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485 anos do assassinato: como a morte de Francisco Pizarro redesenhou o poder no Peru

Assassinato de Francisco Pizarro: descubra como sua morte em 1541 redesenhou o poder no Peru e selou o fim dos conquistadores autônomos

Ilustração de Francisco Pizarro – Reprodução

Na manhã de 26 de junho de 1541, o governador do Peru caiu no próprio palácio em Lima, cercado por inimigos que antes dividiram ganhos e riscos na conquista. O ataque encerrou uma guerra particular entre conquistadores espanhóis e abriu espaço para outra lógica de poder, guiada pela Coroa. Quase cinco séculos depois, a morte de Francisco Pizarro ainda serve como chave para entender como o Peru deixou de ser um território de aventureiros autônomos e passou a ser um vice-reino vigiado.

O assassinato não surgiu do nada. Ele coroou anos de conflito pela posse de Cuzco, de encomiendas e de minas. Em torno dessa disputa, um grupo ganhou quase tudo, enquanto outro foi empurrado para a margem. Nas ruas de Lima, o ressentimento circulava em forma de piadas, ameaças públicas e sinais claros de que a violência política entraria no palácio pela porta da frente.

485 anos do assassinato de Francisco Pizarro: o que estava em jogo no Peru?

A trajetória que terminou no 26 de junho começou com a captura de Atahualpa em Cajamarca, em 1532, e com a entrada em Cuzco no ano seguinte. O acordo inicial entre os sócios, registrado na Capitulación de Toledo, delineou duas jurisdições que se sobrepunham: Nueva Castilla, sob comando de Pizarro, e Nueva Toledo, ligada a Diego de Almagro. Na prática, as fronteiras jurídicas ficaram nebulosas e abriram espaço para disputas permanentes por cidades, tributos e trabalhadores indígenas.

Com a fundação da Ciudad de los Reyes, em 1535, o governador instalou um centro de poder estável na costa. A partir daí, surgiu um núcleo duro de aliados que formou o chamado clã pizarrista. Irmãos do marquês, conterrâneos de Trujillo e dependentes próximos ocuparam cargos no cabildo de Lima. Ao mesmo tempo, receberam encomiendas estratégicas e acesso privilegiado às minas, o que concentrou riqueza e autoridade em poucas mãos.

Enquanto esse grupo se firmava na capital, a relação com o antigo parceiro se rompia de forma definitiva. A guerra civil entre pizarristas e almagristas ganhou seu ponto crítico na batalha de Las Salinas, em 1538. No campo, o exército leal ao governador derrotou as forças comandadas por Almagro. Em seguida, o prisioneiro foi executado em Cuzco, apesar de um testamento que mencionava direitos herdados pelo filho, conhecido como Almagro el Mozo. A partir daí, o ressentimento entre os almagristas passou a combinar luto, desejo de vingança e perda material.

Como a rivalidade Pizarro–Almagro alimentou o assassinato?

Após Las Salinas, a facção derrotada perdeu cargos administrativos, encomiendas e acesso ao governo. Os chamados “de Chile”, veteranos da expedição liderada por Almagro, chegaram a Lima em número significativo. Muitos viviam em situação precária, sem recompensas compatíveis com a participação nas campanhas. No cotidiano da cidade, relatos indicam humilhações públicas, como o famoso traje decorado com “figas” de prata, exibido pelo secretário Antonio Picado “para los de Chile”.

Esse ambiente reforçou a ideia de que só um golpe resolveria o impasse. Ao mesmo tempo, a Coroa observava o conflito com preocupação crescente. A chegada do licenciado Cristóbal Vaca de Castro, com poderes amplos para pacificar o reino e assumir o governo, enviou um recado claro ao marquês: a autonomia ampla dos conquistadores entrava em xeque. Entre Lima e Cuzco, a autoridade real buscava afirmar que os conflitos internos não poderiam mais definir o rumo do território andino.

O clima nas ruas refletia essa tensão. Na véspera do crime, testemunhos reunidos em processo judicial relatam três cordas penduradas na forca da praça principal, apontando para as casas do governador, de Picado e de Juan Velázquez. Bilhetes anexados nomeavam as supostas futuras vítimas. Essa encenação, feita em espaço público, não gerou punição imediata para os responsáveis. Para os almagristas, o episódio reforçou a sensação de impunidade. Para aliados do governo, ampliou o temor de que um atentado se aproximava.

Assassinato de Francisco Pizarro em 1541 mudou o poder no Peru?

A primeira tentativa concreta de matar o governador ocorreu em 24 de junho de 1541, dia de São João. Conjurados almagristas planejaram atacá-lo durante a missa, na igreja maior de Lima. O plano chegou aos ouvidos de um confessor, que transmitiu o alerta. Mesmo assim, o marquês apenas mudou a rotina. Ele decidiu ouvir a missa em casa e não organizou uma defesa robusta. Essa escolha mostrou confiança no controle da cidade, mas também subestimação do alcance dos adversários.

Dois dias depois, um grupo liderado por Juan de Rada avançou até o palácio, gritando “¡Muera el tirano!”. A guarda presente era reduzida, e muitos visitantes fugiram pelas janelas. A porta do salão principal ficou mal defendida. Francisco de Chaves tentou conversar com os invasores, porém caiu com uma estocada no peito ao se aproximar. Em poucos instantes, o que parecia um ato de intimidação se transformou em combate corpo a corpo dentro da residência oficial do governador.

O relato de cronistas e do processo contra os assassinos descreve uma reação rápida. O marquês armou-se às pressas, deixou parte da armadura de lado e envolveu um braço na capa para aparar golpes. Em seguida, avançou contra os atacantes, derrubando ou ferindo vários deles em sequência. Em certo momento, um conspirador foi lançado sobre o corpo do governador. Esse choque desequilibrou o defensor, que perdeu o controle da posição e abriu brechas para um ataque definitivo.

Nesse ponto, a narrativa da “morte heroica”, popularizada depois, começa a se distanciar das evidências. Estudos modernos sobre os restos mortais atribuídos a Pizarro apontam uma estocada profunda na região da garganta e múltiplos cortes de espada. Testemunhos antigos indicam que, já ferido, ele pediu confissão e desenhou uma cruz com o dedo ensanguentado no chão. Porém, o tratamento posterior transformou essa cena final em lenda edificante, usada para construir a imagem de um guerreiro que tombou cercado por inimigos, sem detalhar o contexto de guerra civil entre facções espanholas.

O que revelam o enterro de Pizarro e a reação da Coroa?

Logo após o ataque, partidários do governador retiraram o corpo às pressas do palácio e o levaram para a igreja maior de Lima. O enterro ocorreu de forma discreta, com pouca terra cobrindo a sepultura, em meio a uma cidade ainda tomada por tensão e saques. Com reformas sucessivas, a localização exata da tumba original se perdeu. Apenas no século XX, investigações arqueológicas e análises forenses indicaram, com forte probabilidade, quais seriam os restos mortais do marquês guardados na capital peruana.

Enquanto isso, na superfície política, o grupo almagrista aproveitou o vazio de poder. Sob pressão armada, o cabildo de Lima proclamou Almagro el Mozo como novo governador. Em seguida, começaram saques sistemáticos às casas dos antigos aliados de Pizarro, acompanhados por uma redistribuição oportunista de encomiendas e minas. Para muitos conquistadores, parecia a chance de recuperar posições perdidas desde Las Salinas. Para a Coroa, porém, o episódio confirmou que a lógica de bandos rivais precisava ser contida.

A resposta real ganhou corpo com a atuação de Vaca de Castro. Ele reuniu forças leais ao rei, enfrentou o governo de fato de Almagro el Mozo e o derrotou na batalha de Chupas, em 1542. A execução do líder almagrista encerrou o ciclo aberto com o assassinato do marquês. A partir daí, o Peru caminhou para uma estrutura vice-reinal mais centralizada, na qual governadores e enviados régios tinham menos margem para atuar como senhores quase independentes.

Ao observar esse percurso, surge uma leitura frequente entre historiadores: o 26 de junho de 1541 marcou o fim da era dos conquistadores autônomos, mas não representou alívio real para as populações indígenas. A disputa por Cuzco, pelas encomiendas e pelas minas mudou de mãos, enquanto o sistema de exploração sobre comunidades andinas permaneceu ativo. Em 2026, a efeméride dos 485 anos do assassinato recoloca uma questão incômoda: em que medida a substituição de caudilhos privados por uma administração vice-reinal alterou a vida de quem carregava o peso do trabalho e do tributo nos Andes?

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