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Como a civilização Tiwanaku, a ‘cultura mãe’ da América do Sul, desapareceu

Saiba o que, na visão de especialistas, teria levado uma das mais sofisticadas civilizações antigas a desaparecer misteriosamente

Detalhe de guerreiros em um tecido de Tiwanaku do século 12 - Crédito: Getty Images

Conhecida como a “cultura mãe” da América do Sul, a civilização Tiwanaku (ou Tiahuanaco), dominou grande parte do continente por séculos, destacando-se como uma das mais sofisticadas da história.

Essa impressionante civilização que floresceu entre 400 d.C. e 900 d.C. e ergueu uma quantidade impressionante de edifícios e pirâmides tinha como centro espiritual e político a cidade-estado de Tiwanaku, que ficava a uma altitude de quase 4.000 metros acima do nível do mar e cerca de 74 km a oeste da atual La Paz.

“Era uma cidade brilhante, que tinha de 4 a 6 quilômetros quadrados. Uma parte dessa área estava repleta de pirâmides de pedra, palácios e residências para a elite. Além disso, foram construídas moradias para o restante da população que se estendiam até o lago. Isso dá cerca de 20 quilômetros, um espaço bastante extenso”, disse Charles Stanish, antropólogo da Universidade do Sul da Flórida, em entrevista concedida à BBC Mundo no ano de 2024.

Conforme a fonte, a cidade em questão contava com bairros bastante diferentes e sua população era composta por diversas etnias. Especialistas também apontam que ela foi projetada com uma finalidade clara: atrair gente de todos os cantos.

Provavelmente diferentes idiomas eram ouvidos na cidade. Grandes cerimônias e festivais eram organizados para atrair pessoas e fortalecer o comércio. Seus tecidos são absolutamente impressionantes, sua cerâmica é linda”, afirma Stanish.

Uma economia pujante

A economia local baseava-se no comércio e na agricultura. Seus quase 50.000 campos agrícolas, conhecidos como sukakollos, contavam com uma tecnologia de irrigação bastante surpreendente, a qual permitia que eles se adaptassem facilmente mesmo diante de desafios climáticos.

Essas inovações foram adotadas por civilizações posteriores e se estenderam até Cusco”, diz a Unesco.

Além disso, é importante destacar que o povo de Tiwanaku estabeleceu colônias em uma área cujo tamanho é comparável ao do estado da Califórnia. Nesses locais, criaram, por exemplo, lojas de artesanato e estabeleceram seu poder político e econômico.

Sítio arqueológico Tiwanaku encontrado na Bolívia – Crédito: Getty Images

Eles conseguiam objetos da floresta tropical e os comercializavam com pessoas do sul, nas encostas dos Andes, desde a cidade peruana de Moquegua até San Pedro de Atacama, no Chile”, acrescenta Stanish.

Eles se comportavam como um imperialismo clássico, traziam matérias-primas e fabricavam determinados produtos, especialmente cerâmica e tecidos. Tinham compostos alucinógenos que eram muito populares na época, trabalhavam com pedra e metal, tinham toda uma gama de atividades. E sobreviveram durante centenas de anos”, prossegue.

Desaparecimento misterioso

O antropólogo destaca contudo que, embora Tiwanaku tenha exercido grande influência, a civilização acabou desaparecendo misteriosamente sem deixar para trás muitas pistas sobre a causa de seu colapso.

Temos muitos mistérios pra resolver, como o seu desaparecimento e a tecnologia que usaram para transportar pedras de mais de 140 toneladas que foram retiradas de pedreiras a mais de 50 quilômetros da cidade”, disse à BBC o arqueólogo boliviano Luis Miguel Callisaya.

Sabemos que, embora tenham absorvido parte da cultura de das tecnologias desenvolvidas por esse povo, os incas não habitaram os Andes até o século 13. Muitas são as hipóteses que buscam explicar o colapso e o desaparecimento dos Tiwanaku. Contudo, muito se perdeu de sua história ao longo dos séculos.

A principal tese

A tese mais difundida é a de uma crise ambiental que ocasionou em uma seca prolongada. Como destaca Callisaya, a descoberta de 19 ossadas de jovens que “consideramos que foram parte de uma oferenda para enviar uma mensagem pedindo chuva aos deuses” é uma das evidências que apontam nessa direção.

Stanish complementa que a civilização não desapareceu de uma hora para outra: ela levou pelo menos 200 anos. E também não houve um colapso biológico. Na verdade, destaca, o mais provável é seus habitantes tenham simplesmente se dispersado.

Sítio arqueológico Tiwanaku na Bolívia – Crédito: Getty Images

Sabemos que não foi uma doença que dizimou a população. Fala-se que a razão é uma seca que afetou os sistemas agrícolas e também que houve invasores que vieram do sul. Essa foi a narrativa registrada por muitos historiadores espanhóis”, explica o arqueólogo.

Não houve uma causa única

De acordo com Stanish, não houve uma causa única para o desaparecimento. Na verdade, foi a convergência de diversos fatores. Muito provavelmente uma das principais delas foi o fato dos camponeses, insatisfeitos com a elite e com os governantes da época, terem promovido uma grande revolta.

A consequência foi que, aquilo que mantinha unido o sistema político de Tiwanaku (a saber, a agricultura e a riqueza que ela produzia), caiu gradualmente em desuso. Vieram então grandes mudanças, tanto em relação à saúde, quanto à demografia, mesmo às estratégias de subsistência do povo. Tudo isso culminaria em uma diáspora.

“A primeira etapa foi uma diáspora colonizadora e limitada a lugares de altitude intermediária. A segunda etapa foi uma diáspora muito mais extensa, impulsionada pela desintegração violenta das colônias em torno de 1000 d.C, junto com o colapso da cidade de Tiwanaku ou sua reorientação radical por uma elite militar”, diz Bruce D. Owen em seu estudo “Distant Colonies and Explosive Collapse: The Two Stages of the Tiwanaku Diaspora in the Osmore Drainage” (“Colônias Distantes e Colapso Explosivo: As Duas Etapas da Diáspora de Tiwanaku na Drenagem de Osmore”, em tradução livre).

Parte da população se dirigiu para áreas pouco povoadas e estabeleceu pequenas aldeias. Uma outra parcela foi para regiões onde já havia populações maiores e acabou integrada como uma minoria de menor status.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.