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Múmia de Otzi, o Homem de Gelo, está coberta por fermento antigo, revela pesquisa

Novo estudo revelou que a pele e o estômago de Otzi, o Homem de Gelo, estão repletos de leveduras que vêm colonizando os restos mortais desde sua morte

Múmia e reconstrução facial de Ötzi, o "Homem de Gelo" / Crédito: Divulgação/Discover Magazine / Divulgação/South Tyrol Museum of Archaeology/Ochsenreiter Previous

Um novo estudo publicado nesta quarta-feira, 3, na revista Microbiome revelou que a pele e o estômago de Ötzi, a famosa múmia conhecida como Homem do Gelo, estão repletos de leveduras que passaram a colonizar seus restos mortais logo após sua morte, ocorrida há cerca de 5.300 anos. Mais surpreendente ainda: algumas dessas leveduras podem continuar ativas até hoje.

Segundo os pesquisadores, as cepas identificadas são adaptadas a ambientes extremamente frios e têm origem nas geleiras dos Alpes, região onde Ötzi viveu. Isso significa que os microrganismos continuaram presentes e se desenvolvendo mesmo após a descoberta da múmia, em 1991, e seu armazenamento em uma câmara refrigerada a -6 °C.

Os cientistas afirmam que algumas dessas leveduras apresentam potencial para aplicações na indústria da fermentação. Em testes preliminares, elas foram utilizadas na produção de massa para pão e demonstraram resultados promissores.

“Funcionou”, disse Mohamed Sarhan, microbiologista do Instituto Eurac de Pesquisa sobre Múmias, na Itália, e principal autor do estudo, em entrevista ao portal Live Science. Segundo ele, no futuro essas cepas poderão ser cultivadas para a produção de pão, cerveja e outros alimentos fermentados.

Além das leveduras antigas, os pesquisadores identificaram microrganismos modernos que provavelmente foram introduzidos inadvertidamente durante décadas de trabalhos de conservação da múmia. Ainda não se sabe se esses organismos representam algum risco para a preservação dos restos mortais, questão que deverá ser investigada em estudos futuros.

Descoberta de Ötzi

Ötzi foi encontrado por um grupo de alemães que caminhava pelos Alpes de Ötztal, na Itália, em setembro de 1991. Com cerca de 1,60 metro de altura, ele teria morrido na faixa dos 40 anos, provavelmente vítima de um assassinato. Análises anteriores revelaram que suas últimas refeições incluíram carne de íbex, cervo-vermelho e trigo.

Desde sua descoberta, a múmia tem sido objeto de inúmeras pesquisas. Cientistas já haviam estudado parte de seu microbioma oral e intestinal, identificando microrganismos semelhantes aos encontrados atualmente em populações tradicionais, como os caçadores-coletores Hadza, da Tanzânia, e comunidades que vivem em florestas tropicais de Madagascar. No entanto, até agora, nenhum trabalho havia investigado quais microrganismos permaneciam vivos ou capazes de crescer nas condições atuais de armazenamento.

Para responder a essa questão, Sarhan e sua equipe coletaram, em 2019, amostras da superfície e do interior da múmia, além de material do solo onde ela foi encontrada e do ambiente em que é armazenada. A análise genética permitiu mapear a diversidade de microrganismos presentes.

O que revelaram

Os resultados mostraram que o microbioma intestinal de Ötzi difere significativamente daquele encontrado em sua pele. Enquanto o primeiro preserva características mais antigas, a composição microbiana da superfície corporal foi fortemente influenciada pelos métodos modernos de conservação empregados ao longo das últimas décadas.

A maior surpresa veio quando os pesquisadores conseguiram cultivar quatro espécies de leveduras adaptadas ao frio a partir de amostras retiradas da pele da múmia e da água proveniente de seu descongelamento. Os danos observados no DNA desses organismos indicam que eles podem ter permanecido dormentes por milênios ou serem descendentes diretos das leveduras que colonizaram o corpo logo após a morte de Ötzi.

Ao comparar amostras coletadas em 2010 e 2019, a equipe constatou que uma cepa do gênero Glaciozyma, conhecida por prosperar em ambientes gelados, tornou-se dominante ao longo dos anos. Isso sugere que essas leveduras de origem glacial continuaram se multiplicando lentamente dentro do ambiente de preservação da múmia.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.