Quando um cientista russo tentou criar um híbrido de macaco e humano
Em meados da década de 1920, o governo russo financiou um polêmico experimento: a ideia era criar um híbrido entre ser humano e macaco

O ano era 1926. Àquela altura, menos de uma década após a Revolução Russa, o governo bolchevique travava uma campanha para erradicar a religião, vista como uma ameaça ao poder do Estado. Foi nesse cenário que o zoólogo russo Ilia Ivanov, renomado especialista em inseminação artificial, apresentou um projeto ousado: criar um híbrido entre ser humano e macaco.
Descrito pela jornalista Stephanie Pain, da revista New Scientist, como um homem determinado a produzir uma criatura “metade homem, metade macaco”, Ivanov levou sua proposta à Academia Russa de Ciências alegando que o experimento poderia comprovar a teoria da evolução de Charles Darwin e, ao mesmo tempo, desferir um golpe contra a religião. Com apoio e financiamento do governo soviético, ele partiu para o continente africano em busca de chimpanzés e orangotangos que pudessem ser utilizados nos testes. Seu objetivo, destaca o portal Smithsonian, era inseminar artificialmente uma mulher com material genético de um desses primatas.
Segundo o historiador Alexander Etkind, caso o cientista conseguisse produzir descendentes viáveis entre humanos e macacos, isso serviria como uma evidência da proximidade evolutiva entre as duas espécies.
Buscando voluntários
A princípio, Ivanov queria forçar o procedimento em uma mulher, mas acabou tendo de procurar voluntários. Os cientistas russos desaprovaram os planos do zoólogo. Contudo, a política partidária persistiu.
Usando seu domínio das técnicas de inseminação artificial, ele produziu, de acordo com Pain, “um zeedonk (híbrido zebra-burro), um zubron (cruzamento europeu de bisão com vaca) e várias combinações de ratos, camundongos, porquinhos-da-índia e coelhos. Em 1910, ele disse a um grupo de zoólogos que talvez fosse possível criar híbridos entre humanos e seus parentes mais próximos.”
Embora a questão religiosa tenha sido o argumento usado por Ivanov, Pain sugere que a verdadeira razão que teria motivado seus atos teria sido outra.
Um possível motivo
O possível motivo, segundo a fonte, é que a pesquisa de Ivanov fazia parte de um plano para transformar a sociedade. Nesse sentido, os bolcheviques de alto escalão que o apoiaram em seu experimento eram intelectuais que viam a ciência como um meio de realizar seu sonho de uma utopia socialista.
“Políticos poderiam mudar o sistema político, nacionalizar indústrias e transformar fazendas em vastos coletivos – mas a tarefa de transformar pessoas era confiada aos cientistas”, diz Etkind. Segundo ele, o “objetivo era alinhar as pessoas ao desenho socialista da sociedade soviética.”
“Uma forma de fazer isso era por meio da ‘eugenia positiva’, usando IA para acelerar a disseminação de traços desejáveis – a disposição de viver e trabalhar em comunidade, por exemplo – e eliminar traços “primitivos” como competitividade, ganância e desejo de possuir propriedade. Houve muitos projetos voltados para mudar a humanidade”, diz Etkind. “O de Ivanov foi o mais extremo, mas se ele tivesse sucesso, isso mostraria que os humanos poderiam ser transformados de maneiras radicais e criativas.”
No fim nenhum dos experimentos de Ivanov funcionou — e ele acabou exilado no Cazaquistão em meados da década seguinte.