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Objetos celestes controversos descobertos pelo telescópio James Webb podem não ser uma ilusão

Novo estudo analisou dois pares de objetos considerados 'rebeldes' encontrados em uma região de formação estelar na Via Láctea

Associação Centauro Inferior-Crux, onde habitam os novos pares de objetos do tamanho de Júpiter - Crédito: Domínio público/Roberto Mura

A descoberta de um novo tipo de objeto celeste está levando astrônomos a reconsiderarem antigas teorias sobre a formação de planetas. Um estudo recente revelou a existência de dois pares de corpos errantes semelhantes a Júpiter vagando pelo espaço sem estarem ligados gravitacionalmente a qualquer estrela. Os objetos foram identificados em uma região da Via Láctea diferente daquela onde candidatos parecidos haviam sido encontrados anteriormente pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST), reforçando a hipótese de que eles realmente representem uma nova categoria de corpos cósmicos.

Os astrônomos localizaram os objetos ao investigarem a associação estelar Lower Centaurus-Crux (LCC), um vasto berçário estelar espalhado pelo céu do hemisfério sul. A região contém mais de cem estrelas jovens, quentes e azuladas que se movem juntas pelo espaço, embora não estejam presas umas às outras pela gravidade. Segundo os pesquisadores, os corpos presentes na LCC têm cerca de 15 milhões de anos. São relativamente jovens em termos astronômicos.

De acordo com o portal Live Science, o interesse dos cientistas está voltado para os chamados planetas flutuantes, também conhecidos como FFPs (free-floating planets). Esses objetos são planetas errantes que viajam sozinhos pela galáxia, sem orbitar uma estrela. Observações realizadas nos últimos anos, especialmente pelo JWST, sugerem que esses mundos podem ser extremamente numerosos. Estimativas da NASA indicam até mesmo que eles possam superar a quantidade de estrelas da Via Láctea em uma proporção de 20 para 1.

Entretanto, pares binários de planetas errantes parecem ser muito mais raros. Entre eles estão os chamados “objetos binários de massa de Júpiter”, apelidados informalmente de JuMBOs. Esses sistemas seriam compostos por dois corpos com massas comparáveis à de Júpiter orbitando um ao outro enquanto vagam pelo espaço.

Controvérsia

O tema ganhou destaque em 2023, quando o JWST identificou cerca de 40 candidatos desse tipo na Nebulosa de Órion. A descoberta chamou atenção porque desafiava as teorias tradicionais de formação planetária. Pouco depois, porém, estudos questionaram parte desses resultados, sugerindo que vários dos supostos pares eram, na realidade, estrelas distantes vistas em alinhamento aparente.

Mesmo diante das controvérsias, os pesquisadores decidiram continuar a busca por exemplos mais convincentes. Em vez de revisitar a Nebulosa de Órion, a equipe voltou seus telescópios para a associação Lower Centaurus-Crux. Para isso, os cientistas combinaram imagens infravermelhas obtidas pelo Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, com dados de luz visível coletados pela missão Gaia, da Agência Espacial Europeia.

A partir desse cruzamento de informações, os pesquisadores construíram um gigantesco banco de dados contendo milhares de objetos fracos e de baixa massa que poderiam ser planetas. Dos cerca de 9 mil candidatos inicialmente identificados, apenas aproximadamente 400 realmente pertenciam à associação estelar analisada, já que apresentavam padrões de movimento compatíveis com os previstos pelos modelos matemáticos.

Depois de uma inspeção detalhada, os cientistas identificaram 17 sistemas binários de objetos de baixa massa. Entre eles, apenas dois chamaram especialmente a atenção: os sistemas VVVX-FFP-001 e VVVX-FFP-007.

Características

Os dois pares possuem características muito semelhantes às dos supostos JuMBOs encontrados anteriormente. Cada sistema é composto por dois objetos com massas inferiores a 13 vezes a massa de Júpiter, limite geralmente usado para diferenciar planetas de anãs marrons, as chamadas “estrelas fracassadas”, corpos que não acumulam massa suficiente para sustentar fusão nuclear estável.

Além disso, os pares estão separados por distâncias enormes. Em um dos sistemas, os objetos encontram-se a uma distância equivalente a cerca de três vezes a separação entre o Sol e Netuno. No outro, a distância é ainda mais extrema: aproximadamente 180 vezes a separação entre o Sol e Netuno.

Apesar das semelhanças com os JuMBOs, os pesquisadores evitam utilizar oficialmente esse termo, que ainda não foi plenamente aceito pela comunidade científica. Alguns cientistas preferem classificá-los simplesmente como “binários flutuantes de massa planetária“.

Os novos achados também sugerem que esses pares errantes talvez sejam mais raros do que inicialmente imaginado. Segundo os pesquisadores, apenas cerca de 2% dos planetas flutuantes encontrados na associação LCC fazem parte de sistemas binários. Esse percentual é muito menor do que os cerca de 9% estimados anteriormente na Nebulosa de Órion, o que reforça a possibilidade de que parte dos candidatos originais tenha sido identificada incorretamente.

Ainda assim, os cientistas acreditam que esses sistemas podem revelar fenômenos fascinantes. Alguns pares de planetas errantes poderiam orbitar tão próximos um do outro que as forças gravitacionais gerariam aquecimento interno suficiente para manter água líquida em suas superfícies ou interiores. Em teoria, isso abriria a possibilidade de ambientes potencialmente habitáveis mesmo sem a presença de uma estrela. Os autores do estudo destacam que mundos desse tipo poderiam transportar formas de vida microscópicas por diferentes regiões da galáxia. 

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.