O dia em que uma seleção gaúcha enfrentou o Haiti — e perdeu
Em 1973, uma equipe formada por jogadores do interior do Rio Grande do Sul disputou dois amistosos contra a seleção do Haiti

O confronto entre Brasil e Haiti, que voltam a se enfrentar na Copa do Mundo de 2026, costuma ser lembrado por um episódio marcante ocorrido em 2004. Naquele ano, em meio à grave instabilidade política e social que atingia o país caribenho, a Seleção Brasileira desembarcou em Porto Príncipe para disputar o chamado Jogo da Paz. Com estrelas como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano, o Brasil venceu por 6 a 0 em uma partida que simbolizou um esforço de aproximação e apoio ao povo haitiano durante um período de intensa turbulência.
Mas a história dos encontros entre brasileiros e haitianos nos gramados começou muito antes. Mais de 50 anos antes do famoso amistoso beneficente, uma equipe formada por jogadores de clubes do interior do Rio Grande do Sul já havia enfrentado a seleção haitiana em uma excursão internacional pouco conhecida.
A viagem aconteceu em 1973, quando a então Seleção Gaúcha de Futebol do Interior realizou uma série de amistosos por países da América Central e da América do Norte. A equipe era formada por atletas de clubes do interior gaúcho e representava a Federação Gaúcha de Futebol em uma turnê organizada para promover intercâmbio esportivo e disputar torneios amistosos.
A situação do Haiti
Naquele período, o Haiti vivia um dos momentos mais delicados de sua história política. O país era governado por Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc, que havia assumido o poder após a morte de seu pai, François Duvalier, o Papa Doc. Embora inicialmente houvesse expectativa de abertura política, o regime manteve características autoritárias, sustentado pelo controle da milícia conhecida como Tontons Macoutes e pela influência da velha guarda ligada ao duvalierismo.
Poucos meses depois da visita dos gaúchos, o Haiti alcançaria um feito histórico ao disputar sua primeira — e, até então, única — Copa do Mundo masculina, realizada na Alemanha Ocidental em 1974. Na competição, a seleção haitiana acabou eliminada ainda na fase de grupos após perder os três jogos que disputou.
A excursão da equipe gaúcha foi anunciada pela imprensa do Rio Grande do Sul em outubro de 1973. Inicialmente, o roteiro previa partidas contra as seleções do Haiti e da Jamaica, além de compromissos posteriores na Guatemala, Honduras e México.
O primeiro compromisso da viagem fazia parte de um torneio triangular que também contaria com a participação do Deportivo Cali, da Colômbia, e da seleção jamaicana. No entanto, um furacão que atingiu a Jamaica provocou o cancelamento da participação dos caribenhos, alterando a programação do torneio.
Estreia com derrota
Com isso, a seleção do interior gaúcho acabou enfrentando o Haiti em duas oportunidades no intervalo de poucos dias.
Antes da estreia, o técnico Aparício Viana e Silva demonstrava preocupação com o entrosamento da equipe, formada por atletas de diferentes clubes do interior do estado. A base do elenco reunia jogadores de equipes tradicionais do futebol gaúcho fora da capital, como Ypiranga de Erechim, Gaúcho de Passo Fundo e São Luiz de Ijuí.
Segundo registros da época, a equipe principal era formada por Hugo; Valdir, Vlamir, Ciro e Humberto; Frazão, Zico e Neca; Leivinha, Selmar e Décio.
Após empatar sem gols com o Deportivo Cali na abertura do torneio, os gaúchos passaram a concentrar atenções nos confrontos contra os haitianos. O primeiro encontro aconteceu no Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, e terminou com vitória da seleção do Haiti por 1 a 0.
Poucos dias depois, as equipes voltaram a se enfrentar. Desta vez, a seleção gaúcha conseguiu devolver o placar. Com um gol marcado por Décio, os representantes do Rio Grande do Sul venceram por 1 a 0 e encerraram a série de confrontos em igualdade.
De acordo com documentos reunidos pelo pesquisador Marlon Krüger Compassi e divulgados pelo site História do Futebol, cada jogador da delegação gaúcha recebeu uma premiação de 40 dólares pelo desempenho durante a excursão. Os atletas também participaram de uma confraternização que incluiu um churrasco preparado pelo massagista Pacheco, integrante do Grêmio Esportivo Bagé.
A viagem prosseguiu após a passagem pelo Haiti. O grupo ainda disputou partidas contra seleções do México e da Guatemala, encerrando uma das excursões internacionais mais curiosas da história do futebol gaúcho.
Enquanto isso, os confrontos oficiais entre Brasil e Haiti continuaram sendo raros. As duas seleções principais se enfrentaram pela primeira vez em 1974, em um amistoso disputado no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Na ocasião, o Brasil venceu por 4 a 0. Três décadas depois, o encontro de 2004 transformou-se em um dos amistosos mais simbólicos da história recente da Seleção Brasileira. O chamado Jogo da Paz reuniu milhares de haitianos em Porto Príncipe e terminou com vitória brasileira por 6 a 0.
O confronto mais recente entre os dois países aconteceu na Copa América Centenário, em 2016. Naquela partida, a Seleção Brasileira goleou o Haiti por 7 a 1. Os haitianos encerraram a participação no torneio sem conquistar pontos.