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Amarelinha: a origem do uniforme da Seleção após um trauma

Do branco ao amarelo, a história do uniforme da Seleção brasileira foi redefinida por pesadelo da Copa de 1950

Camisa Seleção capa
Esboços de Aldyr Schlee, idealizador da "Amarelinha", em exposição no Museu do Futebol - Fabio Previdelli/Arquivo AH

A Seleção Brasileira, para além da tradição nos gramados e do pentacampeonato mundial, também é sinônimo de identidade visual na história das Copas do Mundo e das competições internacionais. Não é difícil associar a tradicional camisa amarela e o calção azul a jogadores decisivos da história do nosso futebol, como Pelé, Ronaldo, Garrincha, Rivaldo, Zico e Rivelino. A combinação entre as cores marcantes e a presença envolvente em campo nos rendeu até apelido: “Seleção Canarinho”.

Seleção Brasileira na Copa de 1970
Seleção Brasileira na Copa de 1970 – Domínio Público via Wikimedia Commons

Talvez a única característica histórica que possa ser comparada à excelência do futebol disputado pela Seleção seja, justamente, o peso de sua camisa. Idealizada pelo escritor Aldyr Schlee, a “Amarelinha” só não possui um visual tão marcante quanto a curiosa história por trás de sua origem.

Os primeiros uniformes da Seleção

Nem amarelo, nem azul. Em 1914, 0 primeiro uniforme usado em partidas oficiais da Seleção Brasileira era predominantemente branco, com discretas faixas azuis no entorno do calção e da camisa. A ideia pode parecer estranha em um primeiro momento, mas vem de uma prática comum à época. Nas primeiras décadas de profissionalização e internacionalização do futebol, as equipes adversárias, por via de regra, vestiam uniformes com cores mais neutras e opostas entre si (como preto e branco, por exemplo). O próprio número do jogador na traseira da camisa ainda era uma ideia experimental, que viria a ser oficializada pela Associação de Futebol da Inglaterra só em 1933.

Com a instituição da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) em 1916, o uniforme branco foi adotado como traje oficial do Brasil nas partidas de futebol. A camisa deste modelo, branca com listras azuis e cordinhas na gola, foi usada por 15 anos praticamente sem alterações. Já nas décadas de 1920 e 1930, com a disputa das primeiras Copas do Mundo, o bermudão branco foi substituído pelo azul, e a combinação das duas cores prevaleceu até 1950, com a primeira Copa sediada no Brasil.

O motivo para a aposentadoria da camisa branca não foi feliz, e faz parte de um antigo trauma conhecido pelos torcedores e entusiastas da história da Seleção: o “Maracanaço”.

A derrota fatídica em casa na final contra o Uruguai — uma virada por 2×1 em um lotado Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro — viria a marcar negativamente a imagem pública da Seleção à época. A associação com o uniforme era inevitável, e torcedores supersticiosos passaram a ver a camisa como símbolo de azar. Foi partindo destas lamúrias que os dirigentes da CBD optaram por descontinuar o uso do branco como cor oficial da equipe.

Registro de gol no Maracanaço
Registro de gol no Maracanaço – Getty Images

A camisa branca ainda resistiria a poucos amistosos internacionais, e só voltou a ser usada oficialmente em 2004, em ocasião única: a disputa de um jogo comemorativo contra a França, celebrando os 100 anos da FIFA e os dois últimos campeões mundiais. O placar, infelizmente, não refletiu o simbolismo da partida: 0x0.

Um dos substitutos ao branco foi o uniforme predominantemente azul, que se destacou na conquista do primeiro campeonato mundial da Seleção: a Copa de 1958, na Suécia. O Brasil venceu os donos da casa em uma finalíssima por 5 a 2, incluindo um jovem Edson Arantes do Nascimento já fazendo história no elenco, com seus incríveis 17 anos.

Curiosamente, o primeiro registro do uso do uniforme azul em partidas oficiais aconteceu ainda na Copa de 1938, em um Brasil x Polônia. Ambos os times usavam camisas brancas por padrão, e a equipe brasileira foi sorteada para trocar o traje antes da disputa. O resultado foi um jogaço com vitória dos brasileiros por 6 a 5.

A criação da “Amarelinha”

A tradicional camisa amarela da Seleção Canarinho foi criada em 1952, apenas dois anos após o Maracanaço. Na ocasião, a CBD anunciou um grande concurso para decidir qual seria o uniforme oficial da entidade nas futuras competições: qualquer torcedor interessado poderia enviar à organização um esboço do traje que idealizou, e a CBD escolheria o que melhor representasse o Brasil.

O grande ganhador foi o escritor e desenhista Aldyr Schlee, que trouxe o amarelo em destaque na camisa da Seleção Brasileira. Não demorou muito para que o apelido pegasse: “Amarelinha”, o manto que virou sinônimo da excelência do futebol brasileiro diante do mundo, vestido por lendas que mudaram a história do esporte.

Desde então, a Amarelinha esteve presente como camisa titular em 4 dos 5 títulos mundiais do Brasil, incluindo o histórico tricampeonato na Copa de 1970 no México, e segue fazendo história como um dos símbolos mais reverenciados da história do futebol.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.