Raios X revelam símbolos nazistas ocultos em pintura de Erich Mercker
Exames de raios X identificaram bandeira nazista, saudações e outros elementos escondidos sob camadas de tinta aplicadas após a guerra em obra de Erich Mercker

Uma pintura do artista alemão Erich Mercker escondeu por décadas elementos ligados ao regime nazista sob camadas de tinta adicionadas após a Segunda Guerra Mundial. A descoberta foi feita por pesquisadores que utilizaram exames de raios X para analisar o interior da obra e identificar alterações realizadas depois de sua criação.
Conhecida como “Die Stätte des 9. November” (A Rua do 9 de Novembro), a pintura retrata a Odeonsplatz, em Munique, e um monumento relacionado ao fracassado Putsch da Cervejaria Nazista de 1923. Na versão visível atualmente, a cena aparentava não conter símbolos políticos explícitos. Uma bandeira bávara azul e branca domina a composição, enquanto soldados e condecorações associadas ao nazismo não aparecem.
As suspeitas sobre possíveis modificações surgiram quando o cineasta Thomas Schuhbauer percebeu inconsistências entre a imagem e a época à qual ela parecia pertencer. Um dos indícios era a presença parcial de um memorial nazista que havia sido demolido logo após a rendição alemã em 1945. Além disso, pequenas marcas de tinta vermelha podiam ser observadas nas bordas da bandeira bávara.
A partir dessas pistas, Schuhbauer reuniu uma equipe multidisciplinar liderada pela física Ioanna Mantouvalou para investigar a obra. Os pesquisadores utilizaram espectroscopia de fluorescência de raios X, uma técnica não destrutiva frequentemente empregada na análise de obras de arte e objetos históricos. O método permite identificar elementos químicos presentes nos materiais e revelar imagens escondidas sob a superfície.
Detalhes do estudo
Os resultados, publicados em artigo da NPJ Heritage Science, mostraram que a composição original era significativamente diferente da versão atual. Sob a bandeira da Baviera, os pesquisadores encontraram vestígios de uma bandeira nazista vermelha. A disposição dos pigmentos indica que a imagem original provavelmente exibia uma suástica em seu centro.
As análises também revelaram outros elementos ocultos. Coroas de flores apareciam ao redor do monumento retratado, guardas uniformizados estavam posicionados na cena e duas figuras pareciam realizar a saudação nazista com os braços erguidos.
A investigação apontou ainda que as áreas modificadas continham grandes quantidades de pigmento branco de titânio, material ausente nas partes que permaneceram inalteradas. Ao comparar essas substâncias com tubos de tinta preservados no antigo estúdio de Mercker, os pesquisadores encontraram um exemplar do mesmo pigmento utilizado na repintura.
Informações adicionais vieram da análise do verso da obra. Uma inscrição parcialmente apagada preserva indícios do título original, Die Stätte des 9. November (A Rua do 9 de Novembro). Os pesquisadores também examinaram um código numérico registrado na parte traseira da pintura e concluíram que ela provavelmente foi produzida em novembro de 1934.
Mercker, nascido em Munique em 1891, alcançou grande reconhecimento durante o período nazista. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, produziu aproximadamente 3.000 pinturas. Uma parcela significativa de sua obra era dedicada a temas industriais e tecnológicos, área que lhe garantiu destaque durante o Terceiro Reich. Registros mostram que diversas de suas pinturas foram adquiridas pelo governo alemão e que ele participou de todas as Grandes Exposições de Arte Alemãs realizadas entre 1937 e 1944.
Após o fim da guerra, o artista continuou ativo e passou a revisitar trabalhos anteriores. Em várias versões posteriores da mesma praça de Munique, os símbolos nazistas foram substituídos por elementos neutros, transformando o local em uma paisagem urbana comum, repercute o Archaeology News.
Os pesquisadores acreditam que as alterações identificadas nesta pintura ocorreram entre 1945 e 1966. Ainda não é possível determinar se o próprio Mercker foi responsável pelas mudanças, embora os materiais utilizados e semelhanças com outras obras do período indiquem essa possibilidade.
Mesmo após a repintura, alguns traços da composição original permaneceram visíveis. A tinta vermelha da antiga bandeira continuou aparecendo em determinados pontos, partes do monumento foram preservadas e o título original foi apenas parcialmente ocultado. Para os pesquisadores, esses detalhes sugerem que a intervenção ocorreu de forma relativamente rápida, sem uma reformulação completa da obra.
Segundo a equipe, a pintura representa a primeira evidência concreta de que Mercker alterou uma obra para eliminar referências nazistas. Hoje, ela é vista como um registro das adaptações feitas em imagens politicamente sensíveis após a guerra, mostrando como símbolos do regime foram encobertos, mas não totalmente apagados.
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