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Quem foi José Bonifácio, uma das figuras centrais para o surgimento do Brasil?

Em 13 de junho de 1763, nascia, na então Capitânia de Santos, José Bonifácio, para alguns a figura mais importante da história do Brasil

A Fundação da Pátria Brasileira" de autoria do pintor Eduardo de Sá, feita em 1899
A Fundação da Pátria Brasileira" de autoria do pintor Eduardo de Sá, feita em 1899 - Créditos: Domínio Publico

Durante as aulas de história muito se ouve dizer que José Bonifácio é o “Patriarca da Independência” e da sua importância para esse processo. No entanto, José Bonifácio de Andrada e Silva fez muito mais pelo Brasil do que muitos imaginam.

De principal iluminista brasileiro a mestre e mentor de Dom Pedro II: conheça agora parte da trajetória intelectual e política de uma das mais importantes figuras históricas do Brasil.

Rumo à Europa

Nascido e criado nos seus primeiros anos em Santos, José Bonifácio, segundo filho da família Andrada e Silva, foi desde pequeno incentivado aos estudos, como era costume entre a aristocracia brasileira

Logo aos 14 anos, se encaminhou para São Paulo para fazer um cursinho preparatório para a Universidade de Coimbra do Dom Frei Manuel da Ressurreição, principal bispo da capitania. Assim, iniciou seus treinamentos nas aulas de gramática, retórica e filosofia.

Na época, a elite intelectual era costumeiramente chamada de “Elite Coimbrã”. Visto que no Brasil não existiam universidades, aqueles que desejavam, e podiam, iam até Portugal realizar o ensino superior.

Desse modo, José Bonifácio começou sua carreira intelectual em 1783, quando partiu do Rio de Janeiro para Portugal, matriculando-se em outubro na famosa universidade. Primeiramente começou a cursar os estudos jurídicos, mas logo no ano seguinte resolveu desenvolver suas habilidades em matemática e na filosofia natural.

Vale destacar que filosofia natural era uma forma ainda arcaica de se referir às ciências da natureza e qualquer outro estudo que se dedicasse às causas iniciais da realidade. Por exemplo, a física, a química e a biologia faziam parte desses estudos.

Apreciador de clássicos

Uma das características mais relevantes de José Bonifácio é seu apreço pelos clássicos. Em seus diários e poemas destacou leituras como Leibnitz, Newton e Descartes, Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Locke, Pope, Virgílio, Horácio e Camões.

Assim, durante seus estudos desenvolveu um forte senso crítico contra o regime escravocrata. Contudo, durante parte de seus estudos na França, época em que aprofundava a pesquisa em geologia, Bonifácio se viu horrorizado com o processo revolucionário em voga, uma vez que apoiava a monarquia em Portugal e no Brasil.

Fato é que, Andrada e Silva se viu no jogo de interesses da Coroa Portuguesa, que na época buscava especialistas em geologia, visto que na colônia começava a decadência dos rendimentos das minas. Dessa maneira, ao encerrar os estudos, retornou a Coimbra para lecionar.

Napoleão Bonaparte e 1808

A França deixada por Bonifácio havia se tornado berço de uma revolução. Em 1808, Napoleão Bonaparte, líder militar e então imperador francês, foi responsável pela transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil.

No entanto, apesar de ser brasileiro, o estudioso ficou no coração do Império Português combatendo o republicanismo e as influências francesas. Somente após a perda de força de Napoleão, em 1819, que José Bonifácio, aos 56 anos, mais de 30 anos longe da terra natal, retornou ao Brasil.

Devido à volta, onde agora era a capital da Coroa, D. João VI concedeu como mercê o título de conselheiro real a Andrada e Silva. Mas como todos sabemos, a pressão que Portugal criou sobre D. João VI obrigou que ele voltasse a Lisboa em 1821 e deixasse o filho no lugar.

A independência na mente de Bonifácio

Sob a regência do ainda príncipe Pedro de Alcântara, José Bonifácio, conselheiro real, se viu livre para começar a implementar seus planos para a nação. Embora as elites brasileiras em muito apoiassem a coroa, o processo de recolonização, apoiado pelas reconstruídas coroas europeias, fez com que muitos brasileiros se enfurecessem com Portugal e exigissem a independência.

A Fundação da Pátria Brasileira" de autoria do pintor Eduardo de Sá, feita em 1899
A Fundação da Pátria Brasileira” de autoria do pintor Eduardo de Sá, feita em 1899 – Créditos: Domínio Publico

Junto de Maria Leopoldina, esposa de Pedro de Alcântara, José Bonifácio começou a desenhar os princípios básicos de uma nova nação nos trópicos. Inclusive, Bonifácio e Leopoldina, devido ao apreço mútuo pelas ciências naturais, eram amigos próximos. 

Em suma, o grito da independência foi motivo de catarse no Brasil em 1822. Mas diferente do que muitos pensam, não foi tão fácil conquistar o reconhecimento internacional da independência. Na verdade, muito sangue foi derramado na luta contra os portugueses.

Além disso, no sistema internacional, geralmente, para se conquistar a independência, era necessário o reconhecimento da maior potência econômica da época. No caso, a Inglaterra. 

Muitos sabem da posição desigual que a Inglaterra cultivava com Portugal, exemplo é o famoso tratado de Panos e Vinhos. Com o Brasil a situação não foi muito diferente. 

A guerra perdurou com Portugal até 1825, quando houve o Tratado de Paz e Aliança, em que o Brasil foi posto para pagar 2 milhões de libras-esterlinas para Portugal, como forma de compensação.

Porém, como os cofres estavam zerados, o Império do Brasil iniciou sua história amplamente endividado com os bancos ingleses e fazendo uma série de concessões especiais aos comerciantes da potência britânica. Assim, a Inglaterra novamente afirmou sua soberania sobre o Brasil.

José Bonifácio enquanto diplomata

Mas nem sempre foi assim. Na verdade, diferente de D. Pedro I, José Bonifácio passou mais de um ano tentando negociar sua independência de maneira que custasse menos aos cofres brasileiros.

Acontece que, nos anos iniciais do Brasil, José Bonifácio foi o primeiro em quase tudo. Conforme artigo de Rubens Ricupero, ex-diplomata brasileiro, Bonifácio foi o primeiro ministro do Reino e dos Estrangeiros, presidente do conselho de ministros por delegação do Príncipe Regente, e chefiou, na prática, o governo como primeiro ministro, cargo que nem sequer existia formalmente.

Mas o que vale a pena destacar aqui é que o “Patriarca da Independência” foi o criador da diplomacia e da política exterior do Brasil, uma vez que, logo em 1822 redigiu o Manifesto aos Governos e Nações Amigas e estabeleceu os quatro Oficiais da Secretaria de Estado, semente do atual Itamarati.

Bonifácio foi o responsável por enviar Caldeira Brant para negociar o reconhecimento em Londres. Desse modo, perante a maior potência da época, Caldeira Brant foi instruído a demonstrar que os próprios interesses comerciais externos nacionais já dariam conta de promover a aceitação formal da independência, visto que, na sua visão, a independência já era fato consumado.

Ou seja, como não tinha como a Inglaterra falar que o Brasil ainda fazia parte do Reino de Portugal, seria melhor eles se aliarem ao grande mercado consumidor consolidado aqui presente. Na época o Brasil configurava como um dos principais consumidores de mercadoria inglesa.

Porém, a lógica de valorização nacional e patriótica, visando o menor gasto possível da colônia durou pouco. Devido aos conflitos que eclodiram na Bacia do Prata, D. Pedro I, em apenas 18 meses de comando de negociações de Bonifácio, o deportou em 1823.

Pedro I e o “entreguismo”

Conforme o historiador Rodrigo Goyena, com a intenção de correr com as negociações, para assim, garantir a independência com o mapa do Brasil indo até a colônia de Sacramento, D. Pedro I assumiu as negociações e passou a entregar os benefícios aos ingleses de maneira muito mais fácil.

Ao mesmo tempo, os conflitos que Bonifácio cultivou com Pedro I devido às “escapadas” que dava frequentemente com a Marquesa de Santos, e pela amizade que tinha com a Rainha Leopoldina, inflamaram ainda mais essa tomada brusca.

Não obstante, Pedro I como monarca controlador que era, culpou Bonifácio por não controlar a câmara constituinte e por terem feito uma constituição que não lhe dava poder suficiente. Popularmente a constituição outorgada por Pedro I foi chamada de Constituição da Mandioca.

Ou seja, Pedro I deportou Bonifácio por ele estar sendo uma figura central na construção do Brasil internamente e externamente. Vale destacar, porém, que esse conflito não foi uma cisão total, visto que, após a volta de Pedro de Alcântara para Portugal, o monarca recomenda que José Bonifácio volte ao Brasil para ser conselheiro e mentor de D. Pedro II.

De todo modo, a política “entreguista” de Pedro I à Inglaterra fez com que a nação nascesse endividada. Nunca saberemos se os planos de José Bonifácio construiriam um Brasil mais estável, mas o que sabemos é que uma figura tão importante para a nossa identidade não pode ser esquecida jamais.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: