O romance histórico como ferramenta para compreender o presente
Como a literatura voltada a recriação histórica pode trazer luz aos conflitos, dilemas e identidades contemporâneas

Lançar os olhos ao passado nem sempre é uma questão de nostalgia; ao contrário, ao cruzarmos esse umbral que nos afasta do tempo em que vivemos, podemos, em alguns casos, ser conduzidos diretamente ao epicentro da nossa própria realidade. Quando nos dedicamos à leitura de um romance histórico, para além do entretenimento a que nos dispomos, há uma importante dose de realidade factual.
Isso se dá pelo fato de a literatura que se propõe à recriação histórica funcionar como uma espécie de espelho duplo, que reflete o passado e o presente de forma simultânea, com todas as suas alegrias, dores, luzes e sombras. É como se nos olhássemos no espelho e víssemos a mesma pessoa, porém com roupas e corte de cabelo diferentes.
A ponte entre o fato e a emoção
A história apontada nos manuais didáticos e científicos nos traz a estrutura do tempo e espaço, demarcados por acontecimentos próprios daquela linha do tempo, como uma espécie de esqueleto que remonta os acontecimentos de determinada sociedade. De outro lado, o romance histórico se dedica a preencher esse esqueleto com carne, sangue e as subjetividades que moldam nosso jeito de pensar, agir e sentir.
Ao trazer humanidade para figuras históricas ou criar personagens fictícios com características próprias do período que se quer individualizar, o escritor possibilita ao leitor experimentar o peso psicológico daquela época. No momento em que o leitor consegue se conectar com as angústias sociais do período, começa a enxergar que as dores e as felicidades são idênticas ou muito similares às que ele — leitor — vive em seu cotidiano.
Dessa forma, o passado deixa de ser uma terra distante e nos faz compreender que a própria estrutura social do presente foi moldada por pessoas tão falíveis quanto nós.
A reescrita das fronteiras e o debate atual
Entre outras tantas funções, um dos papéis mais valiosos do romance histórico contemporâneo é, sem dúvida, a revisão das narrativas dominantes — contadas majoritariamente pela perspectiva dos vencedores que, na maioria das vezes, acabam por silenciar as minorias, a exemplo das mulheres e dos povos originários, entre outros.
Quando a literatura ficcional histórica resgata antigos debates e ideias há muito enterradas sob o manto do domínio e da força, ela nos fornece muito mais do que poesia: ela nos empresta ferramentas para o debate sobre as desigualdades que permeiam todo o tecido social da atualidade.
O passado, antes visto como algo simbólico e distante, passa a servir como uma espécie de laboratório para desarmar antigos preconceitos que sobreviveram ao tempo e se encontram no presente.
Entre descobertas e crises
A sociedade contemporânea se vê mergulhada em uma revolução tecnológica constante e impiedosa, envolta em tensões geopolíticas de escala global e, como se não bastasse, assiste ao colapso dos sistemas democráticos. Entretanto, se olharmos com a devida atenção, grande parte dos problemas sociais do presente encontra ecos no passado. Antigas sociedades também tiveram que lidar com a revolução industrial, presenciaram o esgarçamento de seus pactos sociais e a ascensão do extremismo. Nesse contexto, o romance histórico ficcional nos permite enxergar e identificar os sintomas de velhas doenças sociais antes que se tornem epidêmicas.
Escrever e, principalmente, ler sobre o ontem é um ato de profunda responsabilidade com o amanhã. O papel do romance histórico é, antes de tudo, fazer-nos compreender que jamais saberemos para onde estamos indo sem antes conhecermos de onde viemos.
Sobre o autor: Descendente de imigrantes italianos, Leonardo Auricchio cresceu ouvindo as histórias da família enquanto morava na periferia da zona norte de São Paulo. Essas narrativas orais foram sua principal inspiração para seguir a carreira na literatura, cuja estreia é marcada pela publicação do livro Mulheres Tristes, Amores & Revoluções. Além de escritor, é sócio fundador da Auricchio Advocacia, mestre em Direito, especialista em Direito Civil e professor de Direito, como também publicou as obras Le problème de la Justice du travail au Brésil (O problema da Justiça do Trabalho no Brasil, em tradução livre para o português) e Manual do empregador doméstico.