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As ‘Garotas do Rádio’, que pintavam relógios com elemento tóxico durante a Primeira Guerra Mundial

As chamadas Garotas do Rádio desenvolveram sérios problemas de saúde — e muitas morreram cedo — devido ao contato diário com rádio

Na foto estão cinco das 'Garotas do Rádio'. Da esquerda para a direita, Quinta McDonald, Edna Hussman, Albina Larice (irmã de McDonald), Katherine Schaub e Grace Fryer - Crédito: Getty Images

Para muitas mulheres, a Primeira Guerra Mundial representou, a entrada para o mercado de trabalho. Enquanto os homens guerreavam no front, eram elas quem proviam o sustento de casa e garantiam a continuidade da produção nas fábricas. Naquela época, poucas oportunidades pareciam tão atraentes quanto o emprego de pintar relógios e instrumentos militares. Bem remuneradas, as operárias incumbidas dessa tarefa trabalhavam em ambientes considerados modernos. No entanto, o que parecia um trabalho dos sonhos acabou transformando suas vidas para sempre — infelizmente, não de forma positiva. Na verdade, o caso das “Garotas do Rádio”, como essas operárias ficaram conhecidas, foi uma das maiores tragédias industriais ocorridas no século 20.

Acontece que essas garotas, que atuavam em fábricas espalhadas por estados dos EUA como Nova Jersey, Illinois e Connecticut utilizavam em seu trabalho uma tinta luminosa à base de rádio. A substância utilizada era considerada estratégica para o esforço de guerra. Funcionava da seguinte maneira: relógios, bússolas e instrumentos militares brilhavam no escuro, servindo de grande auxílio para soldados.

Um elemento perigoso

O rádio havia sido descoberto em 1898 pelo casal de cientistas Marie Curie e Pierre Curie. Na época, o elemento foi tratado quase como um milagre científico. Além de produzir brilho luminoso, acreditava-se que possuía propriedades medicinais capazes de curar do câncer à acne. Logo, o rádio começou a ser adicionado a cosméticos, pastas de dente, águas tônicas, chocolates e até bebidas alcoólicas.

As jovens contratadas pela United States Radium Corporation, que recebiam salários até três vezes maiores do que os oferecidos em outras ocupações femininas da época, haviam sido informadas de que a substância era completamente segura. Sem qualquer equipamento de proteção, elas eram incentivadas a afinar os pincéis com os próprios lábios para conseguir traços mais precisos nos mostradores dos relógios. Desse modo, ingeriam diariamente pequenas quantidades de material radioativo.

As garotas do rádio não sabiam do perigo que envolvia o pó brilhante e muitas até gostavam do efeito luminoso, chegando a usar seus melhores vestidos no trabalho para “brilhar” em festas à noite. Pior: algumas passavam tinta nos dentes ou no rosto por diversão.

Durante algum tempo, o emprego pareceu perfeito. Era leve, relativamente sofisticado e garantia independência financeira em uma época em que poucas mulheres tinham acesso a bons salários. Muitas operárias inclusive indicavam amigas e parentes para trabalhar nas fábricas. Na década de 1920, cerca de 300 mulheres atuavam como garotas de rádio nos Estados Unidos.

Fotografia de Pierre e Marie Curie / Foto por Smithsonian Institution pelo Wikimedia Commons

Surgem os sintomas

Uma das primeiras vítimas a apresentar sintomas de intoxicação por rádio foi Mollie Maggia, no ano de 1922. Sentindo dor de dente, a mulher procurou um dentista. O profissional realizou a extração de alguns dentes — mas as feridas não cicatrizavam. Pelo contrário: sangue e pus começaram a ser produzidos continuamente. Durante uma cirurgia para tratar um suposto abscesso, o dentista percebeu que o osso da mandíbula de sua paciente havia se deteriorado completamente. Ao tocá-lo, ele literalmente se desfez. Parecia uma cena de filme de horror.

Nos meses seguintes, grande parte da mandíbula de Maggia precisou ser removida. Ela morreu não muito depois, prestes a completar 25 anos, porque tumores destruíram sua veia jugular, causando uma hemorragia fatal. Apesar disso, sua certidão de óbito registrou erroneamente sífilis como causa da morte, desacreditando a ligação com o rádio.

O caso não foi isolado. Na verdade, diversas foram as operárias que passaram a sofrer com dores intensas nos dentes, feridas na boca, necrose óssea, fadiga extrema, anemia e câncer. Muitas perderam dentes, desenvolveram tumores e tiveram dificuldades até para se alimentar. Algumas, assim como Mollie, morreram ainda muito jovens.

Muda a percepção pública

Enquanto tudo isso acontecia, a percepção pública sobre o rádio passava por um processo de transformação, até porque o médico George Willis, ligado à própria empresa, também adoeceu e desenvolveu câncer. Em 1923, ele admitiu em documento que a exposição contínua ao rádio poderia provocar graves danos à saúde dos trabalhadores e, na mesma época, um estudo encomendado pela empresa concluiu discretamente que o material era perigoso. A companhia tentou ocultar os resultados, mas os casos de doença entre as operárias já eram numerosos demais para serem ignorados.

Em 1927, cinco sobreviventes lideradas por Grace Fryer decidiram processar a United States Radium Corporation. O caso ganhou repercussão nacional. A opinião pública ficou chocada ao descobrir que jovens mulheres, muitas delas mães, haviam sido expostas a uma substância tóxica sem qualquer proteção e a empresa acabou aceitando um acordo judicial, à medida que os perigos da radiação se tornavam cada vez mais conhecidos.

Infelizmente, porém, para muitas das garotas do rádio essa resolução veio tarde demais. Muitas morreram de leucemia, câncer ósseo e outras doenças causadas pela exposição radioativa. Outras passaram décadas acamadas ou precisaram amputar membros.

No fim, a luta das garotas ajudou a transformar as leis trabalhistas dos Estados Unidos, fortalecendo direitos e estabelecendo novos padrões de segurança industrial. Além disso, o escândalo também influenciou futuras regulamentações de saúde ocupacional e contribuiu para o surgimento de órgãos voltados à proteção no ambiente de trabalho.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.