Criança de El Plomo: a múmia de menino inca morto em sacrifício
A Criança de El Plomo é a múmia de um menino inca morto em sacrifício antes da chegada dos europeus na América, e revela mais do passado oculto da capital chilena

Por muito tempo, a história oficial ensinada no Chile sustentou que Pedro de Valdivia encontrou um vale praticamente vazio ao chegar à região do rio Mapocho, em 1541, para fundar Santiago. Essa narrativa, repetida em livros escolares por gerações, apresentava a capital chilena como uma criação exclusivamente espanhola erguida sobre um território sem grande ocupação urbana anterior. Contudo, pesquisas arqueológicas e historiográficas desenvolvidas nas últimas décadas alteraram profundamente essa interpretação.
As investigações revelaram que Santiago foi construída diretamente sobre um importante centro urbano do Império Inca, conhecido como Tawantinsuyu. As descobertas indicam que a presença incaica na região central do Chile era mais organizada, extensa e politicamente estruturada do que se imaginava anteriormente.
A hipótese de uma ocupação inca sob o atual centro histórico da capital começou a ganhar força nos anos 1970, a partir dos trabalhos dos pesquisadores Rubén Stehberg e Gonzalo Sotomayor. Décadas depois, em 2012, um estudo publicado no boletim do Museu Nacional de História Natural consolidou a ideia de que um polo administrativo incaico funcionava exatamente onde hoje está Santiago.
Antiga ocupação inca
Segundo as evidências apresentadas pelos arqueólogos, o assentamento fazia parte de uma ampla rede de integração territorial. Estradas conectavam o vale do Mapocho ao restante do império, enquanto a economia local se apoiava na mineração de ouro e prata e em sistemas agrícolas avançados, incluindo técnicas de hidroponia. A infraestrutura já existente, por sua vez, teria sido aproveitada estrategicamente pelos colonizadores espanhóis durante a fundação da cidade.
As descobertas arqueológicas realizadas ao longo dos anos reforçaram essa interpretação. Entre os principais vestígios encontrados estão restos humanos localizados durante obras de expansão do metrô, estruturas de pedra em estilo semelhante ao de Cusco identificadas no Pátio das Laranjeiras do Palácio de La Moneda e grandes quantidades de cerâmicas incas descobertas sob a Catedral de Santiago e na Plaza de Armas.
Além da importância urbana e política da região, os estudos também evidenciam a dimensão espiritual atribuída pelos incas à paisagem andina. Na cosmovisão do império, as montanhas mais elevadas eram consideradas apus, divindades protetoras associadas ao mundo sobrenatural. Esses cumes funcionavam como locais de comunicação entre os humanos e os deuses, recebendo cerimônias e oferendas destinadas a garantir equilíbrio, prosperidade e legitimidade política.
Entre os rituais mais importantes estava a capacocha, cerimônia realizada geralmente durante períodos de colheita em homenagem a Inti, o deus Sol. Crianças e adolescentes selecionados pelas províncias do império percorriam longas peregrinações até santuários de altitude, sendo recebidos e homenageados pelas comunidades ao longo do caminho. O sacrifício ocorria nos pontos mais altos da cordilheira, onde, segundo a crença inca, as almas passariam a atuar como protetoras de seus povos junto às divindades, segundo a Discover Magazine.
Criança de El Plomo
Um desses locais sagrados era o Cerro El Plomo, montanha de 5.425 metros de altitude visível a partir do vale de Santiago. Em 1954, arrieiros que buscavam ouro e prata encontraram, poucos metros abaixo do cume, uma sepultura construída com pedras. Dentro dela estava o corpo congelado e excepcionalmente preservado de um menino de cerca de 8 anos de idade.
A descoberta tornou-se um dos achados antropológicos mais importantes da história chilena. Durante décadas, predominou entre os pesquisadores a ideia de que a chamada Criança de El Plomo teria morrido pacificamente por hipotermia. A posição do corpo, com os braços envolvendo as pernas e a cabeça apoiada no ombro, reforçava a interpretação de que o menino teria sido sedado com chicha ou outra substância antes de adormecer no frio extremo da montanha.
Novas análises realizadas recentemente, porém, mudaram radicalmente essa compreensão. “Desfazemos a crença ou o mito de 70 anos de que essa criança morreu em paz”, afirmou Mario Castro, diretor do Museu Nacional de História Natural do Chile.

Estudos
Tomografias computadorizadas realizadas em parceria com a Clínica Alemã de Santiago identificaram lesões no osso frontal do crânio provocadas por um objeto contundente. Segundo os especialistas, o golpe foi desferido da direita para a esquerda, quando o menino estava de pé e com a cabeça inclinada para baixo. A precisão do impacto sugere um ato ritual realizado de forma deliberada e experiente.
Embora relatos coloniais escritos por padres espanhóis já mencionassem mortes violentas associadas aos rituais incas, esta é considerada a primeira evidência física desse tipo encontrada em uma múmia de capacocha.
Outros exames também contribuíram para revisar interpretações antigas. A dermatologista Verónica Catalán aplicou pela primeira vez técnicas de dermatoscopia em uma múmia andina. O método revelou que manchas escuras nas solas dos pés e a coloração azulada das unhas não eram sinais de congelamento, como se acreditava anteriormente.
As alterações foram associadas ao desgaste provocado por uma longa caminhada. Segundo os pesquisadores, o menino percorreu mais de 2 mil quilômetros ao longo de seis a nove meses, viajando do centro-sul do Peru até o Cerro El Plomo. Os sapatos encontrados com o corpo praticamente não apresentavam desgaste, indicando que haviam sido usados apenas no momento da cerimônia.
Exames isotópicos e análises do conteúdo estomacal também mostraram que a criança permaneceu por cerca de dois anos em Cusco antes da viagem ao Chile. Próximo ao momento da morte, havia ingerido grande quantidade de alimento ainda não digerido, além de folhas de coca. A presença de cocaína foi confirmada nos testes laboratoriais, sugerindo o uso ritual da substância para reduzir fadiga e auxiliar a subida em grandes altitudes.
A datação por radiocarbono indicou que o sacrifício ocorreu por volta de 1460, muito antes da chegada dos europeus à América. O resultado também ajudou a contestar uma pesquisa publicada em 2011 que sugeria que a criança sofria de triquinose, doença ligada ao consumo de carne suína — animal introduzido no continente apenas após a colonização espanhola.
As investigações mais recentes avançaram ainda para o campo genético. Uma equipe liderada por Mauricio Moraga, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade do Chile, realizou o sequenciamento completo do genoma da Criança de El Plomo. O excelente estado de preservação do DNA, favorecido pelas baixas temperaturas da montanha, permitiu análises detalhadas.
Os resultados apontaram afinidades genéticas com populações atuais do centro-sul andino e com grupos antigos do norte do Chile e do sul do Peru. Segundo Moraga, o objetivo das pesquisas é compreender se as crianças sacrificadas na capacocha eram trazidas diretamente de Cusco ou provinham das regiões periféricas próximas aos santuários.
Apesar da qualidade considerada excepcional das informações genéticas, os pesquisadores afirmam que ainda será necessário ampliar as comparações com novas amostras de DNA antigo para identificar com maior precisão a origem do menino.
Diante das mais recentes descobertas, o Museu Nacional de História Natural do Chile reforçou a necessidade de interpretar os rituais da capacocha dentro de seu contexto histórico e cultural, evitando análises baseadas em valores contemporâneos. “Não vou perder o respeito pelos povos nativos. Esta era uma tradição ancestral”, concluiu Mario Castro.