Desvio na bacia e pernas desiguais: o corpo frágil por trás do mito de Garrincha
Condenado pelos médicos por problemas provocados pela poliomielite, Manoel Francisco transformou deficiência física em uma arma dentro de campo

Manoel Francisco dos Santos nasceu no dia 28 de outubro, em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. De origem humilde e com uma família de 15 irmãos. Reza a lenda que Garrincha ganhou seu apelido por uma de suas irmãs, devido sua fixação com o pássaro Troglodytes musculus — popularmente conhecida como Garrincha. A pequena ave tropical tem o corpo pardo com listras pretas e com crista e cauda avermelhadas. Acredita-se que o jogador gostava de caçá-las quando era pequeno.
Já “Mané” teria sido por parte de um psicólogo da seleção brasileira, que apontava que o craque tinha idade mental de quatro anos de idade. O que condiz um pouco com seu talento para endiabrar a defesa adversária com seus dribles e jeito moleque.
As curiosidades — e apelidos — sobre Garrincha não param por aí. O Anjo das Pernas Tortas tinha diversos problemas congênitos, como os seis centímetros de diferença de comprimento entre as pernas. Além do mais, sofria de valgismo (um desvio postural ou anatômico onde uma articulação se inclina em direção à linha média do corpo, ficando “para dentro”).
De acordo com Ruy Castro, diversos depoimentos apontam que tais problemas de saúde teriam sido sequelas de uma poliomielite. Mané ainda sofria de desvio na coluna e problemas na bacia esquerda. Por conta de sua condição, os médicos pensaram que ele não iria sobreviver por muito tempo. Ingênuos. Garrincha sempre driblava seus adversários.
Combinar com os russos
Para finalizar as histórias folclóricas sobre o atleta, voltamos à Copa do Mundo de 1958. Em 15 de junho daquele ano, o Brasil enfrentou a extinta União Soviética. O confronto rendeu a famosa expressão “combinar com os russos”.
Tudo começou a partir de um diálogo entre Garrincha com o treinador Vicente Feola. Dizem que Feola orientou o ponta para pegar a bola, driblar o primeiro marcador, passar pelo segundo e ir até a linha de fundo para cruzar forte para Vavá marcar um gol. Garrincha, então, teria respondido:
Tudo bem, mas o senhor já combinou com os russos?”.
Morte na miséria
A despedida de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro de todos os tempos ocorreu de forma prematura. Garrincha tinha apenas 49 anos quando faleceu em 20 de janeiro de 1983, vítima de cirrose hepática, após ter ficado em coma alcoólico no Rio de Janeiro.
Após viver uma série de problemas conjugais e financeiros, Mané estava arruinado, tanto físico como emocionalmente. Esses problemas se mostraram presentes até mesmo após sua partida, quando sua família enfrentou uma enorme dificuldade para apenas enterrá-lo.
É nesse ponto que entra Agnaldo Timóteo. Botafoguense fervoroso e comovido com a situação do ex-ponta da seleção, Timóteo arcou com todos os gastos do velório do eterno parceiro de Pelé. A lápide de Garrincha, paga pelo cantor, tinha marcado os dizeres:
Aqui descansa em paz aquele que foi a alegria do povo”.
O ato foi relembrado pelo jornalista Thales Machado, logo após a morte de Agnaldo, em 2021. “Uma vez, o encontrei [Agnaldo] e perguntei se a história era verdade”, escreveu em um suas redes sociais à época. “Se o seu ídolo morrer fodido e você puder, não paga? Dei o cheque com prazer”, relatou o cantor.
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