A intrigante Máscara de Mictlantecuhtli, o deus asteca do submundo
Esculpida em madeira, a Máscara de Mictlantecuhtli representa o deus asteca associado à morte, ao submundo e à criação da humanidade; confira!

Uma rara máscara ritual asteca esculpida em madeira há mais de cinco séculos representa Mictlantecuhtli, o deus da morte e senhor do submundo na mitologia asteca. Com traços que remetem a uma caveira, a peça integra a coleção do Museu de Arte Walters, em Baltimore, e oferece um vislumbre das crenças religiosas de uma das mais importantes civilizações da Mesoamérica.
Mictlantecuhtli era tradicionalmente retratado com um rosto esquelético e estava associado ao destino das almas após a morte. Segundo a tradição, cabia a ele guiar aqueles que morriam em circunstâncias consideradas heroicas — como em batalhas, sacrifícios ou durante o parto — pelos nove níveis do submundo até alcançarem o descanso eterno.
Detalhes da máscara
A máscara mede 17,2 centímetros de altura por 14 centímetros de largura. Seus olhos fundos com pupilas negras e o nariz triangular reforçam a aparência cadavérica da representação. Especialistas identificaram ainda pequenos vestígios avermelhados nas bochechas, interpretados como marcas de decomposição associadas à figura divina.
Os dentes foram decorados com linhas pretas verticais, enquanto as orelhas apresentam perfurações que podem remeter aos adornos frequentemente usados por Mictlantecuhtli em representações artísticas. De acordo com a tradição iconográfica asteca, a divindade costumava ser mostrada usando brincos confeccionados com ossos humanos.
Importância ritualística
As máscaras desempenhavam papel importante nos rituais religiosos astecas. Em determinadas cerimônias, participantes utilizavam representações de divindades para assumir simbolicamente características sobrenaturais. No entanto, a peça preservada pelo Museu Walters apresenta uma particularidade: a ausência de orifícios para os olhos indica que ela provavelmente não era usada diretamente por uma pessoa.
Por essa razão, especialistas acreditam que a máscara era fixada a uma estátua ou colocada sobre um poste durante os rituais, característica que a torna um raro exemplo de máscara escultural produzida pelos astecas.
Representação mitológica
A figura de Mictlantecuhtli ocupava posição de destaque no panteão religioso. Descrito como um ser imponente, ele era associado ao reino dos mortos, conhecido como Mictlán. Algumas representações o mostram usando um colar formado por globos oculares humanos. Quando retratado de corpo inteiro, costuma aparecer com os braços erguidos, em atitude ameaçadora, preparado para despedaçar os mortos que ingressassem em seu domínio.
Segundo o arqueólogo emérito Michael E. Smith, da Universidade Estadual do Arizona, os cultos dedicados a Mictlantecuhtli incluíam ocasionalmente práticas de canibalismo ritual em seu templo.

Origem da humanidade
Apesar da associação com a morte, a divindade também desempenha papel central em um dos mais importantes mitos de origem da tradição asteca. Conforme descrito pelo arqueólogo emérito Karl Taube, da Universidade da Califórnia em Riverside, a narrativa envolve Quetzalcoatl, a serpente emplumada associada à terra, à água e ao vento.
No mito, Quetzalcoatl precisa descer ao submundo para recuperar os ossos dos ancestrais que haviam sido transformados em peixes após uma grande inundação. Mictlantecuhtli aceita entregar os restos mortais sob a condição de que o visitante toque uma trombeta de concha durante a travessia.
Tentando impedir o sucesso da missão, o senhor do submundo fornece uma concha sem aberturas. Quetzalcoatl, porém, consegue transformá-la em um instrumento funcional e cumpre a exigência. Mesmo assim, Mictlantecuhtli se recusa a entregar os ossos, levando Quetzalcoatl a tomá-los e levá-los até Cihuacoatl, deusa da fertilidade.
A divindade então reduz os ossos a pó e os deposita em um recipiente sagrado. Reunidos ao redor dele, os deuses derramam seu próprio sangue sobre a mistura, dando origem aos seres humanos que habitam o mundo atual, repercute o Live Science.
A história evidencia uma faceta menos conhecida de Mictlantecuhtli. Embora seja lembrado principalmente como senhor da morte e do submundo, ele também aparece ligado aos conceitos de renovação, regeneração e renascimento presentes na cosmologia asteca.