Gaúcho da Copa: O legado do torcedor-símbolo da Seleção Brasileira
Filho de Clóvis Acosta Fernandes relembra trajetória do pai como torcedor memorável da Seleção: ‘Não virou personagem, só levou quem ele era pro mundo’

Até os 32 anos de idade, o gaúcho Clóvis Acosta Fernandes, natural de Cruz Alta, havia concentrado suas atividades como empresário, angariando sucesso local a ponto de poder realizar um sonho antigo: assistir uma Copa do Mundo pessoalmente. Em 1990, a oportunidade surgiu em uma viagem para a Itália, acompanhando seu primeiro de sete mundiais. Voltou para casa mais cedo, com o Brasil eliminado pela Argentina ainda nas oitavas de final, mas não desanimou. Nas seis Copas seguintes, transformou-se no Gaúcho da Copa, um amuleto nas arquibancadas, presenciando momentos históricos, como as três finais seguidas entre 1994 e 2002. Não à toa, a paixão era impressa na vestimenta e no popular Brazucamóvel, que acumulou 250 mil quilômetros rodados durante as excursões.
A van era customizada com decalques temáticos — como o chapéu do condutor, tomado de pins com ilustrações de cada país que visitava. Até 2015, o veículo estacionou em estádios por 150 partidas em cerca de 60 países, certos momentos servindo até mesmo como “embaixada improvisada”, como na Copa do Mundo de 2006. Na ocasião, o governo do Estado do Rio Grande do Sul selecionou Clóvis para difundir a cultura local pela Alemanha. Fez sua última excursão na Copa América de 2015, semanas antes de falecer em decorrência de um câncer, descoberto 9 anos antes. Curiosamente, o Gaúcho mais quimérico das arquibancadas mundiais falecia em 16 de setembro de 2015, justamente no meio da Semana Farroupilha, que celebra a histórica revolução local.
Legado do Gaúcho
A perda do mais popular torcedor brasileiro motivou a família a prosseguir com o legado nas Copas seguintes, como conta o filho Frank Fernandes em entrevista exclusiva ao Aventuras na História. Ele relembrou momentos da infância indo ao estádio com o pai, que recrutava crianças do bairro na caçamba de uma caminhonete Chevrolet A20, aproveitando da gratuidade nos ingressos para menores de 12 anos para assistir os jogos do Grêmio — que era especialmente fanático.
Cobiçado pelas câmeras de TV, passou a ser figurinha repetida nas transmissões, atendendo fãs pelo mundo, mas rejeitando a fama: “Quando alguém dizia que ele era famoso, ele cortava na hora: ‘Famoso não, conhecido. Sabe a diferença? Famoso tem dinheiro!”. Leia abaixo a entrevista na íntegra com Frank Fernandes!
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Qual a relação da sua família com o futebol? Como surgiu a paixão do seu pai?
Lá em casa futebol sempre foi desculpa pra gente estar junto.
Eu lembro muito pequeno, indo com meu pai e meus irmãos ver o Grêmio no Olímpico Monumental. A gente tinha uma A20 cabine dupla da Chevrolet e, naquela época, ainda era comum ir na caçamba. Criança até 12 anos não pagava, então o velho pai recrutava a criançada do bairro e levava todo mundo pro estádio. Muita gente virou gremista ali. Até hoje encontramos pessoas que chegam e lembram desses momentos.
A paixão dele vinha de muito antes. Ele contava que escutou a Copa de 1970 no rádio, no interior do Rio Grande do Sul, ao lado do pai dele, meu vô Olmiro, que comemorava os gols dando tiro de espingarda. Aquilo marcou ele pra vida inteira.
Mas o que pouca gente sabe é que o Gaúcho da Copa nasceu depois de um momento difícil. Meu pai sempre foi muito trabalhador, de origem humilde. Comprou a casa dos pais, ajudou toda a família e chegou a ter três restaurantes ao mesmo tempo em Porto Alegre. Não tirava férias. Até que a máquina parou.
Na época, ninguém falava de estresse, burnout ou síndrome do pânico. Ele foi internado e precisou gastar boa parte do que tinha pra se recuperar.
Depois disso, já melhor, ele viu na televisão uma chamada pra Copa de 1990. Olhou pra Dona Débora, que ele chamava de morena, e disse: “Vou pra Copa do Mundo.”
Ela respondeu: “Tu até pode ir… mas tem que me dar um piano.”
O piano chegou na sala. Dez dias depois, ele estava desembarcando no aeroporto de Malpensa, em Milão.
Foi ali que começou tudo.
Como acompanhar a Seleção se tornou uma tradição?
“Ir para as Copas do Mundo foi uma maneira que eu encontrei de envelhecer sem sentir.” Ele costumava dizer isso, e acho que essa frase explica muita coisa.
As primeiras Copas tinham algo que hoje é difícil até de explicar. Os estádios eram muito mais bonitos do que a gente via aqui, e as torcidas ficavam todas juntas, sem divisão. Imagina isso em 1990. Era o maior espetáculo da vida.
Ali ele fez grandes amigos. E aquele amor pela Seleção Brasileira, que já vinha lá de trás, da memória forte do Tri, ganhou ainda mais força. Quando voltou da Itália, já não tinha mais volta.
Ele chegou em casa, olhou pra mim e disse: “Faz inglês. Na próxima tu vai ser meu intérprete. E inglês… se tiver uma fila de emprego com dez pessoas na tua frente, pode ter certeza que nove tu vai eliminar.”
Eu lembro de ir com a minha mãe, com os cheques na mão, me matricular no Yazigi. Naquele momento eu não tinha dimensão, mas ali já estava começando a minha caminhada também. E foi assim. Ele foi puxando a estrada, e a gente foi entrando naturalmente.
O Gu foi pai muito novo e acabou ficando de fora de algumas Copas. Mas como esse tempo que ele dizia ajudar a envelhecer sem sentir era longo, a gente também começou a ir para outras competições. Vieram Copas Américas, Olimpíadas… e quando viu, já eram dez Copas do Mundo e a gente se preparando pra décima primeira participação, somando oito Copas Américas, cinco Olimpíadas e mais de 160 jogos acompanhando a Seleção de perto.
Não à toa, a FIFA reconheceu ele como o décimo segundo jogador da Seleção Brasileira. Hoje eu estou com oito Copas, indo pra minha nona em 2026. Já são duas a mais que o velho pai. Na Rússia, eu empatei com ele. A verdade é que a gente nunca pensou em parar. Só foi continuando.
Como o futebol estreitou os laços entre vocês?
A Copa do Mundo é o maior espetáculo da Terra. E nunca foi fácil estar lá. Como a gente diz no Sul, sempre foi contando os pilas. No começo era no limite mesmo. Eu já vendi carro pra ir, já vendi até meu quarto.
A gente trabalhava nos restaurantes da família, e ali já era uma grande escola. Foi onde muita coisa começou a se formar. Mas foi na estrada, seguindo a Seleção, que esses laços se fortaleceram de verdade. Porque ali tu vive tudo de verdade.
Pra ter uma ideia, o Brazucamóvel, como a gente chama nossos carros que acompanham a Amarelinha, já soma mais de 250 mil quilômetros rodados nesse apoio incondicional. E nisso tudo acontece de tudo.
É perrengue, é dormir no carro, em praça, é dividir espaço, é se virar. Mas também é fazer amigos pra vida inteira. É união de verdade.

Em 2008, reuni alguns amigos pra ir pra Eurocopa, na Suíça e Áustria. A gente adesivou o Brazuca e foi “divulgar” a Copa de 2014. Foram 23 dias na Europa, e em 21 deles ficamos hospedados na casa de amigos dessas jornadas. A gente chama eles de anjos.
Pra ver como vai além do futebol. Os laços se estendem. Atravessam fronteira, tempo, tudo. E eu sempre digo: faz com amor que reverbera infinitamente, desconhecendo tempo, espaço e dimensão.
Seu pai esteve em sete Copas. Qual memória mais marcante?
É difícil escolher uma só. Porque não é uma lembrança isolada. Vai tudo se misturando com o tempo. Mas o que mais me marca nem é um jogo específico. É a forma como ele era recebido. Ele se doava muito. Fazia tudo com tanto amor que isso aparecia. E isso abria porta mesmo.
A gente chegava em qualquer lugar do mundo e sempre tinha alguém que vinha falar, pedir uma foto, trocar uma ideia. E não era sobre ser conhecido. Era identificação. As pessoas se viam nele. Se viam ali na arquibancada.
E eu lembro muito de uma frase dele. Quando alguém dizia que ele era famoso, ele cortava na hora: “Famoso não… conhecido. Tu sabe a diferença? Famoso tem dinheiro”. E dava risada. Aquilo era muito ele. Claro que teve momentos enormes. Finais, jogos históricos… tudo isso vivido de perto.
Mas, pra mim, o mais forte sempre foi olhar em volta e ver o que ele causava nas pessoas. Era um carinho muito verdadeiro. E isso não tinha língua, não tinha país… acontecia em qualquer lugar. Ele não estava ali só por ele. Ele estava ali por todo mundo que queria estar. E isso fica.
Depois do 7×1 veio uma cena que rodou o mundo. Ele agarrado na taça, aquilo virou um símbolo. As buscas por “Gaúcho da Copa” explodiram. Mas o que mais marcou foi o gesto.
Ele pegou a taça, chamou uma alemã e colocou na mão dela. A taça tem o mesmo tamanho e peso da original. E falou pra ela: “Olha o peso dessa responsabilidade que vocês vão levar até a final”. Aquilo disse tudo.
Depois disso, ele foi convidado pra assistir a final no camarote da Bitburger, conheceu gente do mundo inteiro, tirou foto com família de jogador… E não parou ali.
Foi chamado pra Alemanha, pra participar do programa do Markus Lanz, um dos mais importantes do país. Sentou naquele sofá laranja junto com nomes como Mario Götze, Boateng, Dante… e também a menina que tinha recebido a taça. Foi lindo demais.
E lá no começo da jornada também já dizia muito. Foram quatro Copas, três finais e dois títulos vividos de perto. Mas no fim… não é isso que fica. O que fica é o que ele despertava nas pessoas.
Quem era o Gaúcho da Copa fora do personagem?
Ele era muito simples. Dentro de casa, era o pai. Presente do jeito dele. Não era de falar muito, mas estava sempre ali. A gente sabia. Era um exemplo de trabalho, persistência, determinação e amor à família. A família era tudo pra ele. Veio de baixo, construiu tudo com muito esforço, sempre carregando esse senso de responsabilidade.
Mas também tinha o lado leve. Brincalhão, gostava de estar com as pessoas, de reunir todo mundo. O Gaúcho da Copa não começava no estádio. Aquilo ali era só uma extensão do que ele já era. O jeito de tratar as pessoas, o respeito, a forma de se entregar… era igual. Nunca teve diferença. Ele não virou um personagem. Ele só levou quem ele era pro mundo.
Qual a maior lição que ele deixou?
Ele ensinou mais pelo que fez do que pelo que falou. Mostrou que, quando tu acredita de verdade em alguma coisa, tu vai. Mesmo sem garantia, mesmo sem saber como. Nunca foi fácil pra ele. Nunca foi simples estar nas Copas. Mas ele sempre dava um jeito. E dava com alegria. Pra mim, a maior lição é essa. Faz com verdade. Se entrega. Vai até o fim. E cuida das pessoas no caminho. Porque é isso que fica. E uma frase que ficou com a gente, e hoje é nosso lema, resume tudo: “Nada acontece sem um sonho”.
Como era o carinho das pessoas com ele?
Era muito verdadeiro. Era quase uma magia… até difícil de explicar. Não era aquele carinho distante. Era próximo. As pessoas chegavam como se já conhecessem ele há anos. Queriam conversar, contar uma história, dividir um momento. E vinha gente de todo lugar.
Na Rússia, já sem ele, depois daquela foto que viralizou na Praça Vermelha, a gente segurando a taça com o chapéu por cima… começou a acontecer uma coisa muito forte. As pessoas vinham falar com a gente e diziam: “You are the sons!”. Aquilo marcou. A gente começou a perguntar de onde elas vinham. E aí vinha de tudo. Brunei, Cazaquistão, Jordânia… Foi algo que atravessou o óbvio. A lógica.
Ele tinha um jeito que aproximava. Era simples, olhava no olho, escutava. Dava atenção de verdade. E isso ficava nas pessoas. E até hoje isso continua com a gente. A galera chega e diz pra nós não parar. Pra seguir levando o legado. E é isso que a gente faz.
Como foi viver o 7×1?
Foi pesado. A gente estava lá, e quando tu está dentro, é diferente de assistir de fora. Mas ele não saiu. Não arredou. Ficou até o fim. E isso, pra mim, diz muito. Aquele choro dele, agarrado na taça, diz muito além do que se vê. Ele já vinha enfrentando uma batalha contra o câncer há nove anos. E, de alguma forma, ele sabia. Sabia que aquela seria a última Copa dele. Tinha isso naquele choro. Não era só o jogo. Era tudo. E realmente foi a última Copa do Mundo. Mas ainda teve mais um momento muito especial.

Em 2015, ele conseguiu estar presente na Copa América do Chile. Essa história é linda. A gente até contou ela no nosso feed como “A Última Valsa do Gaúcho”. Pra nós, aquilo ali fechou um ciclo do jeito dele. Com presença.
Como vocês mantêm o legado? Vão para a próxima Copa?
Eu costumo dizer que é uma missão galáctica. Não tem como parar. As pessoas pedem pra gente seguir. A gente sente isso na estrada, nos encontros… parece que já está escrito.
A Copa de 2026 vai ser a nossa décima participação ininterrupta. E é do nosso jeito. A gente junta os pilas, como se diz aqui no Sul, alinha com o divino e vai. Tem muito amigo pelo caminho, e isso ajuda demais. É um churrasco aqui, uma hospedagem ali, muito sanduíche, noites dormidas no Brazucamóvel… E assim a gente segue.
Pra essa edição, a gente fez uma parceria muito linda com a Joker Socks. Criamos o movimento 1 PAR = 1 KM. A cada meia vendida, eles geram um quilômetro pra gente rodar nos Estados Unidos. Se o Brasil for até a final, essa jornada pode chegar a mais de 13 mil quilômetros (Saiba mais aqui!). E a gente segue. Como sempre foi.
++ A matéria sobre Clóvis Acosta Fernandes, o Gaúcho da Copa, e mais personagens e histórias marcantes da Copa do Mundo fazem parte da edição especial impressa de Aventuras na História; já disponível em pré-venda. Adquira já sua edição clicando aqui!