Notícias / Arqueologia

Estudo revela prática funerária rara na Escócia pré-histórica

Esqueleto de mulher mostra sinais de remoção do cérebro e alteração de ossos antes do sepultamento definitivo na Escócia há 2.000 anos

Marcas de corte no interior do crânio do Indivíduo 1 / Crédito: Castells Navarro et al. / Antiquity Publications Ltd.

Um ritual funerário realizado há cerca de 2.000 anos no norte da Escócia está oferecendo novas pistas sobre práticas mortuárias e relações sociais na pré-história britânica. Uma nova análise de esqueletos encontrados na região revelou que uma mulher teve o cérebro removido após a morte e alguns de seus ossos foram transformados em ferramentas antes de serem recolocados em seu túmulo.

Os restos mortais foram descobertos em 2000 durante escavações em um pequeno monte de pedras próximo a Loch Borralie, no extremo norte da Escócia. A investigação começou depois que moradores relataram a presença de ossos humanos que haviam sido trazidos à superfície por coelhos.

No interior da estrutura retangular, arqueólogos encontraram esqueletos parciais de um adulto e de um adolescente, ambos enterrados entre o século 1 a.C. e o século 1 d.C., durante a Idade do Ferro.

Na época da descoberta, um relatório sugeriu que os danos observados nos ossos poderiam ter sido causados por animais. No entanto, um estudo publicado nesta quarta-feira, 10 de junho, na revista Antiquity aponta que parte dessas alterações foi feita deliberadamente por seres humanos em um ritual funerário que pode ter envolvido a veneração de um ancestral importante — e até mesmo canibalismo.

Detalhes

A análise identificou que o esqueleto adulto, chamado pelos pesquisadores de “Indivíduo 1”, pertencia a uma mulher com mais de 30 anos. Os especialistas encontraram uma fratura incomum na base do crânio, além de marcas produzidas por um instrumento afiado na parte interna da cabeça.

“Em conjunto, a fratura da base craniana e as marcas de corte internas sugerem a remoção deliberada do cérebro logo após a morte deste indivíduo”, escreveram os pesquisadores no estudo.

Segundo os autores, a retirada do cérebro pode ter ocorrido em um contexto de canibalismo ou como parte de um processo destinado a limpar e preservar o crânio para exibição.

Os pesquisadores também verificaram alterações em quatro ossos da mulher — três do braço e um da perna. Diferentemente do que se acreditava anteriormente, os danos não foram provocados por animais. As análises mostraram que os ossos haviam sido trabalhados de forma intencional.

As “camadas internas dos ossos foram entalhadas/trabalhadas até apresentarem uma borda afiada e uma única ponta”, escreveram os pesquisadores.

Apesar dessas modificações, os responsáveis pelo sepultamento recolocaram os ossos em suas posições anatômicas corretas antes do enterro definitivo, indicando um cuidado incomum com os restos mortais, repercute o Live Science.

“A motivação por trás da extensa manipulação dos restos mortais do Indivíduo 1 é muito difícil de interpretar”, disse em comunicado a primeira autora do estudo, Laura Castells Navarro, arqueóloga da Universidade de York, no Reino Unido. “No entanto, o cuidado com que ela foi remontada e depositada no monte de pedras possivelmente sugere que ela inspirava um certo nível de reverência e respeito por parte de sua comunidade.”

O segundo esqueleto encontrado no túmulo, denominado “Indivíduo 2”, era de um adolescente do sexo masculino que morreu por volta dos 15 anos. Diferentemente da mulher, ele não apresentava qualquer sinal de manipulação pós-morte.

Ossos talhados, possivelmente usados como ferramentas, encontrados na sepultura / Crédito: Castells Navarro et al. / Antiquity Publications Ltd.

Análises de DNA antigo indicaram que os dois indivíduos possivelmente eram primos de segundo grau, compartilhando um mesmo par de bisavós. O material genético também revelou ligações distantes com pessoas enterradas em outros sítios pré-históricos da Escócia, incluindo as remotas Ilhas Órcades.

Os resultados reforçam a ideia de que as populações da região mantinham contatos frequentes ao longo de grandes distâncias, em uma área que hoje possui baixa densidade populacional, mas que concentra uma grande quantidade de túmulos pré-históricos.

“De forma mais ampla, nossa pesquisa mostra que as comunidades marítimas pré-históricas se deslocavam periodicamente pela costa norte e pelas Ilhas do Norte da Escócia, possivelmente em pequenos grupos”, disse Castells Navarro.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.