A embarcação mongol afundada por ‘vento divino’ há 745 anos
Artefatos pertencentes a navio de guerra mongol foram encontrados próximos à Ilha Takashima, na prefeitura de Nagasaki, séculos após terem sido submersos por tufão

Artefatos pertencentes a um navio de guerra mongol recém-identificado vieram à tona recentemente, cerca de 750 anos depois de terem sido submersos por um tufão. Entre os itens estão uma espada curta ainda guardada na bainha, flechas agrupadas e até mesmo um par de hashis de metal decorados. O naufrágio se destaca por ser o terceiro do tipo encontrado na Baía de Imari, perto da Ilha Takashima, na prefeitura de Nagasaki e pelo fato das descobertas oferecem algumas das evidências físicas mais diretas da grande ofensiva naval liderada por Kublai Khan contra o Japão em 1281.
Conhecida na historiografia japonesa como Guerra do Koan, a invasão em questão foi de proporções impressionantes. O império mongol mobilizou, na época, cerca de 140 mil soldados distribuídos em aproximadamente 4.400 embarcações, organizadas em duas grandes frotas: o Exército de Jiangnan, que partiu do sul da China, e o Exército Oriental, partindo da Península Coreana. O plano previa a união das forças na Ilha Iki antes do avanço rumo ao porto de Hakata.
No entanto, atrasos na partida de uma das frotas comprometeram a estratégia. Quando os navios finalmente se concentraram na região de Takashima, um tufão devastador (que ficaria conhecido como “kamikaze”, ou “vento divino”) atingiu a área e destruiu grande parte da frota. De acordo com o registro histórico História de Yuan, os comandantes abandonaram seus homens e fugiram nos navios ainda operacionais. Os sobreviventes que chegaram à costa foram derrotados pelas forças do Xogunato Kamakura.
Descobertas foram detalhadas
Como destaca o site Popular Mechanics, as descobertas mais recentes foram detalhadas em um estudo publicado na revista Yearbook Japan, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa de Propriedades Culturais de Nara e da Universidade Kokugakuin.
Utilizando tecnologia de varredura acústica, a equipe localizou o chamado “Navio nº 3” em 2023, a cerca de 50 metros de outro naufrágio identificado em 2014. Os três navios encontrados até agora estão soterrados a cerca de 20 metros de profundidade e cobertos por séculos de sedimentos.
A escavação mais recente trouxe informações importantes. Análises de radiocarbono indicam que a madeira do navio — incluindo pinho, cânfora e cipreste hinoki — foi cortada por volta de 1253, décadas antes do naufrágio.
O estudo da estrutura sugere que a embarcação foi construída na província de Zhejiang, no sul da China, enquanto as cerâmicas encontradas a bordo remetem à produção da vizinha Jiangsu. Esses dados reforçam a hipótese de que o navio integrava o Exército de Jiangnan, formado por forças do antigo reino Song do Sul incorporadas ao domínio mongol.
Retrato da vida militar
Os especialistas destacam que o conjunto de objetos recuperados dos três naufrágios revela um retrato detalhado da vida militar medieval, estando presentes capacetes de ferro, aljavas com flechas, projéteis de pedra — incluindo os chamados zhentianlei, que eram carregados com pólvora —, além de âncoras, estátuas budistas de bronze, espelhos e utensílios cotidianos.
Vale mencionar, porém, que um dos aspectos mais promissores da descoberta está no material ainda em análise. Durante a escavação, pesquisadores coletaram sedimentos preservados junto ao casco do navio, que continham matéria orgânica surpreendentemente intacta: ossos de peixe consumidos pela tripulação, fragmentos de couro, partes de ferramentas de madeira, hashis e resíduos de revestimentos em laca, que podem oferecer novas informações sobre o cotidiano a bordo da embarcação.
Os artefatos recuperados estão atualmente distribuídos entre instituições como o Centro de Propriedades Culturais Enterradas da Cidade de Matsuura, o Museu de História e Cultura de Nagasaki e o Museu Nacional de Kyushu, que se tornaram referências no estudo das invasões mongóis.
Ainda assim, diante de uma frota original com milhares de embarcações, os três navios identificados até agora representam apenas uma fração do que pode estar escondido sob o fundo da Baía de Imari, o que sugere que muitas outras histórias ainda aguardam para ser reveladas.