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Tesouro da Idade do Ferro pode pertencer a rainha celta, na Inglaterra

Depósitos de mais de 950 artefatos da Idade do Ferro em Melsonby, na Inglaterra, sugerem funeral real de elite celta e conexão com a Europa continental

Túmulo descoberto em Melsonby / Crédito: Divulgação/Universidade de Durham

Dois importantes tesouros da Idade do Ferro encontrados no norte da Inglaterra podem estar ligados a um funeral real, possivelmente de uma rainha celta, segundo um estudo recente publicado na revista Antiquity. Os depósitos, descobertos perto da vila de Melsonby, em Yorkshire, incluem armas, vasos e carroças ou carros de metal queimados, e somam mais de 950 artefatos.

O achado foi inicialmente reportado por um detectorista em 2021, que alertou arqueólogos da região. Entre os objetos encontrados estão “aros” de ferro para rodas de madeira, um caldeirão, uma tigela ornamentada para misturar vinho e pontas de lança cerimoniais. Juntos, os dois depósitos constituem um dos maiores tesouros da Idade do Ferro já descobertos na Grã-Bretanha.

Tom Moore, arqueólogo da Universidade de Durham e coautor do estudo, destacou que Melsonby não apresenta sinais de sepultamento. “É evidente que Melsonby não foi um local de sepultamento, pois não temos nenhuma evidência de um corpo”, disse ele em um e-mail para a Live Science. “Então, nossa pergunta é: por que depositar esse material?”

Moore e sua equipe sugerem que a quantidade e a riqueza dos artefatos indicam que eles poderiam ter sido usados em um funeral de elite realizado pelos Brigantes, uma poderosa tribo celta que governava o sítio real de Stanwick, a poucos metros do local da descoberta. Na época, Stanwick funcionava como um “ópido”, uma vila fortificada típica das elites celtas, construída em áreas estratégicas para defesa.

Vaso de bronze decorado com rostos descoberto no local / Crédito: Divulgação/Universidade de Durham/Alexander Jansen

Vale mencionar que a queima ou destruição deliberada dos objetos também é considerada significativa. “Grande parte do material […] foi queimada a altas temperaturas — o suficiente para derreter liga de cobre e prata”, disse Moore. “Naquela época, a cremação estava se tornando um rito funerário popular entre as elites em algumas partes da Grã-Bretanha.” Apesar de nenhum corpo ter sido encontrado, os restos mortais podem ter sido enterrados em outro local.

A datação por radiocarbono indica que os artefatos datam do primeiro século a.C., e seu estilo e ornamentos, incluindo corais do Mar Mediterrâneo, revelam conexões das elites de Stanwick com a Europa continental. Fontes romanas posteriores mencionam que, após 69 d.C., os Brigantes eram governados por uma rainha chamada Cartimandua, mas os tesouros de Melsonby provavelmente pertenceram a ancestrais reais de gerações anteriores, destaca o Live Science.

Carroça antiga?

Uma descoberta notável foi a presença de suportes de ferro em forma de U, identificados como partes de carroças de quatro rodas, comuns no continente europeu, mas inéditas na Grã-Bretanha. “O fato de termos elementos que só podem ser atribuídos a esses veículos… é inédito na Grã-Bretanha”, afirmou Moore.

Melanie Giles, arqueóloga da Universidade de Manchester que estuda funerais com carruagens no País de Gales, observou semelhanças entre os artefatos: “Compartilham o mesmo estilo de arte celta”. Ela também sugeriu que a exagerada decoração celta poderia refletir resistência cultural à expansão romana. “Algumas pessoas pensam que isso é uma espécie de resistência aos romanos”, disse Giles. “É um povo celebrando sua arte celta e sendo um pouco mais ‘exibicionista’ a respeito disso.”

Objetos encontrados que os pesquisadores acreditam ser peças de carroças / Crédito: Divulgação/Universidade de Durham/Alexander Jansen

O estudo reforça a ideia de que os tesouros de Melsonby podem oferecer pistas valiosas sobre a elite celta, seus rituais funerários e sua relação com a Europa continental, ampliando a compreensão sobre o poder feminino entre os Brigantes e o papel das rainhas na sociedade da Idade do Ferro.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.