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A história real por trás de ‘Instinto Materno’, novo documentário da Netflix

Novo documentário aborda caso criminal chocante ocorrido em 2020 no estado americano do Texas

Taylor Parker fingiu gravidez - Crédito: Divulgação/Netflix

Em outubro de 2020, policiais rodoviários do Texas se depararam com uma cena que não se vê todos os dias. Diante deles estava uma motorista coberta de sangue e com um recém-nascido no colo. Dizia ter acabado de dar à luz. Mas algo não parecia certo. Não muito depois, a verdade viria à tona.

O caso é o tema do novo documentário dirigido por Jessica DimmockInstinto Maternal” (Maternal Instinct), lançado pela Netflix no último dia 12. Por meio de entrevistas com familiares, amigos, investigadores e pessoas próximas, o filme reconstrói a trajetória da norte-americana Taylor Parker, que passou meses fingindo uma gravidez antes de assassinar uma gestante para roubar seu bebê.

A seguir saiba mais sobre esse chocante crime.

Uma vida de mentiras

Quando Taylor Parker chegou à pequena comunidade rural de Simms, no leste do Texas, causou uma boa impressão. Carismática e sociável, ela contava uma história curiosa: segundo dizia, vinha de uma família rica ligada à indústria do petróleo e estava destinada a herdar uma fortuna da avó. Também alegava viver um conflito familiar que a impedia de acessar esse patrimônio, de acordo com o portal Tudum.

Em julho de 2019, ela conheceu o caçador de javalis Wade Griffin durante um rodeio local. Os dois começaram a namorar e, em questão de três meses, já estavam morando juntos. O namorado sonhava em comprar um grande rancho e Parker parecia compartilhar desse sonho. Ela falava sobre investimentos, compras milionárias e planos ambiciosos para o futuro. Em pouco tempo, passou a discutir a aquisição de veículos caros, gado e até mesmo uma propriedade avaliada em milhões de dólares.

Pouco depois de se mudarem juntos, Parker anunciou que estava grávida. Ela apresentou documentos médicos que supostamente comprovavam a gestação e começou a compartilhar a novidade com familiares e amigos. Fotografias nas redes sociais mostravam sua barriga crescendo ao longo dos meses, enquanto festas e preparativos reforçavam a expectativa pela chegada do bebê.

Mas algumas pessoas começaram a desconfiar.

Taylor e o então namorado Wade – Crédito: Divulgação/Netflix

Sinais de alerta

A principal voz de dúvida veio da mãe de Wade, Connie Griffin, que, quanto mais observava Parker, mais inconsistências percebia em suas histórias.

Uma amiga da família, Stephanie Ott, passou a tentar verificar algumas das informações fornecidas por Parker. Ela fez contatos com clínicas e laboratórios, mas as leis de privacidade médica dificultavam qualquer confirmação. Ainda assim, a sensação de que algo estava errado aumentava.

Ao mesmo tempo, antigas amigas de Parker também começaram a relatar comportamentos estranhos. McKenzie Bright e Abby Bell, entrevistadas no documentário, contaram que Parker já havia afirmado sofrer de esclerose múltipla, câncer, tumor cerebral e até mesmo ter sofrido um derrame. Mas as histórias acabaram se acumulando sem que houvesse qualquer evidência concreta.

A situação ficou ainda mais estranha quando Parker passou a demonstrar uma obsessão incomum pela gravidez de uma amiga, acompanhando cada detalhe do desenvolvimento do bebê e tentando se envolver em todos os aspectos da gestação. O que ninguém na nova comunidade sabia era que Parker havia passado por uma histerectomia anos antes. O procedimento remove o útero e torna a gravidez impossível.

A confirmação de que tudo não passavam de mentiras veio quando Stephanie conseguiu contato com a mãe de Parker. A resposta teria sido imediata: a filha não podia engravidar e também não existia a suposta fortuna familiar que ela mencionava com frequência.

A busca por um bebê

Posteriormente, investigadores descobriram que, à medida que a data prevista para o parto se aproximava, Parker realizava pesquisas cada vez mais preocupantes na internet. Entre as buscas encontradas estavam consultas sobre adoção de recém-nascidos, localização de mães biológicas, compra de próteses para simular gravidez e vídeos de cesarianas.

A falsa gestação já havia ultrapassado a data prevista para o parto. Pressionada por familiares e pelo namorado, Parker parecia precisar apresentar um bebê para sustentar a mentira. Foi nesse contexto que entrou na história Reagan Simmons-Hancock.

A vítima

Reagan tinha 21 anos e morava na cidade vizinha de New Boston. Era uma jovem gentil e acolhedora, como amigos e familiares a descreveram, e estava grávida de 35 semanas. De acordo com a revista Elle, as duas haviam se conhecido em 2019, quando Parker trabalhou como fotógrafa no casamento de Reagan. Com o tempo, desenvolveram amizade. Segundo familiares, Reagan demonstrava empatia por Parker e chegou a defendê-la quando outras pessoas questionavam sua gravidez. Elas decidiram manter contato e, em 7 de outubro de 2020, passaram parte do dia juntas. Dois dias depois, Reagan desapareceu.

Reagan simmons hancock foi morta por Taylor – Crédito: Divulgação/Netflix

Preocupada por não conseguir falar com a filha, a mãe da gestante foi até sua residência. Ao chegar, encontrou sinais de violência e uma cena traumatizante. Escondida sob cobertores estava a filha de três anos de Reagan, que estava sozinha dentro da casa.

Reagan havia sido vítima de um ataque brutal.

O crime é descoberto

Na mesma data, a quilômetros dali, Taylor Parker telefonou para o serviço de emergência afirmando ter acabado de dar à luz em uma estrada próxima a De Kalb. Quando os policiais chegaram, encontraram-na tentando reanimar um recém-nascido. Ela insistiu que o bebê era seu e que o parto havia ocorrido momentos antes. Entretanto, ao ser examinada em um hospital, médicos concluíram rapidamente que Parker não havia dado à luz recentemente.

Enquanto isso, investigadores que examinavam a residência de Reagan encontravam evidências de um homicídio extremamente violento. A jovem havia sofrido múltiplos ferimentos e seu bebê havia sido retirado de seu ventre. As evidências passaram a apontar diretamente para Parker.

O recém-nascido encontrado com ela era, na verdade, o bebê de Reagan. A criança não sobreviveu.

Vem o julgamento

Promotores argumentaram que Parker planejou o crime durante meses para manter a farsa da gravidez e preservar seu relacionamento com Wade Griffin. Durante o julgamento, a acusação apresentou provas das pesquisas realizadas na internet, das mentiras sobre sua condição médica e financeira e do planejamento que antecedeu o assassinato. Já em outubro de 2022, um júri a considerou culpada por homicídio qualificado. No mês seguinte, ela foi condenada à pena de morte.

A defesa até tentou reverter a decisão, mas o Tribunal de Apelações Criminais do Texas manteve a condenação. Hoje Taylor tem 34 anos. Ela é uma das mulheres mais jovens entre os condenados à pena capital no estado.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.