A descoberta de túneis da dinastia Tudor sob escola inglesa
Encontrados durante obras em um tradicional internato inglês, túneis podem revelar novos detalhes sobre a antiga residência de Henrique VIII

Uma descoberta inesperada transformou uma simples obra de manutenção em uma nova investigação histórica na Inglaterra. Funcionários da New Hall School, um tradicional internato localizado em Chelmsford, no condado de Essex, encontraram entradas para túneis de alvenaria e uma coleção de artefatos antigos escondidos sob os terrenos da instituição. Os objetos e estruturas podem remontar ao período Tudor, época em que a área fazia parte de uma propriedade rural pertencente ao rei Henrique VIII.
Segundo a direção da escola, os achados incluem fragmentos de cerâmica, ossos, garrafas de vidro e pedaços de chumbo encontrados durante trabalhos de reparo em uma estrutura conhecida como ha-ha — um tipo de cerca afundada muito utilizada em propriedades aristocráticas britânicas para separar jardins de áreas destinadas ao pastoreio sem comprometer a paisagem.
Durante a intervenção, os trabalhadores se depararam com entradas em arco embutidas na parede, que parecem conduzir a túneis subterrâneos até então desconhecidos.
“As descobertas dessa natureza são excepcionalmente raras dentro de um ambiente escolar, portanto, isso é particularmente emocionante para nossos alunos”, afirmou à imprensa local Sarah Garside, chefe do departamento de História da New Hall School. Segundo ela, os túneis e os objetos encontrados oferecem uma oportunidade única de conectar registros históricos a evidências físicas preservadas no local.
Túneis de Henrique VIII?
A importância da descoberta está diretamente ligada à própria história da escola. Embora atualmente funcione como uma instituição de ensino, o terreno abriga parte de uma antiga propriedade real conhecida como Palácio de Beaulieu.
Originalmente chamada de New Hall, a residência pertencia a Thomas Bolena, diplomata e cortesão da corte inglesa durante o reinado de Henrique VIII. No início do século XVI, o rei adquiriu a propriedade e investiu mais de 17 mil libras — uma quantia gigantesca para a época — em sua ampliação e decoração.
Após as reformas, Henrique VIII rebatizou a propriedade de Beaulieu, expressão francesa que significa “belo lugar”. Ao longo da década de 1520, o monarca utilizou frequentemente a residência como local de descanso, reuniões políticas e caçadas.
A propriedade fazia parte de uma ampla rede de residências mantidas pelo rei. Diferentemente de muitos monarcas da época, Henrique VIII preferia não depender da hospitalidade da nobreza durante suas viagens pelo país. Por isso, acumulou um número impressionante de palácios, casas de campo e pavilhões de caça ao longo de seu reinado.

O historiador John Cooper, da Universidade de York, observou que Henrique VIII possuía 55 palácios ou residências de caça no momento de sua morte, um número sem precedentes entre os soberanos ingleses.
A condição de residência real de Beaulieu chegou ao fim em 1573, quando a rainha Isabel I concedeu a propriedade ao conde Thomas Radclyffe. Nos séculos seguintes, o local passou pelas mãos de diversas figuras importantes da história inglesa, incluindo Oliver Cromwell.
Registro dos Tudor
Com o passar do tempo, grande parte do palácio original entrou em decadência. Atualmente, apenas uma pequena porção da estrutura utilizada pela escola remonta diretamente ao período de Henrique VIII. Ainda assim, vestígios do passado permanecem preservados, incluindo o brasão do monarca, que continua exposto na capela da instituição.
Foi justamente esse rico contexto histórico que tornou a descoberta dos túneis tão relevante. De acordo com Sarah Garside, uma das principais questões agora é determinar qual era a função dessas passagens subterrâneas.
“Não sabemos se os objetos encontrados foram simplesmente descartados ali ou se os túneis eram utilizados para armazenamento”, explicou a historiadora em comunicado. A boa preservação de parte da cerâmica sugere que os artefatos podem ter sido deliberadamente guardados no local, mas essa hipótese ainda precisa ser confirmada.
Para esclarecer essas dúvidas, a escola contratou arqueólogos e especialistas em patrimônio histórico que continuarão as escavações e a análise dos materiais recuperados.

Esta não é a primeira vez que o terreno da New Hall School desperta interesse arqueológico. Em escavações realizadas anteriormente, pesquisadores encontraram vestígios de diferentes períodos da história britânica, incluindo fossas pré-históricas, uma muralha medieval construída antes da chegada de Henrique VIII e as fundações da antiga capela Tudor da propriedade.
As novas descobertas, porém, podem fornecer informações inéditas sobre o funcionamento cotidiano da residência real e sobre as transformações sofridas pelo local ao longo dos séculos.
Para Katherine Jeffrey, diretora da New Hall School, a descoberta representa uma oportunidade rara de aproximar estudantes e pesquisadores de um passado que continua escondido sob seus pés.
“A descoberta desses túneis traz a história à vida de uma forma que poucos lugares podem oferecer”, afirmou. “Os artefatos sugerem a riqueza do que ainda pode existir sob o terreno, e estamos entusiasmados para continuar explorando e compartilhando essas descobertas.”
À medida que as investigações avançam, arqueólogos esperam compreender melhor a origem dos túneis e a função dos objetos encontrados. Até lá, o antigo palácio de Henrique VIII continua revelando segredos que permaneceram ocultos por séculos sob os corredores de uma escola inglesa.