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Estudo revela rede feminina de espionagem na Idade Média

Registros financeiros do fim do século XV revelam que mulheres desempenharam papel fundamental na espionagem em Flandres

Espionagem ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Getty Images

Uma pesquisa recente trouxe à tona a história pouco conhecida de uma rede de espionagem feminina que atuou em Flandres durante o conflito contra o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Maximiliano da Áustria, no final do século XV. A descoberta foi possível graças à análise de livros contábeis e registros financeiros da época, que documentaram pagamentos feitos a mulheres encarregadas de missões secretas.

Entre os nomes encontrados nos documentos estão Josine Hellebout, Crispine Sroys, Beatrice Cambiers e Tuenine sPepers. Segundo os registros, elas integravam uma estrutura clandestina responsável por transportar mensagens sensíveis e reunir informações estratégicas durante a guerra travada entre as cidades flamengas e as forças ligadas à dinastia Habsburgo.

Naquele período, Flandres — região que abrangia áreas atualmente localizadas na Bélgica, França e Alemanha — resistia ao domínio de Maximiliano. Após a formação de conselhos de regência em cidades como Ghent, Bruges e Ypres, o conflito se intensificou entre 1488 e 1489, envolvendo milícias locais e tropas estrangeiras.

Enquanto os homens participavam diretamente dos confrontos armados, as mulheres assumiam tarefas de inteligência. Muitas delas eram contratadas para transportar cartas contendo informações confidenciais. Algumas viajavam durante a noite; outras circulavam à luz do dia sem despertar suspeitas. De acordo com os registros analisados, homens que tentavam se disfarçar de mulheres para desempenhar funções semelhantes eram identificados com mais facilidade.

Espionagem em Flandres

A historiadora Lisa Demets, da Universidade de Ghent, na Bélgica, estudou esses documentos e concluiu que as mulheres exerciam funções muito mais amplas do que a simples entrega de mensagens. Elas integravam uma rede sofisticada de troca de informações, atravessando territórios hostis e enfrentando condições difíceis para cumprir suas missões.

Os registros mostram ainda que muitas viajavam em duplas para reduzir riscos. Em alguns casos, uma das integrantes da equipe era escolhida por conhecer bem a cidade de destino. Algumas receberam apenas uma missão, enquanto outras se tornaram colaboradoras frequentes.

Entre os exemplos citados estão Jeanne van Troys e uma mulher não identificada que percorreram cerca de 45 quilômetros entre Béthune e Ypres. Marie Mollis transportou correspondências em nome das autoridades locais. Já Masnien van der Muelne foi enviada para obter informações sobre os franceses, possivelmente relacionadas a reforços militares.

Tuenine sPepers recebeu pagamento para reunir notícias sobre Maximiliano e posteriormente foi enviada a Diksmuide para avaliar a situação local. Crispine Sroys realizou diversas missões de coleta de informações sobre tropas alemãs, enquanto Beatrice Cambiers participou de operações em Sint-Winoksbergen e recebeu novas atribuições posteriormente.

A agente mais ativa identificada nos documentos foi Josine Hellebout. Atuando desde a primavera de 1489, ela realizou onze missões em territórios hostis. Suas tarefas incluíam buscar apoio político, monitorar a localização de tropas inimigas e acompanhar seus deslocamentos.

Para Demets, a participação dessas mulheres foi essencial para as estratégias adotadas pelas cidades flamengas durante o conflito. O estudo também contribui para ampliar a compreensão sobre os papéis sociais e as dinâmicas de gênero presentes nos conflitos do final da Idade Média.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.