8 minutos após o soar do alarme. Expostos ao frio extremo e aos ventos congelantes, três dos quatro homens que haviam alcançado a jangada morreram nas horas seguintes.

Dennis Hale resistiu. Nas longas 38 horas que aguardou por um resgate, o jovem enfrentou temperaturas próximas do congelamento. Para piorar a situação, ele estava cercado pelos corpos dos companheiros de tripulação. Quando finalmente foi localizado por um helicóptero da Guarda Costeira, estava em estado crítico, tanto que um sacerdote, acreditando que ele não sobreviveria, chegou a ministrar-lhe a extrema-unção.

O que explicaria sua sobrevivência

Mas milagrosamente Hale se recuperou. Mais tarde, ele afirmou acreditar que sua sobrevivência pode ter sido favorecida pelo fato de estar usando poucas roupas. Enquanto as vestimentas mais pesadas dos outros homens congelaram rapidamente, aumentando o risco de hipotermia, ele acabou carregando menos gelo sobre o corpo.

Anos depois, investigadores concluíram que a tragédia provavelmente foi causada pela combinação de dois fatores. Por um lado, a violência da tempestade, por outro, a fragilidade estrutural do navio. Isto porque embarcações construídas no início do século passado utilizavam um tipo de aço com alto teor de enxofre, material que se tornava mais quebradiço a temperaturas muito baixas. Por isso, o casco do Daniel J. Morrell não resistiu. Os destroços da embarcação viriam a ser encontrados anos mais tarde, já em 1979, a cerca de 44 metros de profundidade, próximo à costa de Michigan.

O anos passaram, mas Dennis Hale seguiu questionando o fato de ter sido o único a escapar da morte naquele naufrágio, tanto que, em diversas entrevistas, descreveu os colegas de tripulação como sua verdadeira família e afirmou que a culpa por ter sobrevivido o acompanhou pelo resto da vida. Ele faleceu em 2015, quase cinco décadas após o incidente.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.