Mehdi Faria, o brasileiro considerado o rei do futebol marroquino
Conhecido como 'Mago', Mehdi Faria levou time do Marrocos a se tornar a primeira seleção africana classificada para a fase de mata-mata em uma Copa do Mundo

Por cinco anos, a seleção do Marrocos esteve sob o comando de um brasileiro: José Faria. Ele, que mais tarde (após se converter ao islamismo) adotaria o nome Mehdi Faria, liderou os Leões do Atlas entre os anos de 1983 e 1988. Nesse período, o time se tornou a primeira seleção africana a se classificar para a fase de mata-mata de uma Copa do Mundo. O feito se deu no Mundial de 1986, no México. A história, no entanto, começou muito antes, nos subúrbios do Rio de Janeiro.
Nascido em 1933, José Faria cresceu no bairro de Ramos e teve uma relação modesta com o futebol. Diferentemente de muitos treinadores famosos, ele não construiu carreira de destaque como jogador profissional. Na verdade, o protagonista de nossa história trabalhou como operador de rádio na Petrobras e conciliava a profissão com sua paixão pelo esporte. Seus primeiros passos como treinador aconteceram nas categorias de base do Bonsucesso e, posteriormente, do Fluminense.
A vida era simples. Morava em uma pequena quitinete em Laranjeiras e passava por dificuldades financeiras com a esposa e os filhos. Ainda assim, dedicava boa parte do tempo a observar partidas em praias e campos de várzea em busca de talentos. Naquele tempo, destaca o portal Trivela, o treinador levava lanches para jovens jogadores e conquistava a confiança de famílias inteiras. Entre os atletas que ajudou a desenvolver estava Edinho, que anos depois se tornaria capitão da seleção brasileira.
No Fluminense, Faria ganhou reputação como formador de jogadores. Ele, que era conhecido por incentivar dribles, ainda aperfeiçoava passes e trabalhava intensamente a técnica individual. Costumava dizer que era um treinador de campo, não de quadro-negro.
Uma nova oportunidade
A oportunidade de mudar de vida surgiu em 1979, quando, por meio de contatos no futebol, recebeu um convite para trabalhar no Catar. Por lá, dirigiu equipes de base a princípio. Mais tarde assumiu o Al-Sadd, conquistando títulos nacionais. O sucesso logo chamou atenção de dirigentes marroquinos.
Acontece que o governo do Marrocos procurava na época um novo treinador para o FAR Rabat, clube ligado às Forças Armadas — e o próprio rei Hassan II participou da escolha. Entre os nomes avaliados estavam os brasileiros Vavá, Esquerdinha e José Faria. Embora os primeiros fossem mais conhecidos, foi o carioca quem conquistou a confiança do monarca.
Foi a escolha perfeita, já que, em pouco tempo, Faria transformou o FAR Rabat em uma potência local. Já em 1984, encerrou um jejum de 14 anos sem títulos nacionais e, no ano seguinte, levou o clube à conquista da Copa dos Campeões da África, tornando-se a primeira equipe marroquina a alcançar o topo do futebol continental. Enquanto acumulava sucessos no clube, também assumia a seleção marroquina.
O país atravessava um período de renovação após a geração que havia disputado a Copa do Mundo de 1970. Com paciência, Faria começou a construir uma equipe baseada em disciplina tática, defesa sólida e boa circulação de bola.
Seu trabalho logo deu resultados. O Marrocos estava havia 12 anos sem participar das Olimpíadas, mas em 1984 conseguiu se classificar para os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Segundo o Trivela, embora a campanha olímpica tenha sido modesta, ela serviu para consolidar uma base de jogadores que ganharia experiência internacional.

Uma figura paterna
Mais importante que os resultados, porém, era a relação construída entre treinador e elenco. Muitos atletas passaram a vê-lo como uma figura paterna. Seu jeito simples e acessível criava um ambiente de confiança e, mesmo décadas depois, vários jogadores ainda se refeririam a ele como um segundo pai.
O reconhecimento ultrapassava os gramados. Faria tornou-se uma celebridade nacional. Os torcedores o chamavam de “O Mago”, enquanto Hassan II frequentemente o consultava sobre assuntos relacionados à seleção. A proximidade entre os dois era tanta que, em partidas importantes, o rei chegava a telefonar diretamente para o banco de reservas para conversar com o treinador durante os jogos.
Não sou o Pelé, mas eles me tratam como se eu fosse o Pelé dos treinadores. Não posso caminhar tranquilo pelas ruas, porque tenho que ficar atendendo a pedidos de autógrafos, abraços, fotos e tudo mais que nunca tive no Brasil”, disse, certa vez, ao Jornal do Brasil.
Em meio a esse processo de integração, José Faria desenvolveu uma ligação profunda com o país. Diferentemente do período em que trabalhou no Catar, onde recusou propostas para mudar de religião, no Marrocos decidiu converter-se ao islamismo por convicção pessoal. Encantou-se com aquilo que descrevia como valores de tolerância, solidariedade e compaixão presentes na sociedade marroquina.
A mudança foi oficializada pouco antes da Copa do Mundo de 1986. A partir daquele momento, José Faria passou a ser conhecido como Mehdi Faria.
Uma virada histórica
No campo, a seleção começava a chamar atenção. A equipe utilizava um sistema que equilibrava organização defensiva e mobilidade ofensiva. Embora respeitasse a disciplina tática, Faria valorizava a criatividade dos jogadores e procurava incorporar elementos do futebol brasileiro ao estilo marroquino.
Classificado para o Mundial do México, o Marrocos caiu em um grupo considerado extremamente difícil, ao lado de Inglaterra, Polônia e Portugal. Poucos especialistas acreditavam que os africanos teriam chances de avançar.
A estreia terminou em empate sem gols contra a Polônia. Em seguida, veio outro empate por 0 a 0 diante da Inglaterra. Apesar da ausência de vitórias, a equipe seguia competitiva. Tudo seria decidido na última rodada, contra Portugal.
E o que aconteceu naquele dia entrou para a história. Surpreendendo a todos, o Marrocos venceu por 3 a 1 o time ibérico e garantiu a classificação às oitavas de final. Ainda mais inacreditável foi o fato de ter terminado a fase de grupos na liderança, à frente de três tradicionais seleções europeias.
Pela primeira vez, uma seleção africana avançava para a fase eliminatória de uma Copa do Mundo.
Vão se passar muitas gerações até que um feito como esse seja igualado. Meu Deus, nós chegamos à frente de três potências europeias, times de tradição, incluindo aí os criadores do futebol. Já nos consideramos campeões do mundo”, diria Faria à revista Placar.

O rei do futebol marroquino
A repercussão foi imediata. O próprio rei Hassan II telefonou para a delegação e fez questão de parabenizar cada integrante da equipe. Para Mehdi Faria, reservou palavras especiais. Segundo relatos da época, afirmou que, enquanto ele era o rei da política, o brasileiro havia se tornado o rei do futebol marroquino.
Nas oitavas de final, o adversário seria a poderosa Alemanha Ocidental. O confronto foi equilibrado e, durante boa parte da partida, os marroquinos resistiram à pressão europeia graças à atuação inspirada do goleiro Badou Zaki.
A eliminação veio apenas nos minutos finais, quando Lothar Matthäus marcou o gol da vitória alemã em cobrança de falta.
Apesar da derrota por 1 a 0, o Marrocos deixou o México sob aplausos. Torcedores locais adotaram a equipe como uma das favoritas do torneio, encantados não apenas pelo futebol apresentado, mas também pela simpatia dos jogadores e da comissão técnica.
Recepção calorosa
O retorno ao país foi grandioso. Os atletas desfilaram em carro aberto e foram recebidos como heróis nacionais. Nas décadas seguintes, seria esse mesmo sentimento de orgulho que ajudaria a impulsionar o futebol marroquino.
Mehdi Faria seguiu no comando da seleção até 1988. Depois disso, passou a trabalhar em clubes do país. Mesmo após sua aposentadoria, nunca deixou de ser reverenciado, tanto que, em 2013, recebeu homenagens públicas diante de milhares de torcedores durante um evento especial em Tânger. Três dias depois, faleceu aos 80 anos.
Na época, a família real divulgou uma nota destacando as contribuições do Mago para o desenvolvimento do futebol nacional. Houve ainda declarações daqueles que participaram das conquistas ao lado de Faria, como é o caso do agora técnico Abdelmalek El Aziz:
Faria foi um professor, um esportista e um psicólogo. Eu perdi em Faria um irmão e um grande amigo. Devo muito a Faria, como técnico e como mestre. Ele me apoiou fortemente em várias ocasiões e me deu conselhos valiosos. Não só a mim, mas a tantos jogadores”, disse ao jornal Les Temps.