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A história de Inessa Armand: revolucionária, feminista e amante de Lênin

Trajetória de Inessa Armand, apagada dos registros oficiais, é resgatada em novo livro; autora conversou com o Aventuras na História

Inessa Armand - Crédito: Domínio público

Apesar de apagada dos registros oficiais do regime soviético, Inessa Armand foi uma figura de destaque em sua época. Militante engajada, dirigente influente e pensadora crítica, a mulher que ficaria conhecida por seu relacionamento com Lênin, acabou injustamente silenciada. Agora, porém, sua história ressurge com força em “Revolucionária, Feminista e Amante de Lênin“, livro em que a jornalista e escritora italiana Ritanna Armeni reconstrói, com rigor histórico, a vida de uma mulher que esteve no centro dos acontecimentos, mas foi empurrada para as margens da memória.

A obra revela uma protagonista complexa: Inessa Armand construiu sua atuação política sem abrir mão das próprias convicções sobre emancipação feminina e liberdade individual. Ao trazer sua história à tona, Armeni recoloca Inessa no lugar que lhe foi negado, o de agente central na construção de um dos capítulos mais decisivos do século 20.

Como destacou Ritanna Armeni em entrevista ao AH, essa condenação de Inessa ao silenciamento não foi um evento único. Na verdade, ela teve um destino comum ao de muitas mulheres e própria autora conta que só tomou conhecimento de sua existência por acaso e que ficou imediatamente fascinada.

Uma trajetória singular

Segundo Armeni, diversos são os aspectos que tornam a trajetória de Armand singular, em especial sua insistência em colocar a “questão feminina” no centro do debate, mesmo em um momento em que muitos a consideravam secundária diante das urgências revolucionárias.

Inessa nunca separou a luta pela transformação da condição das mulheres da luta por mudanças nos sistemas econômico e social. Da mesma forma, não dissociou sua vida pessoal de seu engajamento político. Toda a sua trajetória foi significativa: como mulher, como feminista e como bolchevique. Inessa foi tudo isso. E, ao observar sua vida, percebe-se que foi ainda mais”, destacou a autora.

Inessa Armand em 1895; à direita, registro do funeral da revolucionária – Crédito: Domínio público

Atuação dentro do movimento

A jornalista também lembra a maneira fundamental como Inessa Armand atuou dentro do movimento:

Sua relação com Lenin durante o exílio foi fundamental, antes da revolução, quando se formava o núcleo bolchevique e se estabeleciam vínculos com partidos socialistas e social-democratas europeus. Inessa falava quatro idiomas e conseguia participar das principais reuniões. Seu papel, nesse período, foi de grande destaque.”

A autora ressalta ainda que, após a revolução, a posição de Inessa se transformou, sobretudo com a consolidação da liderança bolchevique e o acirramento das disputas internas por poder. Embora tenha permanecido uma dirigente de peso, ela passou a ocupar um papel mais marginal nos círculos centrais de decisão. Ainda assim, nos primeiros anos do novo regime, estreitou sua relação de confiança com Lenin e assumiu a direção da comissão feminina do partido, um órgão de grande relevância na Rússia soviética, com poder de decisão e até atribuições legislativas.

Armeni também destacou:

Inessa não foi uma militante submissa: ela se mostrou crítica a algumas escolhas dos bolcheviques, especialmente na área da política econômica.

Influência

A atuação de Inessa Armand influenciou o debate sobre temas como a moral socialista e o papel das mulheres no projeto revolucionário.

Ela [Inessa], que viveu de forma bastante livre, defendeu com coerência o “amor livre” como princípio fundamental de uma nova sociedade e de uma nova forma de relação entre os sexos. Essa posição não era compartilhada por Lenin, e esse foi um ponto constante de divergência entre eles. A moral afetiva e matrimonial dos bolcheviques era, em grande parte, tradicional. Muitos consideravam esse tema secundário diante da revolução. Inessa chegou a escrever um livro sobre o amor livre, que Lenin não apreciou, o que gerou um afastamento prolongado entre os dois.

Ilustração de Inês Armand e Lenin
Ilustração de Inessa Armand e Lenin – Crédito: Domínio Público

Aspectos surpreendentes

A autora destaca ainda que os aspectos emocionais foram o que mais a surpreendeu ao pesquisar tanto sobre a trajetória de Inessa quanto de Lenin e a esposa dele, Nadia Krupskaia. Afinal, embora seja relativamente simples encontrar registros históricos sobre suas ações e posições políticas, compreender os sentimentos que orientaram essas trajetórias é muito mais desafiador.

É fácil encontrar, nos livros de história, relatos sobre suas ações e posições políticas, mas é bem mais difícil investigar os sentimentos que motivaram essas ações. Surpreendeu-me perceber o quanto esses sentimentos foram importantes e influenciaram suas vidas. Provavelmente eu nunca teria descoberto isso se não tivesse pesquisado Inessa, uma mulher que, apesar de ter dedicado sua vida à revolução, nunca negou a importância do amor.

O processo de reconstruir essa história não foi, no entanto, isento de dificuldades. No caminho, a autora se deparou com escassez de fontes, preconceitos e a predominância de vozes masculinas: as mesmas frequentemente encontradas ao reconstruir a vida de uma mulher.

No caso de Inessa, havia ainda um obstáculo adicional: até hoje, parte da sociedade russa acredita que “essa história de amor não deve ser conhecida”. Portanto, se Inessa aparece nos livros de história, ela nunca surge como a mulher amada por Lênin.

Seguir o fio dos sentimentos em meio à narrativa oficial da revolução bolchevique foi um desafio — mas acredito ter conseguido.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.