Vítor Soares / Inglaterra

Quando Londres foi atingida por uma enchente de cerveja

Uma verdadeira enchente de cerveja provocou grande destruição que deixou mortos em outubro de 1814; entenda

Imagem ilustrativa de cerveja - Crédito: Getty Images

No ano de 1814, moradores de Londres vivenciaram um bizarro episódio envolvendo litros e mais litros de cerveja. A situação, ocorrida em 17 de outubro, ficou conhecida como Great Beer Flood, ou Grande Enchente de Cerveja.

Como já é de se imaginar pelo nome, o desastre foi provocado pelo rompimento de enormes reservatórios de cerveja em uma fábrica da capital inglesa chamada Horse Shoe Brewery. A cervejaria, que ficava na Tottenham Court Road, pertencia à empresa Meux and Company e abrigava alguns dos maiores tanques de fermentação da época. Um deles, instalado em 1810, tinha cerca de 6,7 metros de altura e era mantido por enormes anéis de ferro. O reservatório armazenava mais de 500 mil litros de porter, uma cerveja escura muito popular na Inglaterra do século 19.

Para a surpresa de todos, na tarde daquela segunda-feira, um dos anéis metálicos que sustentavam o tanque se rompeu. Resultado disso foi que, aproximadamente uma hora depois, toda a estrutura acabou cedendo. A força da explosão foi tamanha que destruiu uma parede da cervejaria e provocou o rompimento de outros reservatórios próximos. Foi assim que cerca de 1,4 milhão de litros de cerveja escaparam dos depósitos e avançaram pelas ruas do bairro de St. Giles.

Região atingida

Segundo o portal Historic UK, a enxurrada atingiu uma das regiões mais pobres e densamente povoadas de Londres. Conhecido como St. Giles Rookery, o bairro era formado por cortiços e moradias precárias habitadas por trabalhadores pobres, imigrantes irlandeses e pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Testemunhas relataram que a onda de cerveja, misturada a destroços de madeira e alvenaria, chegou a atingir mais de quatro metros de altura em alguns pontos.

Tudo aconteceu em questão de minutos. O fluxo devastador inundou porões, derrubou paredes e destruiu diversas casas. Em uma residência, Mary Banfield e sua filha Hannah estavam tomando chá quando foram surpreendidas pela enchente e morreram. Em outra casa, ocorria o velório de um menino de dois anos. Quatro pessoas que participavam da cerimônia também perderam a vida quando o imóvel desabou. Outra vítima foi Eleanor Cooper, uma jovem funcionária do pub Tavistock Arms, atingida pelos destroços. Ao todo, pelo menos oito pessoas morreram.

Imagem ilustrativa de copos de cerveja – Crédito: Getty Images

Relatos da época afirmam que centenas de moradores correram para recolher a cerveja em baldes, panelas ou qualquer recipiente que estivesse disponível. Há até registros de que uma pessoa teria morrido dias depois devido à intoxicação alcoólica provocada pelo consumo excessivo da bebida espalhada pelas ruas.

Acidente inevitável

Apesar da dimensão da catástrofe, a Horse Shoe Brewery não sofreu punições legais. As autoridades concluíram que o rompimento dos tonéis havia sido um acidente inevitável, classificando o episódio como um “ato de Deus”. Dessa forma, a cervejaria foi isentada de responsabilidade judicial.

O prejuízo financeiro foi enorme e chegou a cerca de 23 mil libras, o que equivaleria a mais de um milhão de libras atualmente. A empresa, porém, conseguiu recuperar parte das perdas por meio de reembolsos fiscais e compensações governamentais, evitando assim a falência.

A Grande Enchente de Cerveja teve ainda um impacto duradouro na indústria cervejeira britânica, uma vez que, após o desastre, os enormes tanques de madeira começaram gradualmente a ser substituídos por estruturas mais seguras, feitas de concreto e outros materiais resistentes. A própria Horse Shoe Brewery acabaria sendo demolida em 1922.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.