Holanda admite erros históricos contra soldados das Molucas
Primeiro ministro da Holanda reconheceu injustiças sofridas por militares molucanos e suas famílias após a independência da Indonésia

O primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten, apresentou um pedido formal de desculpas pelo tratamento dado a milhares de soldados molucanos que serviram ao exército colonial holandês durante o processo de independência da Indonésia.
A declaração ocorreu durante a inauguração de um monumento nacional em Roterdã, cidade que recebeu muitos dos militares e familiares vindos das Ilhas Molucas em 1951. O memorial foi financiado coletivamente e está localizado próximo ao porto onde atracou o último navio que transportou integrantes da comunidade para os Países Baixos.
De acordo com o The Guardian, durante a cerimônia, Jetten classificou como “desumano” o tratamento dispensado aos soldados e suas famílias após a chegada ao país europeu.
Cerca de 12.500 pessoas, entre militares que haviam servido nas Índias Orientais Reais Holandesas e seus familiares, deixaram as Molucas após a independência da Indonésia.
Muitos acreditavam que a mudança seria temporária. A expectativa era permanecer nos Países Baixos por cerca de seis meses até que uma república própria fosse criada nas Molucas.
Entretanto, o plano nunca se concretizou.
Em vez de retornarem, os soldados foram dispensados involuntariamente, proibidos de trabalhar e de votar. Muitos acabaram alojados em locais improvisados, incluindo o antigo campo de trânsito nazista de Westerbork.
Segundo Jetten, a forma como essas pessoas foram recebidas e tratadas causou sofrimento duradouro para gerações da comunidade molucana.
“Por sua dispensa desonrosa e cruel como soldados, pela recepção e alojamento inadequados, por serem invisíveis e abandonados, pela saudade não satisfeita de casa, pela dor e sofrimento de tantas famílias molucanas… por isso, peço desculpas hoje em nome do governo holandês”, declarou o primeiro-ministro.
Ele afirmou ainda que o pedido de desculpas era necessário e que já deveria ter acontecido há muito tempo.
Décadas de reivindicações na Holanda
A busca por reconhecimento das injustiças sofridas pela comunidade molucana se intensificou ao longo das décadas.
Nos anos 1970, descendentes dos imigrantes realizaram ações de protesto que incluíram uma tomada de reféns em uma escola e o sequestro de um trem. Os episódios terminaram após uma operação das forças especiais holandesas.
Em 1986, houve um acordo entre representantes da comunidade e o governo, que incluiu financiamento para iniciativas culturais e programas de emprego. Ainda assim, continuaram as reivindicações por um reconhecimento formal dos erros cometidos pelo Estado.
Durante a cerimônia, Jetten destacou a importância de uma futura investigação parlamentar que conte com a participação da comunidade molucana, atualmente composta por cerca de 70 mil descendentes.
A prefeita de Roterdã, Carola Schouten, afirmou que espera que o monumento se torne um espaço dedicado à preservação dessas histórias.
“Eles foram tratados com frieza, sua lealdade teve um preço alto e muitas vezes foi uma dor silenciosa”, declarou.
O monumento, criado pelos artistas Jaïr Pattipeilohy e Maurice den Boer, representa a proa de uma embarcação tradicional.
Segundo Yordi Tahamata, presidente da fundação responsável pelo projeto, a construção do memorial foi resultado de uma década de esforços.
“Trata-se do direito de contar nossa história e transmiti-la às novas gerações”, afirmou.
Apesar da importância do gesto, algumas pessoas presentes destacaram que o pedido de desculpas chegou tarde para muitos integrantes da primeira geração que viveram diretamente as consequências das decisões do governo holandês.
Eduard Latuheri, de 98 anos, foi um dos soldados sobreviventes convidados para participar da cerimônia. Seu neto, Dennis van Peterson, falou em seu nome.
“Há um sentimento contraditório em relação ao pedido de desculpas. Para o vovô, é a coisa certa a se fazer, mas a primeira geração, em sua maioria, já não está mais aqui – é tarde demais”, afirmou.
Outros participantes também recordaram a frustração de familiares que passaram a vida esperando pela promessa de retorno às Molucas.
Segundo especialistas citados durante o evento, o caráter temporário atribuído inicialmente à permanência dessas famílias nos Países Baixos influenciou o processo de integração por gerações, contribuindo para o prolongamento do sofrimento e do sentimento de exclusão vivido pela comunidade.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes