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Estudo de DNA revela laços das elites mongóis com populações da Eurásia Central

Análise genética de sepulturas no Cazaquistão liga elites medievais da Horda Dourada ao Planalto Mongol e confirma integração com povos das estepes

Genghis Khan
Representação de Genghis Khan, fundador do Império Mongol / Crédito: Domínio Público

Análises de DNA antigo realizadas em quatro sepulturas de elite na região de Ulitau, no centro do Cazaquistão, revelaram a origem mongol das lideranças da Horda Dourada e seus vínculos com populações da Eurásia Central. O estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), traz novos dados genéticos sobre a classe dominante desse estado medieval, considerado o ramo noroeste do Império Mongol fundado por descendentes de Genghis Khan.

Os túmulos investigados pertencem a membros da Horda Dourada, que emergiu no século 13 sob a liderança de Jochi, filho mais velho de Genghis Khan. Seus sucessores controlaram vastas áreas da Eurásia Central e da Europa Oriental. A tradição local sustenta que um dos mausoléus analisados abriga os restos mortais de Jochi. Embora os pesquisadores não tenham confirmado a identidade do indivíduo sepultado ali, os dados genéticos indicam que as elites enterradas no local pertenciam claramente a uma linhagem de origem mongol.

Detalhes do estudo

Foram extraídas amostras de DNA de três homens e uma mulher enterrados nos mausoléus. A análise revelou que os três homens compartilhavam a mesma linhagem paterna. Todos apresentavam uma variante do cromossomo Y identificada como haplogrupo C3, frequentemente associada a populações do Planalto Mongol. Estudos conduzidos há cerca de duas décadas já haviam apontado que um número expressivo de homens na Eurásia Central compartilha um padrão semelhante no cromossomo Y. Algumas estimativas sugeriram que aproximadamente um em cada 200 homens na região poderia carregar uma linhagem ligada à expansão mongol.

O novo estudo aprofunda esse panorama ao identificar que os indivíduos da Horda Dourada pertenciam a um sub-ramo específico dentro do grupo C3. Embora populações modernas ainda apresentem linhagens relacionadas, a sublinhagem encontrada nas sepulturas de Ulitau parece hoje menos frequente do que o haplogrupo mais amplo. A utilização de DNA antigo permitiu distinguir com maior precisão ramos genéticos próximos, algo que nem sempre é possível apenas com dados de populações contemporâneas.

Além das linhagens paternas, os pesquisadores analisaram os genomas completos dos quatro indivíduos. A maior parte da ancestralidade identificada remonta a antigos grupos do nordeste da Ásia. Uma parcela menor está associada a antigos eurasiáticos do norte e a populações das estepes relacionadas aos citas, incluindo tribos kipchak que habitavam a região antes e durante o domínio mongol. Registros históricos já mencionavam alianças e processos de integração entre governantes mongóis e grupos locais das estepes, e os resultados genéticos reforçam essas descrições.

As evidências arqueológicas observadas nos mausoléus complementam os dados genéticos. As construções funerárias e os objetos encontrados combinam tradições mongóis com elementos regionais, sugerindo que a elite governante preservava vínculos orientais enquanto exercia poder em territórios ocidentais. O conjunto indica uma sociedade marcada por intercâmbios culturais e adaptações, e não por isolamento.

Os cientistas também aplicaram uma metodologia de identidade por descendência, baseada em dados genômicos, para mapear conexões biológicas. A análise revelou laços entre os indivíduos de Ulitau e populações medievais do Planalto Mongol, apontando para uma continuidade genética entre as elites mongóis estabelecidas no oeste e suas origens no leste, repercute o Archaeology News.

Embora o local de sepultamento de Genghis Khan permaneça desconhecido — o que impede qualquer comparação genética direta —, os genomas analisados ajudam a restringir as possíveis linhagens dentro da família governante da Horda Dourada. O estudo oferece evidências diretas provenientes de sepulturas de alto status e contribui para refinar hipóteses anteriores sobre a disseminação do haplogrupo C3 durante a expansão do Império Mongol.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.