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DNA antigo aponta lógica curiosa de enterros na Mongólia

Nos enterros da Mongólia, traços de qualificação social determinavam posição nos cemitérios de membros do Império Xiongnu

Sítio arqueológico que contém os enterros da Mongólia
Sítio arqueológico que contém os enterros da Mongólia - Créditos: Divulgação/ Alcouffe et al., Antiquity (2026)

Nos estepes mongol, formações circulares chamaram a atenção dos satélites chineses. Ao investigar, os arqueólogos chineses descobriram que aquelas eram estruturas de enterros da Mongólia, mais especificamente uma necrópole de 100 a.C. do Império Xiongnu.

Ao analisar os restos presentes nas tumbas, outra surpresa, dentro da necrópole de Tamir, o status social, a riqueza e as conexões políticas desempenhavam papel central nas decisões funerárias. Inclusive, se tornando mais importante que os laços familiares.

A ordem dos enterros da Mongólia

A necrópole fica no ponto de encontro entre os rios Tamir e Orkhon e foi construída pelos membros do Império Xiongnu, que lá foram sepultados entre 100 a.C e 100 d.C. Inclusive, período em que o Império começou a perder força diante da força da dinastia Han.

Nesse sentido, os Xiongnu formaram o primeiro grande império nômade das estepes da Ásia Central e mantiveram uma longa rivalidade com a China Han. Dentre suas especificidades estava um sistema político dividido entre duas famílias, a família da direita e a família da esquerda. 

Contudo, os nomes não foram dados por motivos políticos. Até porque os conceitos de direita e esquerda só iriam surgir na Revolução Francesa e colocar esses termos em povos da época de Cristo seria completamente anacrônico. Assim, a referência é a posição física das famílias, algo mais parecido com Leste e Oeste.

De qualquer forma, a divisão entre as duas famílias intriga os arqueólogos e historiadores chineses há décadas. Desse modo, a necrópole de Tamir oferece uma rara explicação sobre essas diferenças.

A seção leste do cemitério de Tamir foi completamente escavada. Desse modo, os restos humanos encontrados foram submetidos para análises clínicas para compreender quais eram as linhagens presentes no cemitério.

A organização populacional

Primeiramente, os arqueólogos descobriram duas linhagens familiares estendidas, conhecidas como A e B, juntamente com um grupo maior de indivíduos que não estavam intimamente relacionados a nenhuma das famílias.

Porém, o cemitério que à primeira vista parecia ter sido dividido entre as famílias comandantes surpreendeu os arqueólogos mais uma vez. Das 44 sepulturas, as quais continham 47 indivíduos, o DNA provou que os fatores sociais tinham peso maior na classificação.

Através de um método chamado filogenética cultural, que traça relações entre práticas culturais e não genéticas, e a inserção dos todos os dados em uma IA, os arqueólogos chineses puderam comprovar a tese.

Assim, membros de uma mesma família podiam ter enterros muito diferentes, desde a profundidade do enterro, tamanho da tumba, bens funerários até a construção do caixão e artefatos que foram enterrados juntos com a pessoa.

Ao passo que entre as análises foram encontrados dois irmãos com destinos muito diferentes. Enquanto um foi velado com sua esposa em um dos túmulos mais ricos do cemitério, entre membros de uma linhagem líder. Seu irmão foi enterrado sozinho a mais de 200 metros, perto da borda da necrópole.

Houveram também figuras que nem sequer no cemitério foram sepultadas. Conforme o artigo publicado na Antiquity, Na maioria das gerações, apenas um membro de uma linhagem parece ter sido enterrado lá, geralmente acompanhado por um cônjuge e, ocasionalmente, filhos pequenos. Ou seja, dentre as famílias havia uma segregação de quem deveria ser enterrado na necrópole ou não.

De todo modo, a notícia surpreendeu os arqueólogos e especialistas em China, especialmente os especializados no Império Xiongnu e demais povos da Mongólia. Visto que, até então, percebia-se a família como uma forte instituição daquele tempo.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: