Escavação revela 7 mil anos de ocupação humana no vale do Meuse, na França
Pesquisa realizada em Ancemont identificou vestígios que vão do Neolítico à Primeira Guerra Mundial e mostra ocupação contínua da região ao longo de milênios

Uma escavação arqueológica realizada em Ancemont, no vale do Meuse, na França, revelou evidências de ocupação humana que se estendem por aproximadamente 7 mil anos. Conduzido por uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas (Inrap), o trabalho explorou uma área de 3,5 hectares entre junho e outubro de 2025 e identificou vestígios que vão do Neolítico até a Primeira Guerra Mundial.
A pesquisa foi realizada como parte de um projeto de ampliação de uma pedreira a céu aberto e permitiu documentar uma sucessão de ocupações humanas em diferentes períodos históricos. E acordo com a Inrap, embora nem todas as fases tenham sido contínuas, os arqueólogos destacam que o local foi frequentemente reutilizado ao longo dos milênios.
Ocupação moldada pela paisagem

A área estudada está situada na encosta oeste do vale do Meuse, marcada por um desnível de aproximadamente 40 metros e inclinação média de 10%. Segundo os pesquisadores, as características geomorfológicas do terreno influenciaram diretamente a preservação e a visibilidade dos vestígios arqueológicos.
Apesar das dificuldades impostas pelo relevo, os resultados mostram que diferentes comunidades conseguiram adaptar suas atividades às condições locais. A recorrência de ocupações sugere que a região possuía vantagens funcionais ou econômicas, como recursos naturais, circulação facilitada, drenagem ou pontos estratégicos de observação.
Primeiros vestígios da pré-história
Os indícios mais antigos encontrados remontam ao Neolítico, entre 6.000 e 2.300 a.C. Embora discretos, eles incluem peças de sílex trabalhadas e uma ponta de flecha, indicando atividades ligadas à caça.
Outra fase identificada corresponde ao período entre o final da Idade do Bronze Antiga e o Bronze Médio, aproximadamente entre 1.750 e 1.500 a.C. Nesse momento, foram registradas estruturas profundas interpretadas como armadilhas de caça.
Uma dessas estruturas continha os restos de um jovem bovídeo. A datação por radiocarbono situou a morte do animal entre 1.740 e 1.539 a.C., confirmando a antiguidade da ocupação.
Uma comunidade estruturada na Idade do Bronze

A ocupação mais expressiva da pré-história foi registrada durante o Bronze Final, entre 1.200 e 800 a.C. Os arqueólogos identificaram uma ampla variedade de estruturas, incluindo fossas, silos, pequenos fornos, poços, sumidouros e buracos de poste relacionados a construções.
O conjunto sugere a existência de um assentamento permanente, dotado de atividades domésticas, artesanais e hidráulicas. Entre os objetos encontrados estavam cerâmicas completas, pesos e fusaiolas utilizados na tecelagem, além de um alfinete produzido em liga de cobre.
Os pesquisadores também registraram o sepultamento de uma criança dentro da área habitada, um elemento considerado raro e que sugere uma integração entre práticas funerárias e o cotidiano da comunidade.
Transformações na Idade do Ferro e no período romano

Vestígios atribuídos ao Hallstatt Final e à fase inicial de La Tène, entre 650 e 400 a.C., indicam uma ocupação mais discreta da região. Segundo os arqueólogos, mudanças ambientais e possíveis instabilidades do terreno podem ter contribuído para uma reorganização do território.
Posteriormente, entre cerca de 70 a.C. e 14 d.C., o local passou por uma profunda transformação. Foram identificados edifícios sustentados por grandes postes, estruturas de fundação, adegas e um eixo de circulação que organizava o espaço.
Os vestígios indicam um assentamento permanente integrado às dinâmicas territoriais do início do período galo-romano. O caminho identificado apresentava diversas camadas de uso e marcas de circulação, reforçando seu papel como elemento estruturante da ocupação.
Trincheiras da Primeira Guerra Mundial
A fase mais recente identificada na escavação corresponde ao início da Primeira Guerra Mundial. Os arqueólogos encontraram duas linhas de trincheiras que faziam parte de um sistema defensivo criado para proteger o vale do Meuse e impedir o avanço das tropas alemãs.
Embora essas estruturas não tenham sido utilizadas em combate, elas demonstram que a área continuou sendo considerada estratégica até os tempos contemporâneos.
Um registro raro da ocupação do vale
Ao todo, a escavação identificou 826 anomalias arqueológicas, reduzidas para cerca de 680 vestígios após verificações. O trabalho pós-escavação e novas datações por radiocarbono ainda estão em andamento e devem refinar a cronologia de algumas fases.
Para os pesquisadores, a principal contribuição da descoberta é demonstrar a continuidade da ocupação humana em um mesmo setor da paisagem ao longo de milhares de anos. Os vestígios revelam como diferentes comunidades reutilizaram, transformaram e reinterpretaram o espaço, deixando registros que ajudam a reconstruir a história do vale do Meuse desde a pré-história até a era contemporânea.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes