Os castores paraquedistas que protagonizaram operação nos EUA
Experimento realizado em Idaho no fim da década de 1940 utilizou aviões e paraquedas para transferir castores para áreas remotas

Imagine ouvir um estrondo repentino, ser capturado por uma armadilha, transportado por uma máquina barulhenta a centenas de metros de altura e, em seguida, lançado ao vazio para aterrissar em um local completamente desconhecido. Embora pareça o enredo de uma ficção científica sobre abduções, essa experiência foi real para dezenas de castores transferidos pelo estado de Idaho, nos Estados Unidos, no final da década de 1940.
A história ganhou notoriedade em abril de 1949, quando a revista Popular Mechanics publicou uma reportagem intitulada “Moving Day for the Parabeavers” (“Dia da Mudança dos Paracastores”, em tradução livre). A matéria relatava uma iniciativa inusitada do Departamento de Pesca e Caça de Idaho, que utilizou aviões e paraquedas para transportar castores para regiões remotas do estado.
Por trás da ideia estava Elmo W. Heter, funcionário da agência ambiental que buscava uma solução para um problema crescente. Após a Segunda Guerra Mundial, a expansão das áreas habitadas nos Estados Unidos levou cada vez mais pessoas para regiões rurais e menos desenvolvidas. Em Idaho, essa ocupação aproximou fazendeiros e moradores de áreas tradicionalmente habitadas por castores, gerando conflitos frequentes.
Castores “paraquedistas”
Os animais, conhecidos por construir represas, frequentemente interferiam em sistemas de irrigação utilizados por agricultores. Um dos casos relatados pela reportagem de 1949 descrevia a situação de um produtor rural que via sua principal vala de irrigação ser bloqueada repetidamente pelos castores. Todas as manhãs ele removia a represa construída pelos animais, apenas para encontrá-la reconstruída no dia seguinte.
Em épocas anteriores, a resposta mais comum para esse tipo de conflito teria sido o extermínio dos animais. No entanto, ao longo do século XX, cresceu a percepção de que a eliminação indiscriminada da fauna silvestre podia provocar consequências ecológicas significativas.
A própria história dos castores nos Estados Unidos servia como exemplo. Décadas de caça intensa e exploração comercial de peles haviam reduzido drasticamente suas populações em diversas regiões do país. Segundo registros históricos, os castores praticamente desapareceram de estados do leste americano ainda no século XVIII, sendo oficialmente considerados extintos localmente em Connecticut em 1842.
Com o passar do tempo, pesquisadores e autoridades ambientais passaram a reconhecer a importância ecológica da espécie. As represas construídas pelos castores ajudam a reter sedimentos, conservar umidade em áreas secas e criar reservatórios que podem beneficiar tanto a vida selvagem quanto atividades humanas, como a pecuária.
Diante desse cenário, a transferência dos animais para novas áreas passou a ser vista como uma alternativa mais vantajosa do que sua eliminação. O problema era encontrar uma forma eficiente de realizar esse deslocamento.
Até então, o método utilizado em Idaho envolvia a captura dos castores por caçadores autorizados, seguida de longas viagens por estrada e, posteriormente, por trilhas percorridas com cavalos ou mulas. Além de caro e demorado, o processo apresentava um índice elevado de mortalidade. Muitos animais morriam durante o transporte devido ao calor excessivo ou ao estresse provocado pelas condições da viagem.
Transporte aéreo
Foi nesse contexto que Elmo W. Heter apresentou sua proposta pouco convencional: utilizar aviões para transportar os castores até áreas isoladas e lançá-los de paraquedas diretamente em seus novos habitats.
Antes da implementação do projeto, diversos testes foram realizados. Os responsáveis experimentaram diferentes modelos de recipientes para acomodar os animais durante a descida. Algumas das primeiras versões eram feitas de galhos trançados, mas foram rapidamente descartadas quando ficou evidente que os castores conseguiam roer o material ainda durante o voo.
A solução definitiva foi uma caixa semelhante a uma mala, equipada com dobradiças na parte inferior. O mecanismo permanecia fechado durante a descida e se abria automaticamente após o impacto com o solo, permitindo que os ocupantes deixassem a estrutura em segurança.
O principal “voluntário” dos testes foi um castor apelidado de Geronimo, em referência ao famoso grito adotado por paraquedistas militares durante a Segunda Guerra Mundial. Após experimentos bem-sucedidos com pesos e manequins, Geronimo foi lançado repetidas vezes em um campo de aviação para verificar a eficácia do sistema.
Segundo o próprio Heter, o animal acabou se acostumando ao procedimento. Após cada aterrissagem, era recolhido pela equipe e colocado novamente na caixa para mais um teste.
A operação em larga escala começou em agosto de 1948. Ao todo, 76 castores foram transportados por via aérea e lançados sobre a região da Bacia de Chamberlain, no centro de Idaho. Os animais viajavam em pares dentro das caixas adaptadas.
Os resultados superaram as expectativas. Dos 76 castores envolvidos na operação, 75 sobreviveram à transferência. Apenas um animal morreu durante o processo, um índice de sucesso considerado extraordinário para a época.

Além da logística do transporte, os responsáveis também planejaram cuidadosamente a composição dos grupos destinados a cada área. Heter acreditava que a combinação ideal para estabelecer novas populações consistia em um macho e três fêmeas. O próprio Geronimo recebeu essa configuração quando chegou o momento de sua transferência definitiva.
Descoberta de registros
Durante décadas, a história dos chamados “paracastores” permaneceu como uma curiosidade pouco conhecida da conservação ambiental norte-americana. Isso mudou em 2015, quando a historiadora Sharon Clark encontrou um rolo de filme de 16 milímetros catalogado incorretamente.
O material continha um documentário de aproximadamente 14 minutos intitulado Fur for the Future (“Peles para o Futuro”). As imagens mostravam todo o processo de transporte dos castores, incluindo os lançamentos, a abertura automática das caixas e a saída dos animais após a aterrissagem. Embora parte das cenas provavelmente tenha sido recriada para as câmeras, prática comum em documentários da época, o registro representou a primeira oportunidade para o público observar visualmente uma das operações mais peculiares da história da conservação ambiental.
Posteriormente, o filme foi disponibilizado no YouTube pela Sociedade Histórica do Estado de Idaho, levando a surpreendente história dos castores paraquedistas a uma nova geração e transformando uma experiência improvável da década de 1940 em um dos episódios mais curiosos já registrados na relação entre seres humanos e vida selvagem.