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A introdução do Hino Nacional que quase ninguém conhece

Antes do começo com “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”, o Hino Nacional chegou a ter uma letra para a introdução instrumental

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil - Reprodução

Poucas canções são tão reconhecidas pelos brasileiros quanto o Hino Nacional. Presente em eventos esportivos, cerimônias oficiais e celebrações cívicas, ele costuma ser imediatamente associado aos versos “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. No entanto, o que muita gente não sabe é que, durante um período da história, a parte instrumental que antecede esse trecho também possuía uma letra própria.

A existência dessa introdução cantada é um dos capítulos menos conhecidos da trajetória do hino brasileiro, cuja construção ocorreu ao longo de décadas e passou por diferentes versões até chegar ao formato atual.

A melodia do Hino Nacional foi composta em 1822 pelo músico Francisco Manuel da Silva, logo após a Independência do Brasil. Inicialmente, a composição era apenas instrumental e destinada a execuções por bandas militares e cerimônias públicas.

Alguns anos depois, já na década de 1830, a música recebeu uma letra escrita por Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. Os versos refletiam o contexto político da época e faziam referência ao Brasil imperial, então governado pela monarquia.

Com a Proclamação da República, em 1889, surgiu a necessidade de substituir os símbolos nacionais ligados ao período imperial. Para isso, foi realizado um concurso destinado a escolher um novo hino para o país.

A composição vencedora foi escrita por Medeiros e Albuquerque. Embora tenha sido oficialmente adotada naquele momento, a obra enfrentou forte resistência popular. A melodia acabou sendo mantida apenas como o Hino da Proclamação da República, conhecido até hoje pelos versos “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”.

Diante da rejeição ao novo hino, a melodia de Francisco Manuel da Silva continuou sendo utilizada como símbolo nacional. Faltava, porém, definir uma letra definitiva que representasse a República.

Somente em 1906 foi aberto um novo concurso para resolver a questão. Três anos depois, o poema de Joaquim Osório Duque Estrada foi escolhido para acompanhar a música. Essa é a letra que permanece em vigor até os dias atuais e que foi oficializada posteriormente pelo governo brasileiro.

Letra introdutória do hino

O que raramente aparece nos livros de história, porém, é que a introdução instrumental executada antes do início dos versos principais também recebeu uma proposta de letra. O texto é tradicionalmente atribuído ao paulista Américo de Moura e foi concebido para ser cantado durante os compassos iniciais da composição.

Os versos diziam:

“Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante
Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante
Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz
Cumpri o dever na guerra e na paz
À sombra da lei, à brisa gentil
O lábaro erguei do belo Brasil
Eia! Sus, oh, sus!”

Assim como ocorre na letra oficial do hino, o texto empregava uma linguagem rebuscada e diversas expressões pouco utilizadas no português contemporâneo.

Alguns dos termos presentes nesses versos ajudam a explicar por que a composição pode soar difícil para leitores modernos. A palavra “buril”, por exemplo, refere-se a uma ferramenta de aço com ponta cortante utilizada para gravar inscrições em superfícies metálicas ou de madeira. Na composição, a expressão sugere a ideia de registrar os feitos do povo brasileiro na história nacional.

Já o termo “anais” faz referência aos registros históricos de uma nação, enquanto “lábaro” é uma palavra tradicionalmente empregada para designar uma bandeira ou estandarte.

Outro trecho curioso é a expressão “sus”, praticamente inexistente no vocabulário cotidiano atual. Derivada do latim, a palavra transmite a ideia de elevação ou impulso para cima, funcionando como uma espécie de exortação ao entusiasmo e à ação.

Apesar de sua existência, essa introdução jamais se popularizou da mesma forma que o restante do hino. Com o passar dos anos, caiu em desuso e acabou sendo esquecida pela maioria da população. A execução oficial do Hino Nacional consolidou-se apenas com a parte instrumental seguida pelos versos de Duque Estrada.

Ainda assim, a letra permanece como uma curiosidade histórica que revela os diferentes caminhos percorridos pelos símbolos nacionais brasileiros. Ela também ajuda a ilustrar como o hino foi resultado de um longo processo de construção, marcado por mudanças políticas, concursos literários e tentativas de adaptar a canção aos diferentes momentos da história do país.

Hoje, mais de um século após sua oficialização, o Hino Nacional continua sendo uma das composições mais emblemáticas do Brasil. E embora quase ninguém se lembre da antiga introdução cantada, ela permanece como um registro curioso de uma época em que até os primeiros compassos da música tinham palavras destinadas a inspirar patriotismo e dever cívico entre os brasileiros.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.