História LGBTQIAPN+: a imprensa alternativa e a comunicação como resistência
Dos boletins clandestinos na ditadura militar aos desafios modernos dos algoritmos, o movimento LGBTQIAPN+ fez da comunicação uma forma de resistência

Panfletos mimeografados tinham um cheiro inconfundível de álcool isopropílico e tinta estêncil. Anunciavam ação na rua, repressão policial, mãos dadas em fileiras fechadas e uma possibilidade palpável de existir a partir da luta, que também se conectava à visibilidade.
A ditadura hetero-militar devia detestar esse cheiro, preferindo o de gás e borracha na carne das travestis, dos viados e das sapatões. Mesmo depois do fim da ditadura (1964-1985), a repressão mostrava uma predileção mórbida pelas dissidências sexuais e de gênero.
A Operação Tarântula (1987), realizada em São Paulo, atualizou em plena redemocratização a gramática autoritária do controle dos corpos: travestis foram perseguidas, detidas, humilhadas e convertidas em ameaça sanitária, como se a epidemia de HIV/Aids pudesse ser combatida pela limpeza moral das ruas. A democracia recém-anunciada não tocaria tão cedo as margens. Mas os boletins que circulavam de mão em mão no Brasil dos anos de chumbo chegavam.
Imprensa alternativa nos anos de chumbo
Em 1963, antes mesmo do golpe, circulava no Rio de Janeiro um jornal chamado O Snob. Mimeografado, artesanal, distribuído nos circuitos de sociabilidade homossexual da cidade. Sem pretensões políticas flagrantes, o jornal abria espaço para vozes dissidentes e para a formação de uma rede de pertencimento. Anos depois surgem o “Gente Gay” (1976) e “O Lampião da Esquina” (1978), O Lampião iluminava e amplificava denúncias, conectava sujeitos dispersos e produzia uma gramática comum para nomear violências e afirmar identidades.
Ao longo dos anos 1980, pelo menos dez grupos do movimento homossexual brasileiro lançaram publicações próprias, entre elas o boletim “ChanacomChana”, do Grupo de Ação Lésbico-Feminista. Nascido do racha com o Grupo Somos, motivado pelo machismo que atravessava também o movimento homossexual, o ChanacomChana inaugurou uma outra forma de comunicação política: autônoma, coletiva, marcada pela recusa à hierarquização das lutas, e marcada também pela politização do corpo, do cotidiano e da sexualidade. Tudo é político, tínhamos acabado de aprender com as feministas norte-americanas.
Luta contra a epidemia de Aids
A epidemia de HIV/Aids, que chegaria ao Brasil nos primeiros anos da década de 1980, reconfigurou profundamente esse campo de luta e articulações políticas. A imprensa hegemônica foi cúmplice ativa de um processo de morte civil, propagando metáforas estigmatizantes que converteram as sexualidades dissidentes em ameaça pública.
O movimento homossexual, como ainda era auto nomeado à época, foi migrando para as ONG/Aids e, estas se tornaram arenas de disputa por direitos, produção de saberes e incidência sobre políticas públicas. Naquele espaço, as travestis, muitas já organizadas no movimento de prostitutas, encontraram uma via de engajamento político que articulava combate à doença, enfrentamento ao preconceito e denúncia da violência cotidiana.
A luta contra a Aids foi também, nesse sentido, uma luta contra a transfobia e contra a gestão diferencial das vidas consideradas abjetas. Os Encontros Nacionais de Travestis e Transexuais (Entlaids), desde 1993, foram espaços de formulação de uma agenda própria que ia muito além da prevenção, incluíam violência policial, hormonoterapia e representação política. Daí nasceria, em 2002, a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).
Era da internet
A chegada da internet 2.0 ao Brasil, em 2004, não rompeu com esse legado; na verdade, o transforma e o torna mais complexo.
A comunidade LGBTQIAPN+ esteve entre as primeiras a se apropriar da rede como espaço de experimentação identitária e sociabilidade. O Orkut tornou-se ambiente frequentado por quem buscava referências sobre orientações sexuais para além do imperativo heterossexual. Listas de discussão e fóruns constituíram arenas de articulação política, ainda que o acesso fosse condicionado por classe, raça e infraestrutura.
O que muda, portanto, quando saímos do “Lampião da Esquina” e chegamos ao Instagram, ao TikTok, ao X? A disputa por visibilidade permanece central, mas as condições de sua produção se transformaram radicalmente.
Nas plataformas digitais, essa visibilidade é disputada com atores humanos e não humanos. Os algoritmos agem, produzem e definem quem aparece, para quem e em que contexto. O espaço digital deixa de ser um local onde se entra, ele passa a amalgamar off e on-line. Na mão das big techs, as redes sociais reproduzem na calibragem dos algoritmos, preconceitos e desigualdades estruturais.
Censura dos algoritmos
A moderação de conteúdo, por exemplo, silencia, remove e aplica shadowban em perfis LGBTQIAPN+ de forma desproporcional. Atualiza formas de censura já conhecidas, mas, agora sem carimbo de Estado. Operando a partir de linguagem técnica de sistemas automatizados, ela parece neutra, quando é, de fato, parte de uma arquitetura bem desenhada.
A isso chamamos de violência algorítmica: a operação estrutural das plataformas que reconfigura, em escala, os regimes de visibilidade e oprime desigualmente. Não são falhas pontuais; são efeitos de como a arquitetura sociotécnica das big techs reproduz e amplifica hierarquias de gênero, sexualidade, raça e classe, muitas vezes com uma eficiência que a censura explícita jamais alcançaria.
Das ruas da Lapa aos grupos do WhatsApp, dos boletins mimeografados às lives de junho, o movimento LGBTQIAPN+ nunca esperou permissão para se comunicar. Fez da palavra, afeto, e da visibilidade, trincheira. Se hoje o inimigo opera por código, a resposta segue sendo a mesma de sempre: organização, presença e amor, um tipo de devolutiva que a repressão, seja ela policial ou algorítmica, nunca conseguiu silenciar por completo.
Bruna Andrade Irineu é professora da UFMT e pesquisadora CNPq. Larissa Pelúcio é professora da Unesp e pesquisadora CNPq. Ambas são coautoras de Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência (ABETH, 2025).