Banana de obra vendida por US$ 6,2 milhões desaparece de museu na França

Banana que integra a famosa obra "Comedian", de Maurizio Cattelan, desapareceu do Centre Pompidou-Metz, na França; mas já foi substituída

Registro de exposição da obra Comedian, de Maurizio Cattelan / Crédito: Getty Images

Uma banana presa à parede com fita adesiva desapareceu de uma exposição no Centre Pompidou-Metz, no leste da França, no último fim de semana. A fruta fazia parte de “Comedian”, obra do artista Maurizio Cattelan que se tornou uma das criações mais comentadas da arte contemporânea e cuja edição mais famosa foi vendida em leilão por US$ 6,2 milhões em 2024.

A peça integra a mostra “Endless Sunday”, realizada pelo museu francês e com curadoria do próprio Cattelan. Segundo a instituição, a exposição foi concebida como uma experiência em constante transformação, descrita como uma “mise-en-scène mutável” que “resiste à permanência, desdobrando-se por meio de uma série de aparições, desaparecimentos e inversões”.

O desaparecimento da banana foi percebido por um agente de segurança no sábado, 30. Assim que constatou a ausência da fruta, o museu providenciou sua substituição e registrou uma queixa junto às autoridades para investigar o ocorrido, repercute a Smithsonian Magazine.

Apesar da repercussão, o episódio não representa uma perda significativa para a instituição. A banana utilizada na instalação é substituída regularmente, em geral a cada três dias, para evitar que o amadurecimento excessivo comprometa a apresentação da obra. De acordo com o museu, o valor artístico de “Comedian” não está no fruto em si, mas no certificado de autenticidade e no conjunto de instruções que determinam como a instalação deve ser exibida.

Em comunicado, os responsáveis pelo Centre Pompidou-Metz afirmaram: “A instituição condena veementemente este ato, que mina o respeito devido às obras expostas e priva temporariamente os visitantes de parte da experiência oferecida pela exposição”.

Outros episódios

A história da obra de Cattelan é marcada por episódios semelhantes. Desde sua estreia pública, a banana já foi retirada, consumida ou danificada em diferentes ocasiões, sem que isso comprometesse a continuidade da instalação.

Quando uma versão de “Comedian” foi apresentada na feira Art Basel Miami Beach, em 2019, o artista David Datuna retirou a banana da parede e a comeu diante do público, classificando a ação como uma performance artística. Na época, ele declarou: “O que percebemos como materialismo nada mais é do que condicionamento social”. Também afirmou: “Qualquer interação significativa com um objeto pode transformá-lo em arte. Sou um artista ávido, e estou ávido por novas interações.”

Anos depois, em uma exposição realizada no Museu de Arte Leeum, em Seul, um estudante universitário repetiu o gesto. Após retirar a fruta da parede e comê-la, justificou a atitude dizendo que estava com fome.

Mais tarde, ao refletir sobre o episódio, escreveu: “Acho que a exibiram para que alguém acabasse por comê-la”. O estudante também recordou a reação de um de seus professores: “Mais tarde, um dos meus tutores perguntou-me se a banana estava deliciosa, e eu disse-lhe que estava fresca, mais fresca do que pensava. Comi-a como normalmente como uma banana. Ninguém tentou impedir-me.”

Outro caso amplamente divulgado ocorreu em 2024, quando o empresário do setor de criptomoedas Justin Sun adquiriu uma edição da obra por US$ 6,2 milhões. Pouco tempo depois, ele publicou um vídeo em que consumia a banana. Na legenda, escreveu: “Muitos amigos me perguntaram sobre o sabor da banana”. Em seguida, acrescentou: “Para ser honesto, para uma banana com tanta história, o sabor é naturalmente diferente de uma banana comum. Consegui perceber um toque do que as bananas do Big Mike de 100 anos atrás poderiam ter sido.”

O episódio ocorrido agora na França não foi o primeiro envolvendo a obra no Centre Pompidou-Metz. Em julho do ano passado, outra banana utilizada na instalação também foi comida por um visitante. Na ocasião, a fruta foi substituída pouco depois, permitindo que a exposição continuasse normalmente.

Embora o nome da obra remeta ao humor, Maurizio Cattelan já afirmou que a proposta de “Comedian” vai além da provocação. O artista reagiu com tranquilidade às diversas intervenções realizadas por visitantes ao longo dos anos e chegou a brincar dizendo que gostaria que as pessoas também consumissem a fita adesiva e a casca da banana.

Para ele, no entanto, o trabalho carrega uma reflexão mais profunda sobre valor e mercado artístico. Em entrevista concedida em 2021, Cattelan afirmou: “Para mim, Comedian não era uma piada; era um comentário sincero e uma reflexão sobre o que valorizamos”.

O artista também explicou sua visão sobre a obra dentro do circuito comercial da arte: “Em feiras de arte, a velocidade e os negócios reinam, então eu vi da seguinte forma: se eu tivesse que estar em uma feira, eu poderia vender uma banana como outros vendem suas pinturas. Eu poderia jogar dentro do sistema, mas com as minhas regras.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.