Entre o mito e a história: a longa busca pela cidade de Troia
Entre ruínas na Turquia e o relato lendário de Homero, a histórica Troia segue fascinando e envolta em mistérios por pesquisadores

Poucos lugares despertam tanta fascinação quanto Troia. Celebrada em poemas épicos, associada a heróis lendários e alvo de séculos de especulação, a cidade ocupa um espaço singular na imaginação coletiva. Sua fama atravessou gerações graças às obras atribuídas a Homero, mas sua localização exata e até mesmo sua existência histórica permaneceram cercadas de dúvidas durante muito tempo — intensificando ainda mais seu status de lendária.
Hoje, o sítio arqueológico de Hisarlik, no noroeste da Turquia, é considerado o principal candidato a abrigar o que restou da antiga Troia. Situado sobre uma colina que domina a região próxima aos Dardanelos, o local reúne vestígios de sucessivas ocupações humanas que se estendem por milênios. A descoberta e o estudo dessas camadas transformaram não apenas a compreensão da cidade, mas também o próprio campo da arqueologia.
Legado literário
Na tradição literária, Troia está no centro de duas das obras mais influentes da Antiguidade. A Ilíada narra os acontecimentos do último ano de uma guerra travada entre uma coalizão de estados gregos e os defensores da cidade, enquanto a Odisseia acompanha as consequências desse conflito e eterniza estratégias lendárias como o cavalo de Troia, por meio da jornada de retorno de um de seus protagonistas.
Além da literatura, a importância da cidade também aparece nos escritos de autores antigos. Tucídides, historiador grego do século 5 a.C., classificou a Guerra de Troia como um acontecimento de grande relevância, descrevendo-a como “notável além de todas as guerras anteriores”.
Apesar da fama adquirida ao longo dos séculos, o paradeiro da cidade permaneceu desconhecido durante muito tempo. Segundo a tradição, Troia teria sido destruída por volta de 1200 a.C. Após esse episódio, a região foi repovoada por gregos e romanos, passando a ser conhecida como Ílio ou Ilion. Com o passar do tempo, o local perdeu importância e acabou desaparecendo da paisagem histórica.

Hisarlik
A redescoberta moderna da cidade está ligada a Hisarlik, um monte arqueológico de aproximadamente 30 metros de altura. O que à primeira vista parece apenas uma elevação coberta por vegetação guarda uma longa sequência de assentamentos superpostos. Em vez de uma única cidade, os arqueólogos identificaram ali uma sucessão de ocupações que se estendem desde cerca de 3000 a.C. até aproximadamente 500 a.C.
As escavações revelaram que o local foi reconstruído repetidamente ao longo dos séculos. Atualmente, acredita-se que as camadas conhecidas como Troia VI e Troia VIIa, ambas pertencentes ao final da Idade do Bronze, sejam as candidatas mais prováveis à cidade governada pelo lendário rei Príamo.
Heinrich Schliemann
A busca por Troia está associada à figura de Heinrich Schliemann, empresário alemão do século 19 que se tornou arqueólogo. Fascinado pelos relatos homéricos desde a infância, ele dedicou grande parte de sua vida à tentativa de localizar a cidade.
Segundo uma narrativa frequentemente associada à sua trajetória, Schliemann teria decidido procurar Troia ainda menino, depois de se impressionar com uma ilustração encontrada em um livro dado por seu pai. Entretanto, sua tendência a alterar ou embelezar registros pessoais levou alguns pesquisadores a questionarem a veracidade desse episódio.
Em 1870, Schliemann iniciou escavações em Hisarlik e rapidamente anunciou ter encontrado a cidade descrita por Homero. Entre os objetos descobertos, afirmou ter identificado o chamado tesouro do rei Príamo, parte do qual mais tarde foi presenteado à sua esposa.
Apesar da repercussão de suas descobertas, os métodos empregados por Schliemann foram alvo de críticas severas. Ao escavar profundamente o sítio, ele removeu e destruiu camadas inteiras pertencentes justamente ao período que procurava encontrar.
O arqueólogo e historiador Eric Cline descreve Schliemann como alguém extraordinariamente afortunado. Ao mesmo tempo, observa que ele acabou eliminando evidências valiosas durante suas escavações. Em vez de preservar os vestígios da Troia da Idade do Bronze, Schliemann avançou até uma camada muito mais antiga, atualmente identificada como Troia II, que antecede em mais de mil anos a época associada à narrativa homérica.
“Se você olhar os mapas de escavação, verá uma lacuna no meio onde está escrito ‘Palácio removido por Schliemann‘. Ele ficou com o palácio de Príamo e depois o descartou”, diz Cline. “Ele encontrou Troia, mas também a destruiu.”
Mesmo com essas perdas irreparáveis, as escavações abriram caminho para novas investigações sobre a cidade e seu passado.

Expansão de Troia
Ao longo da Idade do Bronze, Troia evoluiu de um pequeno povoado para um importante centro urbano. Sua economia baseava-se em atividades como agricultura, pesca e comércio, permitindo que a cidade prosperasse durante séculos.
Foram identificadas nove fases principais de ocupação antes da destruição ocorrida por volta de 1180 a.C. Ainda assim, a ausência de textos contemporâneos descrevendo a cidade limita o conhecimento sobre sua organização e sua história.
Durante muito tempo, os vestígios arqueológicos pareciam insuficientes para sustentar a imagem de uma grande potência regional descrita nas obras de Homero. Essa percepção começou a mudar na década de 1990, quando o arqueólogo Manfred Korfmann realizou novas pesquisas no sítio.
Até então, acreditava-se que a cidade ocupasse uma área relativamente pequena. As descobertas conduzidas por Korfmann revelaram uma extensa cidade baixa com cerca de 75 acres, ampliando significativamente a dimensão conhecida do assentamento.
Segundo o arqueólogo, os resultados demonstraram que Troia possuía uma importância muito maior do que se imaginava. Em artigo publicado em 2004, Korfmann argumentou que a cidade tinha relevância regional expressiva e apresentava características incomuns para a região. “Foi isso que me convenceu da identificação”, diz Cline.
Colapso da Idade do Bronze
Para ele, a cidade descrita por Homero pode refletir uma combinação de elementos de Troia VI e Troia VIIa. A primeira parece ter sido destruída por um terremoto, enquanto a segunda apresenta sinais mais compatíveis com um conflito armado.
Entre os vestígios encontrados em Troia VIIa estão pontas de flecha espalhadas pela cidadela, sugerindo que a cidade enfrentou um episódio violento antes de sua destruição. Ainda assim, essa evidência não é considerada uma prova definitiva da Guerra de Troia.
A questão permanece aberta. Para Cline, o contexto histórico da época torna improvável a ideia de um único conflito monumental entre gregos e troianos. Ele prefere enxergar a destruição da cidade como parte de uma crise mais ampla que atingiu diversas civilizações da Idade do Bronze.
“A queda de Troia faz parte do quadro maior da queda de toda a Idade do Bronze”, diz Cline. “Todo o G8 do mundo antigo desmoronou.”

Centro multicultural
Mesmo diante das incertezas, diversos aspectos da descrição homérica parecem encontrar paralelos em Hisarlik. O poeta apresenta Troia como uma cidade elevada, sujeita aos ventos, protegida por sólidas muralhas e dotada de uma cidadela imponente.
A imagem construída pela Ilíada é a de um importante centro urbano governado por uma elite poderosa. Estimativas sugerem que a população poderia variar entre 4.000 e 10.000 habitantes, segundo o The Guardian.
As muralhas desempenham papel central na narrativa homérica e também encontram correspondência nos vestígios arqueológicos. Partes das fortificações preservadas possuem entre quatro e cinco metros de largura e alcançam cerca de oito metros de altura. Elas eram reforçadas por torres e portões que controlavam o acesso ao interior da cidade.
Dentro da cidadela concentravam-se as construções monumentais e as residências da elite. Casas de dois andares e amplos edifícios sugerem a existência de uma sociedade hierarquizada.
Segundo Joritt Kelder, do Instituto Oriental da Universidade de Oxford, a organização urbana da época refletia sobretudo relações de poder. “É um pouco como Londres”, diz, “uma capital com muita influência estrangeira como resultado do comércio e da migração. Não tenho dúvidas de que estrangeiros também residiam em Troia nos séculos 14 e 13 a.C.”
A posição geográfica da cidade favorecia essa diversidade. Localizada junto aos Dardanelos, Troia controlava uma passagem estratégica entre diferentes regiões do mundo antigo. A cidade servia como elo entre o universo micênico, a oeste, e os territórios dominados pelos hititas, a leste.
Evidências arqueológicas apontam para intensas trocas culturais e comerciais. Cerâmicas produzidas localmente revelam influências estrangeiras, enquanto objetos importados demonstram contatos frequentes com outras sociedades da Idade do Bronze.
Essa condição transformou Troia em um importante centro multicultural, onde diferentes tradições se encontravam e conviviam.
Eternizada nas lendas
A influência da cidade ultrapassou em muito os limites de sua época. Ao longo da Antiguidade, governantes e escritores continuaram associando suas próprias histórias ao legado troiano.
Relatos antigos afirmam que o rei persa Xerxes realizou oferendas no local durante sua campanha militar contra a Grécia. Séculos depois, Alexandre, o Grande, também visitou Troia e teria levado consigo o escudo de Aquiles guardado em um templo dedicado a Atena.
Os romanos foram ainda mais longe ao reivindicar uma ligação direta com os sobreviventes da guerra. Na Eneida, Virgílio conta a trajetória de Eneias, troiano que teria escapado da destruição da cidade para se estabelecer na Itália e participar da fundação de Roma.
A permanência de Troia na memória coletiva não dependeu apenas da história ou da arqueologia. Ao longo dos séculos, a cidade continuou inspirando obras literárias, produções teatrais e adaptações cinematográficas.
Mais do que um lugar específico, Troia tornou-se um símbolo duradouro de heroísmo, tragédia e transformação histórica. Sua influência atravessou diferentes épocas, preservando a cidade na imaginação humana mesmo quando sua localização permanecia desconhecida.
Essa permanência foi resumida pelo epigramista grego Eueno ao imaginar uma Troia que sobrevivia não nas pedras, mas nas palavras: “em Homero eu [Troia] ainda existo, protegida por portões de bronze. As lanças dos gregos destruidores não me desenterrarão novamente, mas estarei nos lábios de todos os gregos.”