O que Beethoven e Shakespeare têm que a IA não reproduz?
A capacidade de sentir, criar e atribuir significado ao mundo continua sendo um atributo humano

O fantasma da inteligência artificial assombra o ser humano: se, de um lado, otimiza tarefas repetitivas e realiza pesquisas com rapidez, síntese e eficiência muito maior que um ser humano, por outro gera uma incômoda pergunta, e que tem suscitado confusões até nas mentes mais perspicazes de nossa época: então a IA pode substituir o ser humano?
Criatividade sem código
Essa, efetivamente, é uma conclusão lógica que se pode decorrer da simples observação dos prodígios da IA. Mas é uma conclusão baseada em uma percepção parcial. Por quê? Por uma questão simples: seria ser humano apenas um realizador de tarefas repetitivas, ou um indexador de fontes de informação? Aqui a resposta muda de figura. Se observarmos a própria história da humanidade verificamos que não é apenas uma história de fatos isolados e consequentes, de causas e efeitos mecanicamente ordenados: é uma história criativa.
O ser humano é o único na natureza que modifica o meio à sua volta através de modelos de pensamento que não são encontrados na natureza; ele articula e cria com os elementos disponíveis, gerando novas razões de pensar e imaginar, e, consequentemente, de mundo. Essa capacidade tem um aspecto subjecente que faz toda a diferença: a vontade objetivada. A articulação criativa de elementos, de conhecimento ou de técnicas, só é possível porque temos, como seres humanos, um princípio ativo que nos gera a vontade, que sempre parte, por sua vez, de alguma necessidade, física ou psicológica.
É aí que a IA não acompanha. Ela é uma grande máquina de compiladora de informação, que gera um resultado baseado num prompt, um comando que, por sua vez, precisa vir dessa vontade objetivada.
Por isso que é possível que ela nos engane quando produz modelos repetitivos de alguma forma, já que o resultado é diluído em informações pré-disponíveis, mas não alcança a criatividade de gerar algo que nos toca de maneira indelével. E aí entra o elemento que a IA não reproduz: o sentimento.
Quando o belo nos toca
Para entrar nessa questão é preciso percorrer um problema fundamental. Por que uma representação simbólica — música, literatura, arte, ou até uma equação matemática, por exemplo — nos gera emoção? Embora seja uma questão bastante complexa e difícil de resumir em pouco espaço, se pudermos ir diretamente ao ponto, observamos que o efeito emotivo é causado por uma sensação de completude, da percepção de algo que chamamos — ainda que seja um aspecto individual — de ‘belo’. Mesmo que de forma inconsciente, todos nós buscamos esse ‘belo’ ideal, em diferentes graus, desde escolher frutas no mercado até como modelo de contemplação, para refletirmos sobre nossa própria essência e existência.
A representação simbólica desse sentimento só pode vir de algo que efetivamente sentiu essa plenitude — um ser humano —, e por isso Beethoven, já surdo, certa vez respondeu em seus cadernos a um interlocutor: ‘Por que escrevo? O que tenho no coração é preciso que saia. Eis porque escrevo’.
O valor de sentir
A máquina reproduz padrões, mas não sente. Por isso, pode servir para trabalho repetitivo ou burocrático, mas não para alcançar as profundezas do ser humano, como Shakespeare.
Inclusive, neste aspecto, há uma experiência muito interessante realizada pela empresa de tecnologia chinesa Huawei, que demonstrou o potencial ‘criativo’ de um aplicativo de composição musical por IA completando a Sinfonia Inacabada de Schubert. O resultado está disponível no site da empresa, e chama a atenção tanto pela sofisticação do produto final (a compilação de informação pré-disponível) como pela total incongruência com a atmosfera sensível proposta por Schubert nos dois movimentos originais por ele completados (o aspecto da busca pelo belo ideal de um sentimento, que a máquina não alcança).
Por isso essa análise precisa ser feita levando em conta dois sistemas coexistentes: um físico, de causa e efeito mecânica – onde a IA pode atuar com total competência, já que puramente descritiva e isenta de resultados emotivos — e outro, que pode ser chamado — por falta de termo melhor — de psíquico, em que atuamos com resultantes sensíveis, psicológicas, filosóficas, emotivas e até intelectuais.
Portanto, o que a IA não tem? A nossa capacidade de sentir.
Sobre o autor: Filipe Salles é fotógrafo, cineasta, filósofo, artista visual e livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É graduado em Comunicação Social – Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), além de mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professor dos cursos de Artes Visuais e Midialogia, é fundador do NUTRANS – Núcleo de Pesquisas Transdisciplinares da Unicamp, como também é coordenador dos grupos de pesquisa Fotografia, Arte e Criação e do Arte e Psicologia Analítica. É autor dos livros “Música Visual: um estudo sobre as afinidades entre som e imagem”, “A Ideia-Imagem: forma e representação na fotografia moderna” e Harmonia Mundi: uma visão integradora da Arte e da Ciência.